26/05/09

Mercantilização da Medicina e da Saúde Pública

De 26 a 28/05 o tema em debate no Unicuritiba será a Mercantilização da Medicina e da Saúde Pública, conforme cartaz ao lado. Nos vemos lá. Abraços!

05/05/09

Ideologias


Administração é para administradores.

Engenharia é matemática.

Medicina é para Poucos.

Direito é de todos.

E para todos.

25/04/09

O que caiu com o muro de Berlim?

Dia 5/5/09 tem mais uma rodada de discussões temáticas no miniauditório do Unicuritiba, às 17:30. O tema dessa vez são os 20 anos da queda do muro de Berlim, com o prof Wilson Maske. A entrada é franca. Até lá.

16/04/09

Reforma Agrária no Brasil

A propósito do dia internacional das lutas camponesas, comemorado dia 17/4, realizaremos um ciclo de palestras e debates sobre o tema da Reforma Agrária no Brasil, dias 22, 23 e 24/4, no Unicuritiba, sempre às 17:30, no miniauditório.
Até lá!

05/04/09

Nossos Rumos Meus


Olho pra trás e vejo um rastro.
Vejo um rabo.
Que está apegado a mim.
Penso que sou o hoje,
Mas descubro que sou o sempre.
O mesmo que fui,
Mas diferente.
Diferente do que era,
Mas de alguma maneira,
O mesmo.
O meu futuro?
Nem sei se virá.
Mas pra onde vou,
Depende de quem me acompanhar.
Sou o eu-outro contínuo e infinito.
Dependo de você,
Mesmo que você não saiba,
Mesmo que você não queira.

20/03/09

Revolução Cubana

A propósito dos 50 anos da Revolução Cubana, realizaremos dia 25/03, no Unicuritiba, uma palestra com o prof Renato Carneiro, professor de História da América Latina do curso de Relações Internacionais do Unicuritiba.
Nos vemos lá!

11/03/09

Perder ou ganhar sozinho


Havia  uma brincadeira que meu pai sempre fazia sobre um amigo dele que era maratonista, que era dizer o seguinte em tom de deboche: "Fulano, chegou em segundo lugar na São Silvestre na categoria dele. (Pausa para a reação de surpresa do interlocutor) Só havia dois competidores". A brincadeira do jeito que era feita, com a ênfase que ele dava, se tornava mortal, todo mundo caía na risada. Mas é claro que se tratava de uma piadinha de mau gosto porque zombava da capacidade (ou até da competência) dos outros.
Hoje pensei numa possibilidade de modificar aquela piadinha do meu pai, dando um tom ainda mais dramático: e se o sujeito da piada em vez de competir com apenas um, competisse sozinho e ainda assim perdesse? Aí lembrei de outra brincadeira infame que ele costumava contar sobre outro amigo: "Beltrano candidatou-se a vereador e não teve nenhum voto. (De novo a famigerada pausa de uns cinco segundos para interlocução) Nem ele mesmo votou nele".
Talvez a idéia de competir sozinho não seja competir, já que competir pressupõe a presença de pelo menos duas pessoas. Disputar alguma coisa consigo mesmo e não alcançar um resultado positivo parece ser um atestado de incompetência. Isso mexe com a auto-estima. A falta de competidores coloca o competidor único numa condição de humilhação se ele não alcança um bom resultado. Essa derrota se torna uma derrota pessoal. Diferente da derrota imposta por um adversário mais capacitado, o que até alivia a consciência do derrotado. Afinal, quem tirou em primeiro lugar estava (pretensamente) melhor preparado!
E o pior é pensar na situação oposta, que mesmo ganhando ele seria humilhado. Quer dizer, se o competidor único ganhasse, apareceria algum sacana que diria: "mas também, com o gol vazio (sem adversários) até eu!"
Competir consigo mesmo deveria ser evitado e até proibido. Só gera traumas.
Mas como as derrotas também ensinam... Bola pra frente.

08/03/09

Mundo acelerado

Causa-me temor os avanços da contemporaneidade.
Esses avanços sobre mim.
E eu que não avanço, paraliso.
Fecho os olhos para não enjoar com a velocidade do mundo,
Para não enjoar da vida.
E sinto que vomitam em mim sem se importar.
Acho que isso é envelhecer.
__________________________________
Poesia sobre uma experiência nova e ingrata numa viagem de ônibus para São Paulo.

25/01/09

Tortura

Você é torto
E me entorta.
Você me dobra!

Você é sujo
E me suja.
Eu te olho!

Você é grosso
E me engrossa.
Você me choca!

Você me conhece a fundo
E eu te conheço.
Você me olha!


Meia vida
Não é meia morte
É inteira.

Minha vida não é minha,
Mas também não é sua.
Paulada!
Sua tortura me tortura.

24/01/09

Carnaval


Como a folia diria:
Ainda falta alegria.
Samba nos passos,
Beijos e abraços.
Esses dias não são os últimos,
Mas são curtos.
Aproveitar é prolongar,
Ou mesmo encurtar,
Dependendo de quem vê o tempo passar.
Balança a pança
E desce a anca.
Rebola-bola
E franze a testa.
E o que se pensa
Não se pensa.
Nem se vai.
Só se cai.
Cai no samba
E deixa bamba.
Dias de carnaval
São sem igual.
Mesmo sem alegria,
Até sem fantasia,
O jeito é cair na folia.

16/01/09

Chato!


A sua chatice me chateia.

Achatado

É chato.

Chatear

É chato.

Chato pega!

12/12/08

O sentido do público


Ontem publiquei uma poesia em que tratava o termo "público" em seus distintos sentidos, confundindo propositadamente seus significados. Aproximando e afastando os diferentes sentidos de "público". Na verdade, o que me inspirou foi algo que me revoltou, foi saber que o termo "público(a)" quando usado como qualificativo no Brasil, desqualifica: como em educação pública, saúde pública, concurso público etc.
Por vezes o público é sinônimo de "para pobre". De um empobrecimento daquilo que está sendo qualificado como público, ou desqualificado pelo público. A coisa pública (res publica) era o espaço de todos e para todos. Era origem e destino da ação que se realizava por todos e para todos. Hoje, o público é (do) pobre. E a pobreza de quem usa o pública parece desqualificar o serviço prestado, com raríssimas exceções. É assim na saúde e na educação públicas. Saúde e ducação para pobres, para esse poviléu que não se parece comigo, que não merce o que eu posso. Triste falta de identidade, triste fim da cidadania, que vem da idéia de igualdade de direitos, igualdade de acesso a direitos! O público já é pobre.
Mas por vezes o público tem significado ritual de acobertamento de interesses privados em nome do público. Alguns concursos públicos, por exemplo, são destinados a pessoas específicas: desde o edital até o resultado, passando pela formação da banca os destinatários da vaga aparecem evidanciados. Utiliza-se todos os simbolismos do "Poder Público" para realização de interesses particulares. Quem não conhece uma história assim? Os aprovados aprovam suas aprovações. Os reprovados reprovam a prova que não prova nada além da capacidade de articulação política dos aprovados. Talvez se queira aprovar o conhecido por medo do desconhecido. O desconhecido pode desistir, ameaçar ou matar. Antes que o desconhecido me mate, eu o mato, eu o reprovo, eu o descarto. Mato a possibilidade dele participar em igualdade de condições, de ver seus esforços (e gastos) compensados.
Nos dois casos a negação da palavra público(a) se dá pelos mesmos fundamentos identitários e éticos: eu não me reconheço no outro e, por isso, não o vejo como um igual; eu não me reconheço no outro e, por isso, passo a perna nele. Os servições públicos vão cada vez mais se destinando aos pobres e os direitos de todos vão se tornando privados, privatizados nas relações personalistas com o(s) poder(es). Triste falta de identidade com o outro! A falta de identificação com o outro gera a falta de respeito para com esse outro e seus direitos.
Vamos recomeçar!

11/12/08

O Público


Para o ator o público pode ser sua inspiração.
Para o músico pode ser a fonta de seus aplausos.
Para o artista plástico pode ser seus próprios pares ou seu mercado.
Mas o público somos nós.
Todos nós:
Pares, mercados, inspirações.
O motivo de tudo é o público.
O problema todo somos nós.
Publico em seu nome.
Todos em tudo.
Razão de ser, mesmo sem razão.
Para todos, tudo.
Eu, tu, ele, nós, vós, eles.
Todos.
Tudo.
Nada.
Tudo ou nada é uma linha tênue.
Todo poder a todos.
Nenhum poder a ele.
Todo poder a mim.
Todo poder pode não ser poder.
Todo poder pode não poder.
Público Atônito.
Público paralisado.
Extasiado.
Público privatizado.
Privado.
Privada pública não tem dona.
Ninguém quer privada.
Ninguém quer o público.
Nem o artista se importa mais.
O público virou cash.
Virou trash.
O público privado não interage,
Não pensa,
não participa.
Só consome.
Só tem fome.
De público em público,
Privatiza-se o círculo.
O circo.
Ou qualquer espetáculo:
Receptáculo do expectado:
A mídia não é o público.
A mina não é o público.
Não é do público.
O público não publica
Porque não é mais público.
O público não transforma
Porque não é público.
O público já não tem poder.
Não tem poder público.
De todos.
Para todos.
Pára tudo!
Eu quero o público de volta.
Eu quero público.
Eu quero ser público.
Eu quero tudo
Para todos.
O público é do público.
O público publica.
O público quer,
O público faz.

30/07/08

Sobre orgulho próprio



Há um provérbio bíblico que traz uma ilustração sobre cães que voltam ao próprio vômito. A passagem diz o seguinte: "Como o cão que volta ao seu próprio vômito, assim é o insensato que reitera a sua estultícia". Em palavras contemporâneas ficaria mais ou menos assim: "O tolo que faz uma tolice pela segunda vez é como um cachorro que volta ao seu próprio vômito". Penso que pode ser que em momentos de extrema fome talvez um cão lamba seu próprio vômito. Ou talvez um cachorro com algum tipo de doença. Mas como o objetivo dessa postagem não é fazer uma reflexão sobre cachorros, e nem sobre vômitos, acho que hoje entendi o significado de um provérbio como esse: provavelmente o sábio provérbio esteja falando mesmo é de orgulho próprio. Às vezes associamos o orgulho a um sentimento negativo. Mas quem disse que não é bom ter orgulho? E aí entendo esse orgulho como amor próprio, valorização de si mesmo, auto-estima equilibrada. Cometer duas vezes o mesmo erro é tão repugnante quanto lamber o próprio vômito. Sentir falta de quem não sente a sua falta (ou não demonstra sentir a sua falta) pode ser também um sinal de algum tipo de fome (carência) ou de doença. Ou pode ser uma relação sado-masoquista. Afinal, há quem goste. A quem interessar possa. Viva a liberdade de pensamento e de expressão!

05/05/08

Viver-Sonhar-Viver


Se a vida não fosse como é...
Seria igual.
Como faz falta sonhar!

Imaginar e desejar
Uma outra vida,
Um outro lugar.

Pensar que as coisas estão como estão,
Mas não são.

Querer mudar.
Pra lá,
Pra cá...

Fugir de si.
E encontrar-se no outro.
Mesmo que um novo outro.
Produzir um novo eu.
Re - co - me - çar !

Viver...
Sonhar...
Viver-Sonhar!

24/04/08

Carta a um amigo


Querido amigo,
Sinto-me participante da dor que você provocou e da que com certeza sentiu, e talvez ainda esteja sentindo, com tudo que passou. Sinto-me também culpado, achando que a nossa distância talvez tenha criado oportunidade para que tudo acontecesse desse jeito. Afinal, éramos tão unidos e presentes na vida um do outro... Fico pensando, "quem sabe se eu estivesse por perto"... Ou, "se eu procurasse mais os meus amigos"... Dizem que não devo carregar essa culpa, mas fico preferindo explicações que me coloque como co-participante das dores de vocês. E não consigo participar das consequencias sem também participar das causas. Fico achando que meu sentimento é incompleto, que minha omissão foi ainda maior.
Estou escrevendo para me desculpar pela ausência e para exortá-lo a erguer a cabeça e buscar acertar. A corrigir de vez os erros, afastando-se das causas, e recomeçar. Sei que recomeçar no mesmo lugar é difícil porque as coisas e as pessoas não nos deixam esquecer nossos erros. Por isso, sou a favor de radicalismos para a reconstrução da vida. Pois corrigir-se é dar meia volta, é mudar de rumo. E é também lançar tudo para o alto e recomeçar de novo outra vez. O pleonasmo é para reforçar a necessidade de zerar, de apagar e (re)começar. Sei, por experiência própria, que essa é uma atitude decisiva para quem quer recomeçar e que, embora pareça transloucada, trará consequências maravilhosas. Basta esperar.
Sinto muito!
Fuja para recomeçar!

29/02/08

Homenagem


Hoje estou sendo homenageado pela turma de Servico Social que ingressou na UFES em 2004, da qual fui professor de Sociologia I. Foi uma turma marcante porque carinhosa e estudiosa. E olha que eu peguei pesado com eles, dando teorias sociológicas para análise das desigualdades sociais. Mas pelo jeito valeu a pena todo o esforço. Desejo todo sucesso pessoal a esses novos profissionais dedicados a minorar os problemas sociais brasileiros.
UM BRINDE A VOCES!!!

11/01/08

Derrotas e Vitória

São tantas as derrotas,
São todas as derrotas,
Que nos faz pensar
O valor de uma vitória.
Uma vitória.
Aquela vitória.
Só será vitória
Se puder ser valorizada como tal.
Vitória de quem não sabe o que é derrota,
Não é vitória.
É cotidiano,
É rotina,
É vida corriqueira.
Só não é vitória.
Só conhece o gosto da vitória
Os que sabem o que é derrota.
Quem sabe o que é derrota?
Quem sabe o que é vitória?
Vitória é a realização de quem sabe o que é derrota.
Uma derrota.
Muitas derrotas.
Cem derrotas,
Uma vitória.
Sem derrotas,
Não há vitória.
Passo por todas as derrotas,
E são muitas derrotas,
Para aprender a valorizar uma vitória:
Uma vitória
Só é vitória porque
São muitas as derrotas.
Uma vitória,
Quando se sabe o que são derrotas,
Tem um sabor melhor do que
Todas as vitórias,
Quando não se sabe o que são derrotas.
Porque quando não se sabe o que são derrotas,
Não se sabe o que é vitória.
Nem uma vitória.
Nenhuma vitória.
Vivo as derrotas,
E são muitas derrotas,
Aguardando a vitória.
Uma vitória.
Uma vitória é mais intensa
Que muitas derrotas.
Chamam isso de esperança.
Chamo isso de certeza.
Certeza de que as derrotas não têm sentido em si mesmas.
Quem dá sentido às derrotas são os derrotados,
Futuros vitoriosos.
São vitoriosos
Quem sabe o que são derrotas.
E a vitória que se espera,
Mesmo em meio às derrotas,
Nos faz prosseguir,
Aprender e caminhar.
Rumo a uma vitória,
Que só sabe o valor
Quem sabe o que são derrotas.
Vitória sem derrotas
Não tem sabor de vitória.
E só é vitória
Porque pôde ser valorizada como tal,
Graças às derrotas.

09/01/08

Pensa e sofre


Só quem pensa na vida
Sofre na alma.
Só quem sofre na vida
Pensa na alma.

03/01/08

Pare tudo agora!

Faça silêncio e ouça os sons.
Abaixe a cabeça e curta o chão.
Abra os olhos e veja os tons.

Abra a boca e prove bem devagar.
Levante a cabeça e imagine voar.
Feche os olhos e sinta a brisa passar.

A velocidade do mundo você que faz.

01/01/08

Re-ver e re-viver!



Foi um ano como muitos, cheio de alegrias e com algumas tristezas. Pensar no que passou, fazer um balanço da vida até aqui, das coisas boas e ruins que aconteceram nos últimos 365 dias, é mais um daqueles exercícios de que não podemos escapar. Qual foi o saldo de tudo que passou?

O exame de nossas experiências depende, entre outras coisas, de saber quão marcante uma experiência foi na nossa vida e, mais ainda, de saber o grau de importância que demos a algumas delas, seja considerando-as boas ou ruins. Quer dizer, uma experiência pode ser importante pra mim porque eu atribuo maior valor àquela experiência que a outra.

Mas nenhuma avaliação do que passou deve levar em conta só o que passou. Nenhuma retrospectiva do ano deve deixar de levar em conta também o presente. Nenhum balanço do ano deve deixar de lado o fato de que ainda estamos vivos. Com ou sem saúde, estar vivo é ter a possibilidade de novas experiências, agradáveis ou não, de novos dias e de, no futuro, realizar outras avaliações da vida.

Enfim, qualquer que seja o peso que atribuamos a uma experiência negativa que vivemos, o balanço do ano tem de ser sempre positivo, porque ainda há vida. A vida é o que há de mais importante a avaliar. Mesmo que algumas vidas tenham se perdido durante o ano, temos que lembrar que temos a chance de recordar e avaliar. Pensar no que ficou de quem se foi e em quem ficou. Estar vivo é presente. É um presente. Não se trata de uma perspectiva egoísta do tipo "o que importa é que estou vivo!" Mas como quem lembra que a morte nos ensina a vida, precisamos continuar a viver, a aprender, a avaliar e a viver. A vida se renova quando se aprende com ela. Não estou dizendo que é fácil, mas é necessário: Re-ver e Re-viver! Feliz ano novo!

PS: Homenagem a alguns amigos que perderam entes queridos no ano que passou. Estamos juntos no enfrentamento da dor e da saudade!

15/11/07

Deus não está


Deus não está à minha disposição.
Deus não está pronto a me servir.
Deus não está esperando o meu louvor.
Deus não está precisando de minha ajuda.
Deus não está nas coisas.
Deus não está em tudo.
Deus não está.
Deus é.

11/11/07

Palavras


Palavras são como vento:
Ajunta e espalha.
Palavras ao vento.
Palavras são como mar:
Acalma e destrói.
Palavras encharcadas.
Palavras são como sol:
Aquece e seca.
Palavras secas.
Palavras são como armas:
Encorajam e matam.
Palavras assassinas.
Palavras são ditas
E são sentidas.
Palavras sem sentido.
Uma pala lavra.
Larva.
Palavras são palavras.
São palavras.
Só palavras.
Sem palavras.
Palavras.

06/11/07

Escrita objetiva


Alguém me perguntou por quê eu escrevo coisas importantes em forma de poesia em vez de escrever textos mais elaborados. A pessoa que me perguntou julgou que as coisas sobre as quais escrevo sejam "importantes". E, sinceramente, isso me deixou satisfeito porque também as considero "importantes". Tento com meus escritos mostrar que situações e atitudes aparentemente banais podem estar estruturadas em nossa personalidade ou em nossas relações sociais, para o bem ou para o mal. Aquilo que aparece como individualidade pode ser uma expressão do social: quando olhamos para os lados e para trás e tentamos situar nossas vidas em meio a outras vidas, descobrimos que somos parecidos, que temos as mesmas expectativas e dificuldades. Ora se temos tanta semelhança, isso parece indicar que nossas ações e pensamentos sejam mesmo socialmente condicionados. Mas apesar das semelhanças que nos aproxima, o cotidiano nos separa mais que nos aproxima. Isso se deve à individualização excessiva da vida: somos bombardeados o tempo todo por ideologias individualizantes de consumo e estilo de vida e vivemos como se estivéssemos sós, como se precisássemos resolver sozinhos nossos problemas, como se nossas crises fossem únicas, tão diferentes das dos outros. Acabamos mesmo nos tornando sós. Mas quando fazemos o exercício de nos comparar com outras pessoas e experiências, podemos concluir que há muito em comum em nossas escolhas e angústias. E que, portanto, deveríamos nos aproximar mais, compartilhar mais, nos ajudar mais. Nossos problemas individuais são também sociais, fruto de formações, socializações e desafios que são comuns a todos nós que vivemos numa mesma sociedade e um mesmo tempo histórico.
Mas voltemos objetivamente à questão que deu origem a essa postagem: por quê escrevo poesia em vez de textos como este? Vou ser direto agora: porque as gerações atuais, que são meu público-alvo, não se dedicam à leitura. São tantos textos disponíveis em todo lugar (e até imagens podem ser lidas como texto) que um texto longo corre o risco de ser mais um texto, e talvez seja mesmo. A geração MTV e internet não quer gastar tempo lendo longos textos, ainda mais de desconhecidos, que ao final possa dar a sensação de que foi tempo perdido. Para tentar alcançar com maior eficiência esta geração, fazendo-a refletir após a leitura de um texto meu, prefiro escrever textos curtos, mesmo que isso implique numa perda de profundidade do texto. Confio na capacidade intelectual dos leitores e aposto na iniciativa deles de aprofundar algumas questões levantadas. Ademais, os textos escritos com objetividade e clareza servem como complementação às discussões conduzidas por mim em sala de aula.
Boas leituras! E não deixe de refletir!
Obs: Este foi um texto longo. Quem sabe quantos não desistiram no meio?!

05/11/07

Preferir


Pre [antes, anterior];
Ferir [machucar, marcar].
Machucar antes.
Marcar antes?
Como uma questão de múltipla escolha
Cuja resposta é a marca.
Marcar na folha.
Marcar uma resposta
Ou outra.
Machucar o papel
E deixar a marca na opção escolhida.
Um X,
Um círculo
Ou uma marquinha qualquer.
Uma marquinha.
Uma marca na folha.
O quanto antes terminar de marcar,
Melhor.
Antes.
Marcar a resposta
Antes de continuar.
Uma a uma.
Marcar a resposta,
Escolher.
Pode ser certa
Ou errada.
Marcar a resposta,
Preferir.
Preferir é escolher.
Mas o que leva a preferir?
Prefiro não dizer.
Quero fazê-lo pensar.
Pense nos fatores
Que levaram você a continuar.
Continue pensando.
De onde vem suas preferências?
De onde vem suas escolhas?
São suas?
O que você prefere?
Preciso ir.
Prefiro questionar.
E você.
E você?

06/10/07

Tem gente que não é gente



Sofri na carcaça,
Aprendi na raça:
Pensava que todo mundo era igual,
Que todo brasileiro era brasileiro.
Mas tem gente que não é da gente,
Que se sente diferente,
Que não nos trata como gente.
Essa gente está aqui.
Ou pode estar aí.
Mas onde quer que estiver,
Não está nem aí.
É gente de raça,
Gente sem graça,
Gente sem praça
E que se destaca.
Gente como a gente?
Gente que não é gente.
Gente?!

05/10/07

Sonhos


Os sonhos nos levam longe.


Os sonhos realizados


E os sonhos frustrados.


Todos os sonhos nos levam longe.


Longe de nós mesmos,


Longe dos outros,


Longe do desejado


(para além ou aquém)


Longe oniricamente


Ou geograficamente.


Às vezes é difícil conciliar a projeção da vida


Com a execução do projeto de vida.


A vida é um sonho.


A vida não é sonho.


Sonhar e viver


São dois lados de uma mesma moeda.


Impossível sonhar sem viver.


Impossível viver sem sohar.


O sonho é tão real que nos dá vida.


O sonho é vivo.


A vida é tão sonhada quanto vivida.


A vida é sonho.


E ai de nós se não sonharmos,


Se não vivermos.


Vivo sonhando.


Sonho com um dia,


Com um momento


Ou com um lugar.


E sei que um dia o sonho se realiza.


E sei que outro dia, não.


E sigo a vida sonhando.


E sonho enquanto vivo.


E vou sendo levado a muitos lugares.


Os sonhos nos levam longe.


Os sonhos nos levam pra longe.


Os sonhos realizados


E os sonhos frustrados.

07/09/07

Temporal




Veio vindo por detrás


Com uivos de destruição.


Escurecendo e alvoroçando.


Redemoinho de papéis e lixos.


Ventania que anuncia


O fim do calor.


De repente


Vem vindo,


Vem vindo,


Chegou.


Cobre as nossas vidas


Em trevas,


Em plena tarde.


Em pleno dia.


Molha nossas cabeças,


Corpos,


Casas,


Carros.


Derruba o que estava em pé


E parecia firme.


Tudo se mostra frágil


Ante o poder da tempestade


Que cai sobre todos.


E chove um temporal.

06/09/07

Não compreendo tudo







Não compreendo muitas coisas na vida: são coisas incompreensíveis mesmo ou eu que não consigo dar sentido a essas coisas?!
Sei que nem tudo é pra ser compreendido. Do contrário, não haveria tempo pra viver.
Desencana!

05/09/07

Refletir





Refletir é uma atitude
De observação e questionamento.
Não é só contemplação.
É também flexão.
Re-flexão.
Refletir é sempre auto-reflexão:
É como olhar-se no espelho antes de sair
E considerar as belezas e feiuras,
Os acertos e erros.
E mais:
Não só olhar para si próprio no espelho,
Mas também para o seu entorno.
Pode haver roupas espalhadas,
Utensílios empoeirados,
Móveis,
Pessoas.
Há sempre pessoas.
Você não precisa olhar para dentro delas
(cada um se auto-examine),
Mas para as relações e experiências mantidas por elas.
O que essas relações e experiências alheias
Podem me ensinar?
Como podem me ensinar?
Refletir é um verbo,
É uma atitude de observação
E crítica
(auto-crítica).
Refletir é uma prática.

Vamos tentar?

25/07/07

Foto na Parede



Foto na parede indica saudade. Saudade de alguém que já se foi, e que pode até não voltar mais, ou de um momento que se quer tornar inesquecível. Seja como for, pendurar uma foto na parede é uma atitude de reverência, de gratidão e/ou contemplação. Os judeus vêem isso como idolatria, adoração de uma imagem. Prefiro entender como reconhecimento. Reconhecimento de algum momento importante vivido ou de alguém especial. Mas pode haver reconhecimento, gratidão, sem foto pendurada na parede. Sem foto. E sem parede. Que as paredes da alma, da memória, pendurem as lembranças e os lembrados. Se somos tidos como ingratos porque não reverenciamos os mais velhos ou nossos "heróis", que sejamos gratos mesmo sem estardalhaços. Que a memória funcione sempre e que lembremos com emoção as pessoas que marcaram, de perto ou de longe, nossa existência. Chega de ingratidão! Vamos verter lágrimas, estender tapetes, bater palmas, abraçar, demonstrar carinho das maneiras mais diferentes. Porque alguém sempre merece esse reconhecimento, porque alguém sempre espera esse reconhecimento. Porque amanhã precisaremos também ser reconhecidos. É a vida, que é razão, mas também emoção.
**************************
25/07, hoje é dia lembranças!

24/07/07

Novo Amanhecer



Ainda que problemas existam,
Ainda que o hoje seja sombrio
E o agora duvidoso,
Ainda que as normas falhem,
Ainda que...

Existe você, professor!
Que luta pra criar.
Que cria pra lutar.
Que ama ensinar.
E ensina a amar.

Existe você, professor!
Que ao sabor do deve-não-deve,
Ao sabor do pode-não-pode,
Dá sempre o melhor de si:
Abre caminhos,
Passa sozinho.
E descobre
Que ainda há muito por fazer!

Ah, professor,
Há muito que ensinar,
Há muito que aprender,
Há muito a transformar,
Enquanto se espera com fé
Um novo amanhecer!
Nele será indispensável,
Você!
Juntos vamos caminhar,
Vamos lutar
E transformar.
Juntos vamos buscar,
Cada dia,
Esse novo amanhecer!

Esmeria Pereira Reid dos Santos, 1988.
......................................................................
Conforme havia prometido, publico hoje a poesia que está emoldurada e pendurada no hall de entrada da Escola de Educação Infantil Profª Esmeria Pereira Reid dos Santos, inaugurada ontem, em Macaé/RJ. Acima, uma foto da escolinha.

23/07/07

Escola


Ontem foi inaugurada a Escola Municipal de Educação Infantil Profª Esmeria Pereira Reid dos Santos. Bela homenagem da prefeitura de Macaé à minha mãe, que depois de amanhã faria 57 anos e que faleceu há 11 meses. Faço desta postagem minha gratidão aos empreendedores dessa homenagem. Particularmente, minha gratidão à Secretária de Educação de Macaé, Milmar Madureira Pinheiro.
Ao lado, foto de duas aluninhas da escola uniformizadas.
Amanhã vou publicar aqui a poesia de minha mãe que está pregada no hall de entrada da escola.

11/07/07

Tarefas, reflexões e humildade


Tenho andado bastante atarefado na execução de minha tese de doutorado, razão pela qual este blog anda meio desatualizado. São muitas leituras, anotações, rasuras e muitos, mas muitos pensamentos que vem e vão na tentativa de fechar alguns aspectos que ainda estão em fase de amadurecimento. Confesso que é difícil realizar as tarefas do dia-a-dia sem perder de vista o contexto social em que vivemos e a capacidade de reflexão, de crítica e auto-crítica. Mas essa dificuldade pode ser vencida com um pouco de disciplina própria. A reflexão tem de se tornar também uma tarefa cotidiana que precisa ser realizada. Basta eleger a reflexão sobre o mundo da vida e sobre nosso papel neste mundo da vida como prioridades. Reflexão sobre as crises pelas quais passamos como sociedade e como indivíduos. E crise não é sinônimo de algo ruim, pode indicar um processo de mudança, por exemplo. Toda mudança, por menor que seja, gera alguma crise.
A reflexão, que significa também auto-reflexão, deve ser uma de nossas prioridades de todo o dia. Diariamente passamos por experiências que nos dão a possibilidade do exercício da reflexão. Acontece que muitas vezes não aproveitamos essas oportunidades.
Para quem não sabe, o exercício da reflexão é o exercício da compreensão. E o exercício da compreensão só poderá ser feito com o levantamento de questões que possam nos ajudar a entender ou interpretar certas situações que passamos. Não se deve querer com a reflexão encontrar respostas, mas apontar possibilidades de compreensão de nossas crises sociais e individuais. Algumas de nossas crises individuais são sociais. E carregamos sozinhos o peso de uma crise que achamos que é só nossa porque não realizamos o exercício cotidiano de olhar para fora, de olhar para os lados, e de perceber que passamos por crises tão comuns na sociedade em que vivemos. Outras vezes diminuimos nossa responsabilidade pessoal em relação a uma determinada crise porque a entendemos como social. Mas nem sempre somos iguais, não é? Às vezes nos metemos em crises pessoais mesmo, damos vida aos nossos maiores defeitos.
A reflexão é essa tarefa de olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo, de sondar nossas próprias intenções e compreender as atitudes alheias. As tarefas cotidianas tendem a nos tirar da prática da reflexão sim. Mas às vezes apenas justificamos a nossa alienação, a nossa não tomada de consciência sobre o mundo e sobre nosso papel no mundo, com o excesso de atividades. Pode haver reflexão mesmo em meio às atividades diárias. Aliás, a reflexão deve ser também uma atividade diária. Mas não há, nem pode haver, reflexão sem humildade. Humildade para reconhecer que tenho problemas. Humildade para entender que sou parte de uma sociedade, que o mundo não gira em torno de mim.

29/06/07

Aniversário




Aniversário é todo dia.

Mas tem dia especial.

Um dia em que todos juntos

Celebramos o que é vital:

A vida que se foi,

A vida que se vai.


Aniversário,

É momento de alegria,

De esperança

E reflexão.

Todos os dias são vivos

Na memória de quem relembra

O passado e projeta o futuro

Num dia especial:

Aniversário.


Aniversário

É tempo de compartilhhar,

De estar com,

De dividir

E celebrar.

Viva!

Vivamos!
-------------------------------------------------------------
Mesmo que distantes, podemos curtir juntos esse momento alegre. Conto com seu carinho, sempre.
...
Um forte abraço pra você.

27/06/07

Ralo


Pra onde vai a água suja que escoa pelo ralo? Ninguém se pergunta algo assim. Também se questionássemos até isso, provavelmente não viveríamos. É sobre algo como um ralo, que leva a água suja para não se sabe onde, que escrevi na postagem de ontem. O melhor, para continuarmos vivendo bem com nossas consciências, é não saber onde deságua a boca do ralo. Mas sempre tem um rato que desce pelo ralo e vai até o desaguadouro. E sempre tem um rato que sobe pela tampa do bueiro e nos ameaça com suas doenças infecto-contagiosas. É mais ou menos assim a fossa da desigualdade no Brasil. Quem está na superfície produz lama, mas não quer saber onde ela vai cair. Quem está dentro do esgoto quer saber de onde vem tanta podridão. "Provavelmente, o lugar de produção da sujeira deve ser mais rico (em todos os sentidos) que aqui embaixo." Mas o rato que tenta sair do esgoto para se alimentar da sujeira em sua origem, não sabe que quem produz a sujeira não a suporta, não a quer por perto. Quem produz a sujeiro lava suas mãos para tirar qualquer vestígio que teime em se prender à vida. E deseja que a sujeira retirada das mãos vá para bem longe, caia nas correntes de água que vão até o mais profundo da terra, onde não se imagina. Mas o sujeira cai ao seu lado sem ele perceber. E ele vive nojentamente, sem perceber.
A desigualdade social abre um ralo na nossa vida cotidiana por onde escoa piadas preconceituosas, brincadeiras humilhantes, abraços hipócritas, ajudas inescrupulosas, desvios de verbas públicas, tráfico de influências, clientelismos, homofobias de todo tipo, terrorismo, intolerâncias... E todo esse material nojento vai lavando a nossa alma e levando nosso orgulho de ser diferente, de ser melhor. Só não leva o medo dos ratos saírem dos esgotos e estragarem o nosso banquete. A pobreza se torna uma ameaça numa sociedade onde a riqueza é mal distribuída. A sujeira que sai das mãos dos ricos cai sobre os pobres. Parece maniqueísmo, mas não é. Não no Brasil. O crime de colarinho branco, as corrupções políticas, crimes típicos de quem tem acesso ao poder, se reproduz com alterações entre os que não tem nenhum poder. Quem não tem poder pega em armas. Sem percebe que seu crime é punido com mais rigor que o crime cometido por aqueles que têm as mãos sujas. O criminoso que está dentro do bueiro está todo sujo de lama. O criminoso que está nas assembléias políticas tem só as mãos sujas. Não tem mais, ele acabou de lavar. A sujeira de suas mãos agora limpas faz mergulhar os ratos do esgoto em merda. É o que sobra aos que estão no fundo. E esses que estão no fundo, vai continuar no fundo. Porque quando subirem à superfície e incomodarem os ratos limpos, serão rechaçados com força, serão presos ou empurrados de volta à lama.
O segredo da boa convivência até aqui tem sido fingir que os ratos de cima não existem. Eles fazem o mesmo com os ratos de baixo. Isso vai mantendo a ordem e a harmonia entre todos.
Mas essa harmonia não existe, nunca existiu. Sem dúvida, esse ralo precisa ser tapado. Sob pena de continuarmos os mesmos sempre: sociedade desigual.

26/06/07

Matamos Felinho!!



Felinho nasceu igual a todos:

Foi bebê, criança e adolescente.

Mas nunca foi gente.

Nasceu numa família batalhadora.

Que nunca precisou de metralhadora.

Tinha muitos irmãos.

Tinha poucos recursos.

Quando menino gostava de correr

E de jogar bola.

Estava no sangue:

Seu avô foi jogador amador e

Seu irmão foi jogador profissional.

Era magrelo,

Esguio,

Veloz.

Mas não conseguiu fugir da maldade

E da falta de oportunidade.

Na infância foi abusado.

E abusaram dele.

Foram os meninos maiores de sua própria rua.

Virou piada,

Entrou na vida.

Percebeu ainda criança

Que não era igual,

Que nunca fora igual,

E, talvez, que nunca seria igual.

Seu problema é que era negro

E pobre.

Percebeu logo que sua cor

Era fator principal

De distinção social.

Tentou resistir às evidências,

E levou sua luta às últimas consequências.

Se envolveu nos espaços destinados aos negros na Esfera Social:

Foi aprendiz de pedreiro

E amou o carnaval.

Frequentou escola,

Abandonou a escola...

E começou a dar pequenos golpes.

Foi dando golpes,

Como se descontasse os golpes que levava.

Um dia fez uma tatoo.

Aí completou:

Preto, Gay e tatuado.

Tá roubado!

Foi preso a primeira vez:

E voltou a ser de todos.

Foi solto:

Não era de ninguém.

Se embrenhou no mato.

E a polícia atrás.

Passaram-se dois dias

E a polícia atrás.

E lá, longe da família,

E do olhar social,

No meio do matagal,

Encontrara o desfecho de sua vida

Nada triunfal:

Onze tiros.

Seis nas costas,

Três na cabeça,

Dois no braço

E seis no mato.

Viveu pouco,

Talvez até a primeira infância.

E começou a morrer quando começou a percorrer

O destino que já lhe estava traçado.

><><><><><><><><><><><><><><><><><><><><><><><><><

Matamos Felinho, Charutinho e tantos outros. Matamos e não percebemos como. Não entendemos como reproduzimos desigualdades sociais e raciais. E que peso essa desigualdade reproduzida por nós tem na vida de suas maiores vítimas. E não é pra entender mesmo. O não-entendimento desse mecanismo perverso que nos faz excluir o outro, por qualquer motivo que seja, é parte de uma ideologia que nos faz acreditar que as coisas são assim mesmo, que é natural. Que o excluído é derrotado, perdedor. Entender esse mecanismo poderia nos fazer romper com essa lógica de reprodução de desigualdades. Mas quem disse que queremos diminuir as desigualdades sociais? Por isso, é melhor que continue assim, sem sabermos como matamos, como excluímos, como reforçamos desigualdades... Triste fim de Felinho. Triste fim nosso. Triste fim.

Até!

25/06/07

Livros e leitores




Livro novo
É morto.
Livro lido
É vivo.


Livro que já foi lido tem alma,
Tem marcas,
Manchas,
Traças,
Traços
Dobras,
Sombras.
Sombras de um tempo que não volta mais.
De alguém que já se foi.
De emoções sentidas diante do papel.


Livros usados são:
Lidos,
Não-lidos,
Rabiscados,
Carregados,
Molhados,
Jogados,
Empilhados...
E todas as ações marcam o livro.
E todas as ações marcam a pessoa.
E as marcas do livro podem marcar outras pessoas.
E as marcas da pessoa podem marcar outros livros
E outras pessoas.
Livros usados trazem marcas profundas
E produzem marcas profundas.


O leitor usa o livro.
Ele dá sentido aos usos do livro.
Pode ser para enfeitar,
Pode ser para carregar,
Para deitar a cabeça,
Para apoiar a porta,
Para bater,
Para sentar...
Ou para ler.


Livro lido,
Eu digo,
É vivo.
...................................................................................................
Proponho uma campanha pelo aumento do consumo de livros usados. Há basicamente duas vantagens nisso: o cuidado com a natureza (lembrem-se que o papel vem das árvores!) e o aproveitamento da "alma" do livro usado por outrem.

20/06/07

Desigualdade e cotidiano


Nossa desigualdade social parece não ter solução. Isso porque não é só uma desigualdade econômica, mas uma desigualdade que tomou as vias culturais e se estabelece e se reforça cultural e cotidianamente. Reafirmamos a desigualdade cotidianamente na igreja, na escola, no trânsito, no trabalho, nas relações de vizinhança... A base da manutenção cotidiana dessa nossa desigualdade social é a crença numa desigualdade ontológica entre "nós" (melhores do que eles) e "eles" (piores do que nós). Piores do que nós porque não são da mesma classe social, porque não moram no mesmo bairro, porque não vestem as mesmas roupas, porque não tem a mesma cor de pele, porque não frequentam os mesmos lugares... Motivos não faltam para justificar a desigualdade. Essa desigualdade ontológica que acreditamos existir entre "nós" e "eles" cria fossos intransponíveis. Assim, não basta que eles morem no mesmo bairro que nós, precisam consumir; não basta que consumam, tem de saber onde consumir; não basta saber onde consumir, é preciso ter bom gosto para consumir ou para combinar as peças, e por aí vai.
A busca por diferenciação, que é comum a qualquer sociedade, no nosso caso acirra ainda mais a desigualdade social. Como nós ainda não resolvemos o problema da igualdade formal, porque de fato nem todos são iguais perante a lei, a luta por diferenciação reproduz e amplia a desigualdade. Resolver este tipo de desigualdade é mais difícil que resolver a desigualdade econômica. A desigualdade econômica se resolve com crescimento econômico e redistribuição de renda (dar mais a quem tem menos). Mas a desigualdade que se instaura culturalmente nas nossas práticas sociais cotidianas precisa de uma mudança de mentalidade para ser solucionada. Quem não assistiu o filme "Quanto vale ou é por quilo?", com Lázaro Ramos, precisa assistir e se chocar com a constatação de que somos o país com a maior quantidade de Ongs empenhadas na solução de problemas sociais, que movimentam milhões de dólares ao ano, e não conseguimos resolver nossas mazelas sociais. E estamos longe de resolver porque essa desigualdade gera recursos, para alguns. A exploração da miséria alheia e a reprodução inconsciente, nas práticas sociais cotidianas, das estruturas de desigualdade, movimentam e reforçam o lugar social de cada um. Nós aqui e eles, lá. E quando essa distância é quebrada... Essa é outra história.

17/05/07

Recompensa




















Recompensa não se busca,
Mas ela vem.
Inesperadamente vem.
Quando se trabalha com afinco,
Com dedicação.
Quando se sabe o que se faz.
E se faz.
Mesmo que pareça estar dando errado.
Mesmo que dê errado.
Quando se sabe o que se faz,
E se faz,
A recompensa vem.
Pode demorar,
Mas virá.
E não necessariamente em forma de dinheiro,
Como no velho oeste.
Pode ser em agradecimento,
Ou em transformações ocorridas.
Pode ser expressa,
Ou pode ser tácita.
A recompensa é o reconhecimento de que se fez o certo.
Que valeu a pena o trabalho árduo,
As crises vividas,
As angústias
E dúvidas enfrentadas.
A recompensa será um "valeu!"
Uma confidência.
Ou mesmo a percepção de uma outra vida.
Uma nova vida.
Talvez mudada no confronto,
No embate,
Na vida.
A sala de aula é um lugar e tanto para essas crises.
E o professor sempre espera uma recompensa.
Que vem.
Pode até demorar,
Mas vem.
Quando se sabe o que se faz,
E se faz.
................................................................
Hoje obtive uma recompensa.

16/05/07

Considerações


Constantes considerações,

Coincidentes,

Continuam nos acostumando

A Continuar

O mesmo.


O mesmo

Meio

De manutenção

Mecânica

Da mesmice.


O mesmo.

Assim mesmo:

O mesmo,

O mesmo,

O mesmo.

Chega!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Novas considerações
Questionam
O Status Quo.
E desafiam o momento.
E mudam a história...


Escrito em julho/2005 - "estava perdido e foi achado".

15/05/07

Memórias


Dizem que o brasileiro não tem memória, que se esquece fácil até de coisas que não se deve esquecer. Dizem também que o brasileiro é pacato e, no extremo, até omisso, descansado demais. Que não participa das lutas sociais, que vê a história passar sem perceber que ele também é parte da história. Se pensarmos num brasileiro despolitizado e inconsciente dos jogos de força que estão aí, por aí, em todo lugar, amarrando e chicoteando ao mesmo tempo, talvez possamos dar razão à idéia de um brasileiro desmemoriado. Afinal, se ele não participou da história, se ficou vendo a banda passar, não poderá mesmo ter memórias. Ele pode se reconhecer um dia como quem dormira enquanto a história se fazia: "onde eu estava que não vi isso, que não vivi isso?" Só tem memória quem vive. Só se rememora quando se esteve na lida. Só se comemora quando encontramos outro que tenha passado conosco uma determinada experiência. Co-memorar, trazer à memória experiência vividas com alguém. Comemorar é também alegrar-se. E alegrar-se com a possibilidade de compartilhar as memórias construídas com o(s) outro(s). Só em conjunto se pode comemorar, só com pessoas que tenham sido nossos companheiros de jornada, de lutas, de experiências de vida. Quem vê a banda passar não pode ter memória e também não pode comemorar.

Mas confunde-se memória com saudosismo. Rememorar não é saudosismo. Rememorar não é querer voltar no tempo e reviver uma história, não é ter uma saudade avassaladora de um tempo que passou e que não volta mais. E ainda bem quem não volta mais. A história não é cíclica como se pensava antes. A história é processual, nela há avanços e retrocessos, mas nunca se pode voltar a um mesmo ponto, porque cada momento é único. E já passou. É preciso saber viver, como diria o Rei. E mais, é preciso viver. Quem não vive não tem memórias. Não pode compartilhá-las, comemorar. Não tem memória não só quem não vive, quem vê a banda passar, mas também quem não entende que a história é o próprio viver, quem deseja voltar no tempo para reviver algo que já fora vivido. Rememorar e comemorar não é desejar retroagir no tempo, mas contentar-se com as experiências vividas ou arrepender-se das escolhas feitas. Ou mesmo arrepender-se da inércia, da ausência de escolhas, que também é uma escolha. Assim como arrependimento e remorso são coisas distintas. Memória e saudosismo também não é a mesma coisa. O Saudosismo é pegajoso, é aprisionador, é a expressão maior da alienação, de quem não está consciente de que a vida é história, que tudo passa. A memória é libertária, é celebração da vida, é expressão de gratidão pelas experiências e escolhas tomadas. Rememorar é reconhecer erros e acertos que foram realizados por pessoas viventes, que sabiam que estavam vivendo um tempo histórico, que não volta atrás e que, por isso, requer consciência, responsabilidade.

Um viva à(s) mémoria(s)! Abaixo o saudosismo!

14/05/07

Cata-Cata

Cata-Cata.
Cata lata;
Cata lixo;
Cata papel;
Cata plástico;
Cata tudo;
Cata nada.

Cata-Cata
Cata,
Cata,
Cata.

Catalisa a vida.
Cá pra nós:
Cata máta.
Cai a vida,
Cai por terra,
Cara na lama.
Cama de gato.

Cata-Cata.
Cata,
Cata,
Cata.

Catador
Cata.
Cata e é
Catado.
Captura e é
Capturado.
Catado.
Cativado.

Cata-cata.
Cata,
Cata,
Catado.
Caído.
Castrado.

13/05/07

Na cama


Pensei em olhar pela janela para ver as crianças passando pra aula logo de manhã. Mas não tive forças, nem coragem, e fiquei onde estava, enrolado nas cobertas. O máximo que fiz foi rolar um pouco para o lado, na busca de uma posição mais confortável para passar algumas horas a mais na cama. Lá fora estava um friozinho convidativo à preguiça dentro do quarto. Já estava acordado, semi-acordado, mas os olhos ainda permaneciam cerrados. E a mente pensava, sem limites, em coisas sem sentido. A preguiça prevalecia, embora a necessidade de levantar fosse urgente.
A frestinha aberta da janela lançava as cortinas no meio do quarto, como um vestido esvoaçante ao vento, e sussurrava um barulhinho que tentava me expulsar da cama. A mente já não pensava mais nada, só se irritava com aquele barulhinho que agora era perturbador. Cansado, resolvi levantar, fechar de vez a janela para eliminar o zumbido, tomar um calmante e voltar a dormir. Quando acordei já era tarde, os compromissos já haviam se perdido. Agora era só pensar nas desculpas aos que me esperavam. Que não me esperem mais para nada em climas frios e enquanto eu estiver numa cama aconchegante, apagado. Que haja mais dias frios como esse! Uahhhhh! Vou dormir.

12/05/07

Aprisionamento


É terrível estar aprisionado:
O frio,
A solidão,
O medo,
A morte.
Jaulas que separam,
Que unem,
Que afetam,
E afastam.
Do lado de dentro,
Se torna cada dia mais fora,
Anti-social.
Do lado de fora,
Espera-se que fique dentro.
Por muito tempo.
Corredores,
Rostos,
Cheiros,
Regras.
Celas cheias;
Vidas humanas.
Vidas cheias;
Selas humanas.
Canga pesada.
Passado presente,
Sempre.
Poder,
Intimidação,
Dinheiro e
Exploração.
Tudo igual,
Aqui e lá:
Miséria
E Luxo.
Sociedade desigual.
Não é preciso passar pela experiência pra saber!

30/04/07

Nomes

.....................................................................................
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.


Os nomes são nomes.
São mais que nomes:
São identidades,
São vidas,
São pessoas,
De carne e osso,
Com sentimentos,
Interesses e
Vidas próprias,
Mesmo que dominadas.
Márcio, Fábio, Flávio,
Carlos, Marcos, Sávio,
Juliana, Luciana, Ana,
Sabrina, Valéria, Mariana...
São nomes,
São vidas.
Mesmo na multidão.
..........................................................................
O mês acaba com uma sensação de incompletude.

09/04/07

O tempo não cura!





Insisto em dizer que precisamos tratar nossas mazelas, sociais ou individuais, como mazelas. Não dá é pra esparar que as coisas se resolvam por si mesmas. Problemas para serem resolvidos e não voltarem a ocorrer pelos mesmos motivos que os deram causa, precisam ser reconhecidos (diagnosticados), analisados (discutidos) e enfrentados de peito aberto (tratados).
Existem algumas expressões que estão na boca dos brasileiros e que revelam um de nossos problemas como brasileiros: nossa dificuldade de enfrentar de frente os problemas da vida. As expressões a que me refiro são: "O que não tem solução, resolvido está"; "O tempo cura tudo!"; "Eu dou um boi para não entrar numa briga. Mas, uma boiada para não sair".
Alguns autores vão chamar a atenção para a "inércia" da sociedade brasileira diante dos fatos da vida, da história. Outros autores vão nos classificar de conformistas, alienados, expectadores, acomodados e até bestializados. Independente dos porquês que explicariam a nossa condição de inércia, como o medo da repressão, por exemplo, precisamos estar conscientes da nossa dificuldade de entrarmos na luta. Somos mais chegados a "ver a banda passar" do que a fazer a hora e não esperar acontecer. Por isso, precisamos criar meios para estimular os indivíduos à participação social e, fundamentalmente, a não esperar as coisas acontecerem, porque, como o título desta postagem diz, o tempo não cura nada.
Achar que o tempo cicatriza tudo é varrer os problemas para debaixo do tapete. Eles continuarão ali, só esperando alguém descobrí-los. Não dá pra continuar a vida sem considerar as perdas de um problema não resolvido, ou mal resolvido. Se é um problema pessoal ele precisa ser colocado em pratos limpos e discutido abertamente. Se é um problema social, precisamos conhece-lo e resistirmos à tentação de reproduzí-lo, de vivermos "como nossos pais", como cantou Elis Regina.
Deve ser enfrentado por nós as heranças do regime escravocrata, os traumas das ditaduras e o mal-estar nas relações familiares, por exemplo. O tempo não é nosso aliado nesse enfrentamento. Pelo contrário, é nosso algoz: quanto mais o tempo passa mais os problemas vão se enraizando na alma e vai ficando mais difícil se libertar deles.

08/04/07

Militares nas ruas



Antes que me acusem de reacionário, conservador e outros bichos mais, quero dizer que o título desta postagem não tem nada a ver com um chamado pela volta dos militares. Pelo contrário, o leitor que for perseverante e continuar na leitura até o final verá que meu propósito é outro, banir os militares, e suas heranças (ver postagem anterior), de uma vez por todas da sociedade brasileira.
Penso que só podemos tratar e resolver nossos problemas sociais se admitirmos que eles existem. O problema do autoritarismo na sociedade brasileira não é um problema dos governos, mas da sociedade. Portanto, é a sociedade que precisa dar conta desse mal. Não podemos é fingir que ele não existe, que não somos marcados pelo autoritarismo, que de vez em quando somos tentados a usar saídas autoritárias para apaziguar problemas em nossas relações sociais ou somos vítimas desse autoritarismo. Aqueles que ocupam alguma posição de poder, ou que acham que têm algum poder, são seduzidos a reproduzir a lógica de autoritarismo a que estamos historicamente submetidos.
A Alemanha de Hitler produziu algo pela qual veio a se envergonhar depois. E não foi uma vergonha espontânea, mas politicamente provocada. Os alemães são chamados a olhar e rever todo o mal que produziram para com a humanidade. E esse chamamento é também impositivo: é um "olhe bem o que produzimos e envergonhemo-nos disso para não repetirmos o erro".
Se não agirmos assim também em relação às nossas próprias mazelas, não nos conscientizarmos que produzimos também o mal e não nos envergonharmos disso, provavelmente voltaremos a produzi-lo. Não podemos, portanto, mascarar a ditadura militar que tanto mal causou à nossa sociedade. Precisamos expurgar nosso "pecado" confessando-o e abandonando-o. Se não queremos mais as ditaduras militares no poder, precisamos abrir os arquivos da repressão e conhecer os fatos daquele período histórico. Precisamos ser confrontados com a realidade para parar de criar mitos e acreditar neles. A abertura dos arquivos é contrária à famosa ação atribuída a Rui Barbosa em relação à escravidão (queimar os arquivos da escravidão para fingir que ela não aconteceu).
Mas antes da abertura dos arquivos, precisamos parar, já, de reverenciar o criminoso, o grileiro, o dedo-duro, o torturador, o ditador etc. Uma das maneiras pelas quais homenageamos essa gente que não merece honra depois de morta, até porque nunca tiveram em vida, é dando nomes de ruas, praças, escolas, prédios e espaços públicos em geral.
Confesso que me envergonho do período de ditadura militar e quero que a sociedade como um todo seja politicamente levada à mesma atitude de envergonhamento. Chega de nomes de militares tomando lugar nas esquinas, indicando nomes de ruas! Chega de homenagens a pessoas que escolheram viver e reproduzir a cultura autoritária! Não quero ver os militares nas ruas mais. Nem nos nomes das ruas. É preciso começar as mudanças de algum lugar.

07/04/07

Herança


Vou fazer uma pausa na série que venho produzindo sobre as músicas de protesto para falar de outro tema que tem me intrigado ultimamente. Alguns historiadores e cientistas sociais trabalham com a noção de herança histórica. No Brasil, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro trabalham, claramente com esta noção, atrelando a realidade brasileira e seus problemas ao passado, principalmente ao modelo português de Estado e de relações sociais e culturais. Segundo estes autores, o Brasil é o que é porque é filho de Portugal, carregando consigo todas as mazelas e virtudes de seu "pai".
Herança é uma instituição jurídica. E está claro juridicamente que uma herança não é de aceite obrigatório por parte do futuro herdeiro. Só herda quem quer. Ninguém é obrigado a herdar nada, podendo recusar a realização da vontade última daquele que deixou testamento. O que pode acontecer é o silêncio pressupor o aceite da herança. "Quem cala consente", não é assim que dizemos?
A questão que se coloca, então, é que se Portugal deixou alguma herança para o Brasil, de certa maneira, aceitamos esta herança, mesmo que pela nossa inércia. E pior, talvez tenhamos gostado, nos lambusando com estas heranças portuguesas. Isso vale para a vida individual também.
Podemos lutar contra as heranças do passado, podendo ficar livres da bola de ferro que carregamos sem saber, herança deixada por nossos pais: sentimentos, temperamentos, traumas, visão de mundo etc. É difícil resistir a essas heranças históricas porque o primeiro passo para isso é conscientizar-se de que elas existem. E normalmente nem sabemos que elas existem e que são "heranças", porque nos são passadas silenciosamente. Só conscientes das heranças (boas ou ruins) que trazemos amarradas no tornozelo é que poderemos realizar alguma transformação pessoal. O que não podemos é reproduzir comportamentos sem entender, nem querer entender, de onde eles vêm.
Bom trabalho!

05/04/07

Repressão e criação


Os anos de repressão militar foram anos muito criativos para a música brasileira, em particular para a música de protesto. Em parte porque os militares, contraditoriamente, não deram importância aos artistas nos primeiros anos do regime. Só posteriormente, a partir do governo Médici (1969), é que se intesifica a perseguição e censura aos artistas. Aí os músicos aumentam a criação de canções para confrontar o regime militar, de uma maneira velada e inteligente para não correr riscos maiores. É dessa época as maiores criações musicais de protesto, como o discos "Construção" e "Apesar de você", de Chico Buarque, e Tropicália, de Caetano, Gil e cia, entre outros discos e músicas importantes no cenário da música de protesto.

Se os anos de repressão foram anos de muita criatividade musical, isso não quer dizer que não tenhamos tido músicas criativas sem regimes repressivos, nem que todas as músicas produzidas naquele período tenham sido criativas e engajadas politicamente. Muito menos que precisamos ter de volta o autoritarismo para voltarmos a produzir músicas de protesto no Brasil. Alguém me disse dia desses que "a mediocridade musical que vivemos decorre da falta de inimigos políticos, como os militares foram para a classe artística daquele período". Ousei discordar e inverter o argumento: talvez tivéssemos mais inimigos políticos se fossemos politicamente mais engajados. Quer dizer, a ação dos militares foi imprescindível para a criação musical brasileira, mas além disso, a criação musical brasileira foi um calo no sapato dos militares. A música de protesto no Brasil ajudou a demarcar o terreno político da época, com efeitos sobre toda a sociedade e, em partcular, sobre a juventude da época. Meu argumento é que se tivermos mais compositores e músicos engajados politicamente, teremos, em contrapartida, regimes políticos mais furiosos com a atuação dos músicos-políticos. Problemas sociais não faltam para protestarmos, mas onde estão os músicos-políticos? Se vivemos num marasmo musical, em termos de músicas de protesto, isso decorre mais de nossa apatia política. Até a próxima!

01/04/07

Música de protesto nos anos 90


Com o fim do socialismo real, simbolizado na queda do muro de Berlim, em 1989, ruiram-se também as utopias de um mundo melhor a partir da participação política. Na música de protesto, o fim das utopias políticas também aparecerem. Na década de 1990, a música de protesto não deixou de existir, mas as críticas já não eram a sistemas políticos e problemas sociais de grande porte, mas a problemas pessoais enfrentados cotidianamente. A juventude dos anos 90 não deixara de protestar, mas perdera a dimensão histórica do protesto em vista de protestos contra pontos específicos do dia-dia das cidades grandes, como a moda, o corte de cabelo, a chatice do vizinho, o barulho dos automóveis, a violência urbana etc. A crítica política foi jogada para dentro do indivíduo que precisava agora resolver suas mazelas cotidianas antes de querer mudar o mundo. Não se estava mais interessado em transformar a realidade social do mundo, mas em criticar a realidade social do indíviduo urbano. Temas caros ao romantismo volta nos anos 90 como uma tentativa de obtenção de algo que fora perdido: a tranquilidade do interior, o verde da paisagem e a amizade, por exemplo.
Passamos a viver numa sociedade fragmentada e cada vez mais individualizada. A solidão das pessoas é expressa nas músicas de protesto dos anos 90 como algo angustiante. A angústia cantada era a angústia vivida também pelos músicos, pessoas sujeitas à mesma solidão que qualquer um. Tanto que alguns músicos tentaram se sucidar e que outros conseguiram cometer suicídio, como Kurt Cobain (Nirvana) e Michael Hutchence (INXS). Tivemos também nos anos 90 o aparecimento e o desaparecimento de inúmeras bandas de rock e de alguns movimentos musicais, como o grunge.
Muito dessa influência dos anos 90 ainda estão presentes na música de protesto dos dias de hoje. Principalmente a redução do horizonte político para as coisas do cotidiano. Mas hoje já há uma tentativa de alargar novamente a visão política e o alcance da música de protesto, principalmente por conta da chamada Globalização. Mas este é outro assunto.

26/03/07

A música nos Direitos Civis americanos


A música é utilizada como meio para protestar há muito tempo. Várias músicas marcaram gerações distintas, com refrões chamando a posicionamentos políticos ou denunciando problemas sociais. Ou com estrofes inteiras de apelo à mobilização social contra determinados fenômenos sociais ou governos. Resolvemos destacar alguns dos grandes "hinos" da música de protesto que marcaram a campanha dos Direitos Civis nos Estados Unidos.
Bob Dylan lançou, em 1964, o disco "The Times They Are a-Changin'" e a canção título foi tomada como manifestação de esperança nas transformações na sociedade racista americana. Todos cantavam "os tempos estão mudando" do refrãozinho pegajoso da música. Outra música de Dylan que pode ser considerada um hino político é "Mr. Tambourine Man", ao pé da letra, algo como "senhor pandeiro" ou "homem-pandeiro", numa referência à reação de violência do governo americano contra os ativistas políticos que lutavam pelo fim do racismo no país. A música saiu no álbum "Bringing it all back home", de 1965, e logo tomou as ruas americanas.
Outra música importante no movimento dos Direitos Civis americanos foi "If I Had a Hammer", de autoria de Pete Seeger, mas que fez sucesso na voz do trio Peter, Paul e Mary, que cantou a canção para milhares de pessoas na famosa "Marcha sobre Washington por trabalho e liberdade" (foto), em que Martin Luther King fez o seu famoso discurso "Eu tenho um sonho". A música dizia que se "eu tivesse um martelo" bateria o martelo da justiça e os sinos da liberdade. Virou uma canção de protesto e tanto naquele momento histórico.
Se Pete Seeger, com sua composição lançou o trio Peter, Paul e Mary ao estrelato, "If I had a hammer" não foi a única música de Seeger que se tornou hino do movimento pelos Direitos Civis americanos. "We Shall Overcome" foi considerado o hino propriamente dito do movimento. Seeger mudou a letra de uma antiga melodia religiosa americana do início do século XX criando frases como "nós superaremos", "nós andaremos de mãos dadas", "nós viveremos em paz", nós seremos todos livres", "nós não temeremos" e "nós superaremos, um dia". Nem precisa dizer que este apelo musical caiu no gosto de uma sociedade fraturada pelo racismo e que ansiava por mudanças imediatas.
José Murilo de Carvalho vai dizer que os Direitos Civis no Brasil ainda não se consolidaram, que só agora estamos começando a discutir sobre isso. Quem sabe as músicas de protesto não poderiam dar um empurrãozinho neste processo? Exemplo para isso temos.

23/03/07

Joe Hill na luta com os trabalhadores


Joe Hill foi um dos pioneiros da música de protesto no mundo. Joe Hill nasceu Joel Haaglund, em 1879, na Suécia. Migrou para os Estados Unidos em 1902, depois que seus pais morreram. Com seus pais, que eram muito religiosos, aprendeu a tocar alguns instrumentos, como acordeão, piano, violino e violão. Trabalhou em Nova Iorque e depois foi para Chicago. Mudou seu nome para Joe Hill depois que foi demitido e colocado na lista negra das empresas da região, taxado de "agitador", porque ele organizava os trabalhadores para lutar por seus direitos. Em 1910 uniu-se a uma instituição que lutava pelos direitos dos trabalhadores da indústria no mundo todo, a IWW (Trabalhadores Industriais do Mundo).
Foi no movimento sindical que ele começou a compor e cantar músicas de protesto contra as condições de trabalho dos operários americanos. O operariado adorava as músicas de Hill, principalmente porque se identificava nas condições de trabalho denunciados por ele. Dentre as músicas que ele compôs e cantou, destacam-se "The Rebel Girl", "The Preacher and the slave" e "Casey Jones - The Union scab". Em "The Rebel girl" ele faz uma homenagem a uma líder do movimento operário, Elisabeth Gurley Flinn, considerando-a uma mulher firme de suas convicções e chamando a atenção para a importância das mulheres para a causa operária. Em "The Preacher and the slave" ele zomba da atitude religiosa de esperar as bençãos dos céus e conclama os trabalhadores a marchar unidos pela conquista da liberdade. Ele vai chamar os trabalhadores de escravos que precisam se libertar. Finalmente, em "Casey Jones", Hill faz uma paródia sobre os acontecimentos reais que levaram à morte de Casey Jones, um engenheiro que ficou famoso após morrer num acidente de trem em que pilotava tentando chegar o mais rápido possível a seu destino final, cumprindo as ordens do "patrão". Jones trabalhara uma jornada maior do que deveria para cumprir o cronograma de viagem do trem. Segundo Hill, Jones não passava de um fura-greve, de alguém que abriu mão da luta coletiva e que acabou morrendo sozinho. Era o exemplo a não ser seguido pelos trabalhadores.
Apesar dos protestos públicos, em 1915, Hill foi executado com tiros no peito pelo Estado de Utah, num processo até hoje confuso, depois de ter sido acusado e condenado de ter assassinado o proprietário de uma loja de Salt Lake City. Mais de 5 mil pessoas compareceram ao funeral de Hill e cantaram algumas de suas músicas.
Imagine um trabalhador como Joe Hill, no início do século XX, cantando músicas de protesto em portas de fábricas, em entradas de minas de carvão, em frente ao comércio... Fez diferença.

17/03/07

O músico, a música e a política

Considerando os problemas sociais como problemas políticos, quer dizer, como problemas cujas soluções são (e serão) políticas, queremos ressaltar o papel do músico (de sua postura e de sua música) como formador de opinião e agente político de mudanças sociais.
Todo artista, não só o músico, tem a visibilidade pública necessária para criar tumultos e resolver problemas. Nem um nem outro é pejorativo em si mesmo: pode haver a criação de desordem numa ordem social injusta, o que é muito bom; assim como pode haver solução de conflitos que seja uma negociata que esconda os conflitos, ao invés de resolvê-los. De qualquer maneira, o que quero dizer é que o artista tem esse potencial de intervenção social aumentado, dada a sua visibilidade social, a sua presença na mídia. E graças, é claro, à existência de seus "seguidores", seus fãs, que levam muito a sério o que eles dizem.
Numa juventude (para não falar uma sociedade) desagregada, sem rumos, perdida, sem ética e sem limites, o músico pode assumir um papel ativo e positivo de criação de parâmetros mínimos de envolvimento social e de descontentamento com as coisas da vida. A liderança que os músicos, ou alguns deles, exercem, ou podem exercer, sobre seus fãs é algo que não se pode desprezar. Essa liderança, se utilizada, já pode provocar algum incômodo na ordem social estabelecida, para o bem ou para o mal.
O papel do músico, e de sua música, pode ser também um papel político de encorajamento e mobilização de uma juventude acoada e apática. Uma juventude indiferente com os problemas sociais. Mas para isso, o músico precisa querer correr riscos, precisa tornar-se consciente de seu poder social e precisa ser responsável pelo uso político desse poder. O músico que quiser marcar sua geração para além da efemeridade de ter suas músicas nas paradas de sucesso por um tempo, precisa conscientizar-se dos problemas sociais em que vivemos e assumir um posicionamento político em sua ação artística. E isso é pra já.

16/03/07

Música e protesto


A propósito do protesto público contra a violência convocado pelo vocalista da banda Detonautas, vou começar a publicar uma série de textos que tenho escrito sobre o tema da relação da música com protestos políticos e sociais.
Nesta primeira postagem, quero, antes de tudo, parabenizar a iniciativa do vocalista dos Detonautas, Tico Santa Cruz, pela iniciativa de convocar os jovens para um ato público de protesto contra a violência que nos circunda tão de perto. Ele mesmo sabe bem o que é isso. Quero também falar um pouco do papel da música e das performances musicais para tomada de posição política e manifestação de idéias políticas.
Alguns autores vão chegar a dizer que como somos seres políticos, não há nenhum ato humano que não seja também um ato político, mesmo que não tenhamos consciência disso. Penso que esse tipo de pensamento amplia demais o leque de atitudes políticas e até barateia as ações políticas. No caso da música, especificamente, não são todos os músicos que estão interessados em envolver-se nas questões sociais, que é um envolvimento político. Pelo contrário, uma minoria está disposta a tomar um posicionamento político nos palcos ou através de suas músicas. Porque correm o risco de serem tidos como "chatos", ou "oportunistas" (tentando usar os problemas sociais para aparecer na mídia ou para catapultar sua carreira) ou até correm o risco de encurtarem sua carreira como músicos, como já aconteceu antes. Assunir uma posição política pública, contra ou a favor de alguma coisa, é sempre um risco para a carreira pessoal do artista. E isso não é de hoje. Mas também não é de hoje que uma minoria de músicos assume esse risco e abre mão de pensar só em sua própria carreira para usar os microfones a fim de divulgar idéias e ideais políticos, nem sempre nobres, nem sempre de oposição.
A música, como qualquer espaço de atuação profissional é também um espaço possível de atuação política. Quando rejeitamos participar de esquemas de corrupção, ou quando nos indignamos com a perseguição sofrida (por nós ou por outros) no ambiente de trabalho, ou quando denunciamos a injustiça como contrária à ordem social democrática, e nos recusamos a participar dela, estamos tomando posicionamentos políticos. E isso pode acontecer em qualquer nicho de atuação profissional, inclusive na música. O músico protestar contra problemas sociais os mais diversos ou contra ações ou reações de pessoas "importantes", inclusive políticos, é sempre uma manifestação de não-alienação e de envolvimento social. É uma prova de que o músico está antenado nas mudanças sociais e tem pensamento próprio.
Precisamos de mais músicos engajados no conhecimento da realidade social e na tentativa de mudar esta realidade. A música transpõe barreiras econômicas, sociais e culturais, falando a sociedades divididas economicamente, racialmente, religiosamente, politicamente... Os músicos falam uma linguagem universal (a música) que pode ser um excelente instrumento de divulgação de ideais de transformação social e de mudança de atitudes individuais. Como precisamos, você e eu, de ideais de esperança de que as coisas podem melhorar! E como precisamos, você e eu, desses ícones que levantem a bandeira da indignação com as coisas que aí estão ou de uma transformação possível da vida individual e social! Cazuza cantava, "Ideologia, eu quero uma pra viver". Músicos, peguem os microfones e os instrumentos musicais e protestem!

15/03/07

Desterritorialização


Moro numa casa com quintal. No quintal há grama esmeralda, arbustos e plantinhas floríferas: coqueirinhos, azaléias, orquídeas, hortência e outras plantinhas. Moramos aqui há pouco tempo. É a primeira vez que moro em casa. O clima da cidade é ameno. Antes morávamos num apartamento, num lugar mais quente. Mas sempre tivemos plantinhas domésticas na sala de estar.
Quando mudamos para cá trouxemos nossas plantinhas de vaso. E como havia espaço no jardim, resolvemos plantar algumas no chão. Das plantas que já existiam no jardim, deixamos algumas onde estavam, trocamos outras de lugar e algumas jogamos fora. Compramos também algumas novas plantas para o jardim. Quero falar da experiência da mudança.
Foi uma surpresa perceber que algumas plantas que estavam no vasinho morreram quando foram plantadas no chão. Outras murcharam, secaram, mas, ao fim, resistiram e já florescem. A hortência estava há anos no mesmo lugar, no meio do terreno, reinando absoluta, com raízes profundas. Achamos melhor traze-la mais para frente do quintal para valorizá-la e ao jardim. Ela também murchou, perdeu as folhas, pensamos até que havia morrido, mas está lá, firme. Só falta florir. Mas ainda não está no tempo.
Não é fácil sair de um lugar para o outro. Não é simples: sair de um território para outro é mais do que um deslocamento. É um processo de desterritorialização, uma tentativa de se enquadrar nos novos modelos culturais do lugar de destino. O brasileiro não é igual em todo lugar, nem poderia ser igual também a sua cultura. Somos uma sociedade multicultural.
Desterritorializar é perder a segurança gerada pelas raízes fincadas no solo há tanto tempo para tentar enraizar-se em outros solos. Gera medo, insegurança, angústia. Somos excluídos, perseguidos, humilhados. Como as plantinhas trocadas de lugar, murchamos, definhamos e morremos. Ou resistimos.
Milton Santos, no livro “Espaço do cidadão”, diz que “a cultura, forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo, é uma herança, mas também um reaprendizado das relações profundas entre o homem e seu meio, um resultado obtido através do próprio processo de viver. (...) a cultura é o que nos dá a consciência de pertencer a um grupo, do qual é o cimento. É por isso que as migrações agridem o indivíduo, roubando-lhe parte do ser, obrigando-o a uma nova e dura adaptação em seu novo lugar. Desterritorialização é freqüentemente uma palavra para significar alienação, estranhamento, que são, também, desculturização”.
É f***!

14/03/07

A casa é a rua


A constituição diz que "a casa é asilo inviolável do indivíduo", resguardando o direito do cidadão ser respeitado no ambiente do seu lar. É claro que "casa" aí tem um sentido genérico, podendo-se entender qualquer lugar de moradia do indivíduo: casa, apartamento, sobrado, "barraco", "cabeça de porco"... Mas e quem não tem moradia, quem não tem nem um barraco para descansar, não está protegido pela Constituição? Quem dorme nas ruas, embaixo de pontes, viadutos ou em árvores além de viver desgraçadamente ainda pode ser atacado por outrem sem que haja punição para o agressor?
A noção de "casa" nas leis brasileiras é intrinsicamente ligada a propriedade. Quem tem condições de pagar para morar está legalemente protegido no recinto de seu lar. Quem não pode arcar com uma moradia, tem de "circular". Podemos entender que o direito brasileiro considera legal (não contrário à lei) os moradores de rua e, pior, o ataque a esses moradores também. Como se já não fosse uma vergonha termos moradores de rua numa sociedade tão rica como a nossa, ainda precisamos conviver "normalmente" com agressões a essas pessoas que vivem por aí. É claro que temos outras leis que podem ser usadas para defender o direito do morador de rua, como a invocação dos próprios direitos humanos. Mas o direito à moradia, ou melhor o direito de acesso à moradia, ainda é fragil em nossa legislação e na prática social. E ficamos sem saber até que ponto a prática social impede que se criem leis que regulamentem o acesso à moradia, ou, a omissão das leis existentes legitimam a prática social de indiferença, intolerância e violência para com os moradores de rua?
Enquanto não criarmos políticas públicas adequadas para efetivação do acesso à moradia, continuaremos com grande número de moradores de rua e de "violações" a esses moradores que não tem casa, que não tem "asilo". Enquanto isso, os movimentos sociais de organização e mobilização dos sem-teto devem continuar pressionando a sociedade e o estado na luta pela efetivação do direito à moradia!

13/03/07

Sucesso


Hoje vou apenas fazer a citação de um trecho do livro "Resistência e Submissão", do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer era alemão e foi preso e assassinado pelos nazistas por sua resistência ao governo de Hitler. Da prisão ele escreveu as seguintes palavras em tom indignado de crítica e até sarcasmo:
"A um mundo em que o sucesso é o parâmetro e a justificação de todas as coisas, a figura do condenado e crucificado permanece estranha e, na melhor das hipóteses, digna de compaixão. O mundo quer e deve ser vencido através do sucesso. Os atos decidem, não idéias ou opiniões. Somente o sucesso justifica injustiça havida. A culpa cicatriza no sucesso. Não faz sentido acusar o bem-sucedido de suas virtudes. Com isso se encalha no passado, enquanto o bem-sucedido vai progredindo de ação em ação, conquistando o futuro e tornando o passado irreversível. O bem-sucedido cria fatos consumados que nunca mais podem ser revogados; o que ele destrói nunca mais pode ser reconstruído; o que ele constrói adquire direito de existência ao menos na geração seguinte. Não há acusação que possa restabelecer a culpa que o bem-sucedido deixou atrás de si. Com o tempo, a acusação emudece; o sucesso fica e determina o curso da história. Os juízes da história são tristes figuras ao lado de seus protagonistas. A história passa por cima deles. Não há poder no mundo que possa ousar invocar com tamanha liberdade e naturalidade a tese de que o fim justifica os meios como a história o faz. (...) o sucesso é o bem por excelência".
Estava buscando palavras para escrever sobre o sucesso em nossos dias e me lembrei deste livro de Bonhoeffer. Acho que nem preciso escrever mais nada sobre isso.

12/03/07

Ensinar e aprender


Ensinar é um verbo, uma ação, que pressupõe uma outra ação, e não apenas uma reação como poderia supor alguém que tomasse uma das leis básicas da física newtoniana ("toda ação corresponde a uma reação"). A ação que é necessária quando se ensina é a de aprender.
Em alguns idiomas, por exemplo, ensinar e aprender vêm da mesma raiz etimológica, como que indicando que não há ensino sem aprendizagem, e vice-versa. E mais, indicando que não há quem ensine que também não possa aprender. E não há quem aprenda que também não possa ensinar. Ensinar e aprender não são ações estanques, separadas. São ações complementares. Ensinar não é ativo e aprender, passivo, como se supunha há um tempo. Age quem ensina e age quem aprende.
Se não houver disposição para ensinar e disposição para aprender, não haverá o encontro mágico da produção de conhecimento. O conhecimento é produzido na junção destas duas ações (ensinar e aprender) que às vezes tem direções opostas e às vezes seguem na mesma direção. Mas nunca deixam de ser realizadas, sob pena de não haver produção de conhecimento. Nesta perspectiva, muitas de nossas técnicas e métodos de ensino e de nossas relações em sala de aula (por exemplo, "professor fala e aluno ouve") são improdutivas ou estão ultrapassadas.

11/03/07

Justiça brasileira


A justiça brasileira é alvo de críticas ferrenhas de distanciamento da sociedade como um todo e proteção de certos setores da sociedade brasileira, nitidamente beneficiando as elites. Algumas dessas críticas podem ser oportunistas e outras mesmo descabidas. Podemos até ser levados a falar mal da justiça brasileira por um fator cultural, mania de falar mal das coisas, do sistema de justiça, por exemplo. Vá lá que seja. Mas estas críticas de termos criado uma justiça elitista, mesmo que seja cultural, está fundamentada em alguma coisa minimamente real. Essa crítica não é doidice de uma sociedade sempre insatisfeita, nem produzida por uma classe operária que não utiliza o sistema de justiça porque não confia nele, e que não confia no sistema de justiça porque não o utiliza, porque está distante dele.

Realmente, a cultura do favor prevalece(u) por muito tempo na administração da justiça no Brasil. A frase clássica de Getúlio Vargas (aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei) mostra esta relação paternalista da justiça brasileira com os donos do poder. Para voltar no tempo e perceber como essa crítica à justiça brasileira é historicamente estruturada e, portanto, não é descabida, Caio Prado Júnior define a justiça no Brasil colonial como "cara, morosa e complicada; inacessível mesmo à grande maioria da população". Tenho certeza que já melhorou muito em relação ao que era a justiça colonial brasileira. Mas que ainda há ranços históricos de elitismo, de apadrinhamento, de paternalismo, na justiça brasileira... Ah, isso há!

10/03/07

Cultivo intelectual


Falamos de cultura como se fosse mesmo um conceito universal e entendido por todos de igual maneira, independente da cultura em que ele esteja inserido. Mais adequado seria falar em 'culturas', no plural, porque há muitos tipos de sentido para o termo, assim como há muitas culturas distintas.

Mas o sentido, sem dúvida, mais interessante, do ponto de vista do processo de cognição (conhecimento) e do papel político da cultura individual, é a cultura como como cultivo, como trabalho de reflexão e de apropriação da "visão de mundo" do outro. O sujeito culto antigamente era aquele que viajara o mundo, que conhecera outras culturas, que aprendera e observar e valorizar o sentido da vida de outras nações. Já não é mais. Simplesmente porque o consumismo transformou as culturas alheias também em mercadoria.

O cultivo da intelectualidade é como um lavrador que cultiva sua plantação, que planta, que rega, que poda, que limpa o terreno, que põe inseticida, que reza para que não haja intempéries (chuvas ou sol em excesso), que observa o desabrochar das flores, que espera a colheita e que, a seu tempo, colhe os frutos, ou os resultados esperados de seu trabalho e paciência. Cultivar a intelectualidade é conhecer criticamente. É duvidar dos fatos e buscar interpretações da realidade que se aproxime de uma "visão de mundo" consciente das circunstâncias, consciente de que os discursos são ideológicos e que, portanto, tendem a mascarar intenções, paixões, realidades.

Cultivar a intelectualidade é cultivar a resistência, é trabalhar arduamente para manter uma "visão de mundo" esclarecedora das situações que vivemos, mesmo (e principalmente) contrariando o discurso dominante. É trabalhoso, é cansativo, mas é necessário, para que não se sucumba ante os apelos consumistas e os discursos "convincentes" produzidos pelas mais diferentes instâncias de poder.

09/03/07

Aborto


Ontem falei do sangramento mensal das mulheres como sinal de força, de renovação das forças. Não queria estragar o dia internacional das mulheres com aspectos negativos, mas há um sangramento feminino que não é bem vindo, que representa morte. É quando a data da menstruação atrasa e alguns dias e depois ela desce, com intensidade, levando embora o sonho da geração de outra vida. Um aborto espontâneo, natural, no início da gravidez, é mais comum do que se possa imaginar. Às vezes a mulher nem chega a tomar consciência da gravidez, acha apenas que foi uma menstruação atrasada. Mas quando se tem um resultado positivo de gravidez, qualquer sangue representa perigo. Quando é uma gravidez planejada então, ufa!
Passamos por esta experiência ontem. É difícil!
Acho que aborto, qualquer aborto, desejado ou não, em qualquer tempo de gravidez, é sempre difícil para a mulher, é uma perda.

08/03/07

Mulher sangra


Dia internacional da mulher e quero falar de uma característica da mulher que num primeiro olhar pode parecer fraqueza, mas que á a maior razão da força delas: mulher sangra.
Tirando os aspectos médicos do sangramento mensal das mulheres, quando não há fecundação dentro do mês etc., quero falar dos aspectos simbólicos. Sangue ultimamente tem sido associado a morte, assassinatos, "banhos de sangue"... Mas sangue é vida, é sinônimo de vida, de energia.
O coração é a bomba de sangue do nosso corpo, levando o sangue aos órgãos e células que precisam dele. Quem já fez doação de sangue sabe o vigor que sentimos no dia seguinte à doação, são as células do sangue se renovando, é a geração de novas células sangüineas. Na hora da doação é aquela apatia, aquela prequiça. Ganhamos até despensa do trabalho se formos doar sangue?! Mas no dia seguinte, sai de baixo, que a gente se sente bem mais forte.
A mulher sangra todo mês. É a renovação da força da mulher. Não é doença, é saúde, é força que já vem. Os dias de sangramento são dias de dor, de preguiça, de cansaço ou de irritação. Ou tudo junto. Mas são dias de preparação para os outros dias que virão. E quem não percebe a força com que a mulher vive os outros dias do mês, mas só olha para os dias de sangue, não vê além de uma imagem distorcida da mulher. Uma mulher frágil, carente, nervosa... Mas ela tem direito de ficar assim alguns dias não? Nós homens ficamos assim quase todos os dias...
Quando a mulher sangra é sinal que vem força bruta por aí. Força para enfrentar os desafios da vida, força para lidar com os filhos, força para se relacionar com os homens. O fluxo sanguíneo mensal é a ronavação do fluxo da vida. É a força da vida feminina que está se configurando. Os homens precisavam sangrar mais, metaforicamente. Colocar pra fora as "porcarias" que carregam na alma, na mente, no coração. Sangrar é deixar esvair as forças para sentí-las de volta, gradativamente. Até sangrar de novo. E viver esse ciclo de renovação energética e simbólica. Símbolo de força.
Sangrar é o início da renovação. Precisamos, homens e mulheres, respeitar mais esse ritual feminino e aprender a lidar com ele de maneira positiva, confiante. Como quem sabe que desafios virão. E que se não fosse o sangramento mensal, sucumbiríamos, não só as mulheres como também os homens. Afinal, sem as forças delas...
Sangra Mulher! Força mulher! Sangremos todos!

07/03/07

Briga de família


Talvez nada separe mais a família do que as festas de família. James Joyce vai mostrar um pouco isso, no conto "Os mortos", publicado no livro "Dublinenses". É muito interessante e próximo da realidade das famílias brasileiras. Vale à pena!

06/03/07

Skate or die!


Quem era adolescente na década de 80 ou curtia andar de skate naquela época, sabe o que significa "Skate or Die!".
Gritávamos o jargão "skate or die!" antes de arriscar uma manobra ou na hora de descer a rampa (dropar). Era uma maneira de tomar coragem, de vencer um obstáculo que por um momento nos parecia intransponível, de jogar pra fora o medo gritando para o obstáculo que ele seria vencido.
Ao pé da letra, "skate or die!" significa algo como "andar de skate ou morrer!". Ou "prefiro morrer a deixar de andar de skate". Ou ainda, "andar de skate é enfrentar a morte". Parado que não se podia ficar. Ou enfrentávamos os desafios que se colocavam à frente ou não deveríamos mais andar de skate, porque andar de skate era, para nós, enfrentar desafios.
O final dos anos 70 e os anos 80 foram cheios dessas frases de efeito com o tema da morte: "Punks not dead" (algo como "uma vez punk, punk até morrer"); "Live and let die" ("Viva e deixe morrer", que foi um dos sucessos de James Bond) etc. O que se estava questionando era o limite do homem. Foram nos anos 80 que apareceram os precursores da geração experimental dos anos 90, que não tiveram medo de enfrentar e desafiar circunstâncias e limites humanos (grunge, bung jump etc.).
Falei tanto para chegar ao final e dizer que precisamos de frases prontas às vezes. Principalmente dessas frases gritadas que nos faz ter coragem para ir adiante. Porque as circunstâncias às vezes é mesmo desencorajadora, é difícil. Não é questão de auto-ajuda, mas de tentar encontrar forças para fazer o que é preciso ser feito, para tomar uma decisão. De ouvir umas palavras que nos encoraje, mesmo que elas venham de nós mesmos. Quem sabe gritar, "não vou deixar essa idéia morrer!"; ou "se as coisas continuarem como estão, é o fim!"; ou ainda, "vou tomar essa atitude mesmo desagradando à maioria, porque sei que é a certa"; ou simplesmente, "Senhor, me dá forças!", "socorro!", "alguém me ajude!", "é agora ou nunca!"...
Didi, esse é pra você, no seu dia. Parabéns!

02/03/07

Anti-democracias brasileiras


Nas minhas andanças pelo Brasil tenho descoberto que as raízes anti-democráticas brasileiras são mais profundas do que talvez possamos imaginar, causando consequências graves para a estrutura social brasileira e para a auto-estima dos cidadãos brasileiros. Tenho visto todo tipo de abuso de poder e exploração do homem pelo homem: tráfico de influências, desprezo, assédios moral e sexual, humilhação, perseguição, exploração da força de trabalho.
Moro numa cidade onde alguns patrões se acham donos dos seus subordinados, como numa relação escravocrata que perdura. Os trabalhadores destes "senhores" são "proibidos" de ficar doentes, tem de voltar a trabalhar em uma semana após ter tido bebê, são vigiados por câmeras para não comer em serviço nem ficar à toa, realizam os trabalhos domésticos do patrão junto com o serviço obrigatório da empresa e não podem reclamar na justiça trabalhista por nenhuma irregularidade sofrida, sob pena de terem suas vidas desgraçadas.
Estes "senhores" (e "senhoras") se consideram e estão, de fato, acima da lei. Não há direitos para seus escravos, quer dizer, trabalhadores. Só o direito de ficar calado, para não ter suas palavras usadas contra si mesmos. A anti-democracia autoritária brasileira se alimenta da ignorância e da mão-de-obra barata para reproduzir a dificuldades que temos, como sociedade, de reconhecer os direitos do outro e de legitimar uma Justiça para todos.

01/03/07

Ameaça de morte


Existe algo pior que a morte. A ameaça de morte. Se a morte significar dormência, a ameaça de morte significa insônia. É melhor estar morto do que viver com o terror de ser morto a qualquer momento. A ameaça de morte é mais destrutiva que a própria morte. Ela cria o medo da morte, que é pior que a própria morte. A morte até poderia ser vista como uma coisa boa, como sinônimo de descanso, mas passa a ser encarada como algo terrível. O descanso que a morte representaria se consumada, passa a tirar a paz de quem está sendo ameaçado. Vislumbrar a morte como o fim de uma jornada seria cruzar a linha final exausto e feliz, independente da posição em que se chegasse, certo de que cumpriu o seu dever. Mas aquele que é ameaçado de morte vê a sua jornada encurtada, mesmo antes da morte chegar. E pior, não por Deus, que é o dono da vida e dos destinos humanos, mas por alguém, igual a ele, que resolve ameaçá-lo de não completar sua jornada, de retirá-lo da vida.
Ameaçar de morte é matar antecipadamente. É matar nos nervos, nas emoções, na razão. É tirar a vontade de viver do sujeito ameaçado, que questiona seu tempo aqui e imagina seu fim iminente. Ameaçar de morte é descredibilizar a vida, a história pessoal. É derramar sangue sobre um pedaço de papel com muitas letras e palavras sem nexo nenhum. Ameaçar de morte é não reconhecer que essas letras e palavras tem um sentido próprio, que é a vida do sujeito e suas experiências. Pior, é confundir essas letras e palavras, retirando seu sentido. Fazendo o ameaçado acreditar que sua vida não teve sentido, que não valeu a pena vivê-la.
Estou falando da ameça de morte que se ameaça chamando pelo nome: "ei, Fulano, eu vou matar você. Eu vou acabar com sua vida!"Coisa mortal é a ameça de morte. Haja força para suportar. Haja terapia.

28/02/07

Emprego e aconchego


Estive pensando sobre a importância do trabalho na vida de um indivíduo. Alguns autores, mais recentemente, vêm discutindo a centralidade do trabalho numa sociedade sem trabalho. Estes autores apontam para a necessidade de se reduzir a importância das relações de trabalho nos dias de hoje, alegando que é exagerado atribuir tanta importância a um aspecto da vida que está cada vez mais escasso. Pode ser que eles tenham razão, que numa sociedade em que o desemprego é gritante e gigante, o trabalho deva ficar para segundo plano. Talvez devessemos mesmo nos preocupar mais com o desemprego, e com as consequências dele para a sociedade e o indivíduo. Mas este tipo de preocupação (com o desemprego) já aponta, de novo, para o fato de que o trabalho é tema central ainda em nossas sociedades e em nossas vidas. Se o trabalho não fosse tão central ainda, não nos preocuparíamos com a falta dele.
Ao contrário do que alguns velhos marxistas pensavam, o trabalho não traz benefícios só econômicos para o indivíduo. Traz também, e este é um aspecto fundamental do trabalho, a identificação do indivíduo com uma instituição ou um time. Trabalhar é também identificar-se e diferenciar-se. Identificar-se com seus pares, seus iguais, outros profissionais da empresa em que se trabalha ou com outros profissionais da área. Mas é também um diferenciar-se, que é o outro lado da identificação, dos outros profissionais da mesma empresa ou de outras ou até daqueles que não estão empregados.
Comparo o emprego ao aconchego dos braços maternos. Acolhido nos braços da mãe, o filho se sente protegido, amparado e motivado. O emprego deixa o trabalhador acolhido, satisfeito por ter uma identidade (profissional e social). O desemprego, por outro lado, deixa o trabalhador desprotegido, solitário, angustiado e temeroso. Uma das maiores tragédias que a falta de emprego pode causar não é de ordem econômica, é de ordem identitária. O desempregado se sente de fora de um sistema que valoriza os que estão de dentro, os que estão empregados, os que são "produtivos", para usar uma palavra mais apropriada. O trabalhador sem emprego luta todo dia com sua auto-estima, que teima em querer compará-lo com os empregados e inferiorizá-lo. Ou tenta fazê-lo saudosista do tempo em que estava empregado, mesmo que mal empregado. O problema é social, a falta de emprego, mas ele é sentido individualmente, na cabeça, no bolso e na barriga do desempregado. Eu sei disso.

27/02/07

Sem palavras


26/02/07


Já ouvi histórias.
Já pesquei piabas.
Já andei descalço.
Já quebrei um vaso.
Já fiz pirraça.
Já contei piada.
Já fui cantor.
Já arranquei uma flor.

Já presenciei brigas.
Já fui preso.
Já vi intrigas.
Já levei tiro.
Já morri.
Já levitei.
Já senti.
Já amei.

Já vivi,
Já sonhei,
Já experimentei...
Na realidade ou na ficção,
Minha mente já foi
Onde esteve meu coração.
E eu continuo aqui:
Vivendo.

25/02/07

Darwin e o capitalismo


Há muito tempo me intriga a massificação da idéia de que Darwin criara a teoria da seleção natural das espécies, em que os mais aptos, "os mais fortes", sobrevivem, e os menos preparados, sucumbem. Charles Darwin foi o grande responsável pela criação e divulgação das idéias evolucionustas através da publicação do livro "A origem das espécies", que foi um sucesso. Mas ele escreveu outro livro, chamado "A origem do homem e a seleção sexual", que foi um fracasso.
Se atentarmos para a relação do primeiro livro com os interesses capitalistas, poderemos entender a razão de seu sucesso e do fracasso do segundo. A idéia de competição entre os homens faz parte do doutrina liberal. Quando Darwin enuncia a teoria da seleção natural das espécies, o Liberalismo assume e divulga essas idéias porque elas naturalizariam, tornariam natural, parte da natureza humana, a disputa entre os homens. Os homens são competitivos não porque querem, mas porque é da natureza humana. A ideologia da competição inata dos homens se firmou também na teoria evolucionista.
Por outro lado, o segundo livro de Darwin colocava em cheque o próprio capitalismo, quando ele afirmava que o mais apto não era o mais forte, mas o que tinha melhor desempenho sexual. O mais forte no sistema capitalista é o que detém maior poder econômico, não há dúvidas. Mas e o mais apto sexualmente num sistema capitalista? Provavelmente os capitalistas, preocupados com a reprodução de seu capital, não teriam muitas condições de ser bons amantes também.
A consagração da teoria da seleção natural das espécies, foi promovida também pelos capitalistas. A idéia da seleção sexual era uma ameaça à reprodução do capital e à própria doutrina liberal.
Deu pra entender? A teoria da evolução das espécies foi promovida pelo capitalismo como meio de se estabelecer e perpetuar.
Fui!

24/02/07

Piada de advogados


Por falar em advogados, não posso deixar de escrever aqui uma das minhas piadas preferidas sobre advogados:

"O Instituto Pasteur anunciou que eles não vão mais usar ratos em experiências médicas. No lugar dos ratos, usarão advogados. Eles tiveram três razões para tomar esta decisão: 1. existem no momento mais advogados que ratos; 2. os pesquisadores não ficam tão ligados emocionalmente aos advogados como ficam com os ratos; 3. há certas coisas que nem os ratos fazem".

É boa ou não é? Aceito contribuições.

23/02/07

Advogados


Os advogados têm tirado meu sono. Não, não estou enrolado com a justiça por dívidas, jogo, tráfico, espancamento ou homicídio. Estou preocupado com os advogados porque são objeto de minha tese. Estou pesquisando a relação entre profissões jurídicas e desigualdade social após a Constituição de 1988: estou convencido de que os juristas utilizaram a chamada Constituição Cidadã para alavancar seus poderes na sociedade brasileira. Não vou adiantar muita coisa para não estragar a surpresa, mas estou reunindo dados suficientes para sugerir a criação e execução de um projeto profissional dos juristas antes, durante e depois da promulgação da Constituição de 1988. "Projeto profissional" é um conceito que aponta para uma tentativa de tomada do poder, poder social (status profissional e alta remuneração), por determinados grupos profissionais. No meu caso, estou investigando o projeto profissional dos juristas. Aguarde!

22/02/07

Credencialismo

Credencialismo é um conceito criado por Randall Collins, um sociólgo norte-americano, para indicar a sobrevalorização do diploma em detrimento do conhecimento, do conteúdo. Para Collins, vivemos numa sociedade credencialista, em que a educação cumpre apenas um papel formal de treinamento. Mais do que o conhecimento, queremos uma credencial pra o mercado de trabalho, um diploma. As credenciais educativas são passaportes para postos do mercado de trabalho? Não necessariamente, segundo Randall Collins. Para ele, uma credencial, um diploma, é um passo importante para entrar no mercado de trabalho, mas é preciso também incorporar uma cultura que se identifique com a cultura desejada, esperada, pelo empregador.

Ele está entendendo, de fato, o conteúdo aprendido com a educação como irrelevante para uma boa colocação no mercado de trabalho. Uma credencial, ou melhor, uma boa credencial é mais importante do que o conteúdo ensinado e aprendido. Isso significa dizer que a estratificação educacional, a hierarquia entre as escolas, gera uma estratificação de diplomas, uma hierarquia de diplomas. Que por sua vez, mantém uma relação direta com o mercado de trabalho: a estratificação educacional é reproduzida no mercado de trabalho e o mercado, em contrapartida, condiciona a estratificação educacional. Em palavras mais simples, escolas boas ou ruins, são boas ou ruins porque o mercado as faz assim, valorizando-as, seus diplomas, desigualmente. Os formados por boas escolas terão uma probabilidade maior de obter êxito no mercado de trabalho não porque eles tenham mais conteúdo, conhecimento, que os formados por escolas ditas ruins, mas porque seus diplomas valem mais no mercado. Os empregadores para não colocar em risco suas empresas tendem a selecionar trabalhadores formados por determinadas instituições reconhecidamente elitistas.


Na verdade, Randall Collins está mostrando que a seleção para ocupar postos no mercado de trabalho é uma seleção classista, uma seleção que acaba reproduzindo a hierarquia de classes da sociedade: os mais ricos estudam nas melhores escolas e os melhores postos de trabalho, os mais bem remunerados, são entregues aos formados nas melhores escolas, que, coincidentemente, são os mais ricos. Será que ele está errado em sua análise? Se estiver errado, então, como explicar tanta desigualdade social?

21/02/07

Papai

Sujeito importante na nossa vida é o tal do pai, não é? Quem não tem mais pai, ou nunca teve, sabe o que estou dizendo. Fica aquele vazio, imaginamos que bom seria termos pai. Quem teve o pai pouco presente em casa ou excessivamente presente em sua vida também sabe o que estou dizendo. Enfim, todos sabemos a importância que o pai teve ou tem em nossas vidas. Eles são quase determinantes em nossa trajetória pessoal.
Freud diz que o pai representa a figura da lei em casa. A figura do pai marcaria a divisão entre aquilo que o filho pode ter e aquilo que ele não pode ter. E o momento em que o filho descobre que a mãe não é dele, mas do pai, seria o mais singular do papel limitador do pai. Neste momento o filho seria imensamente frustrado na realização de seus interesses ao se deparar com outro interesse diferente e arrebatador, o do pai.
O pai nos traumatiza e/ou nos incentiva. Se nos sufocou demais, lembramos dele com raiva ou até com ódio. Se nos acompanhou de perto, e na medida exata, ficamos saudosos dos tempos de criança a da presença dele em nossas vidas, lembrando dele sempre com ternura.
Talvez este tipo de pensamento só ocorra a quem está envelhecendo, mas deveria ocorrer a todos, antes até de envelhecer, para valorizarmos mais a presença do pai enquanto ele está por perto. Mas não se engane, depois da leitura deste texto se você não for levado a pensar na figura do seu pai, e na importância da presença (ou ausência) dele pra sua vida, um dia, fatalmente, isso acontecerá.
O maior motivo de tanta reflexão sobre o assunto é que um dia os filhos também se tornam pais. Saimos da condição de sujeito de reflexão para objeto da reflexão. Aí será a vez de nossos filhos refletirem sobre nós. Eu acabo de saber que serei pai pela segunda vez. Papai! Posso dizer que é um posto difícil e muito prazeroso.

19/02/07

Seis meses


Já parou pra pensar no significado de seis meses? É pouco ou muito? Pense! Seis meses sem beber água pode? E seis meses só bebendo água? Seis meses sem sair de casa. Seis meses sem voltar pra casa, preso em algum lugar. Seis meses olhando as estrelas. Seis meses assistindo TV sem levantar do sofá. Seis meses sem dormir. Seis meses dormindo, hibernando. Seis meses falando sem parar, qualquer coisa, sem parar. Ou seis meses sem falar, em silêncio. Seis meses comendo a mesma comida todos os dias, pipoca com suco de groselha. Ou pior, comendo no McDonalds. Urgh! Seis meses é meio ano, algo em torno de 182 dias, com 24h cada. Parece bastante, não? Mas são seis meses. Seis meses de idade, é pouco. Seis meses de um século, é pouquíssimo. Seis meses de uma eternidade não é nada. Seis meses... São seis meses. Pode ser pouco ou pode ser muito. Seis meses foi bastante! Saudade!

18/02/07

Quase dois irmãos


Ontem falei em irmãs, hoje quero sugerir um filme brasileiro que gosto bastante: "Quase Dois Irmãos". O filme conta um pouco do surgimento do Comando Vermelho na penitenciária da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, pelo contato na prisão de presos comuns com presos políticos do regime militar. No final... Ah, não vou falar o final, mas o drama do preso político retratado no filme passa pela presença do crime organizado dentro da sua casa. O pior é que ele mesmo ajudara a criar (formar), na prisão, a organização criminosa.

17/02/07

Irmãos que não são gêmeos


Dois irmãos, filhos dos mesmos pais, fazerem aniversário no mesmo dia, sem serem gêmeos, é coisa rara, você há de convir. Pois eu tenho duas primas, irmãs, que aniversariam no mesmo dia, e não são gêmeas. E o dia do aniversário delas é este! Minha homenagem a elas neste dia: Feliz aniversário, Juliana e Luciana!

16/02/07

Presente

Quero falar sobre dar e receber presentes. Nem vou me referir ao estudo de Marcel Mauss sobre a relação dos atores sociais envolvidos em dar e receber presentes. Ele chamou seu trabalho de "Ensaio sobre a dádiva", que já é um clássico das ciências sociais, e é lindo.
Quero tocar nesse tema porque alguém anonimamente enviou um comentário à minha postagem anterior dizendo que na lei federal que instituiria a festinha de aniversário obrigatória às crianças, até pelo menos os 10 anos de idade, havia faltado colocar os presentes como necessários e indispensáveis a uma festa infantil. Quando escrevi a postagem anterior me pareceu óbvio que os presentes não podem ser dispensados. Mas o sr. anônimo tem razão, pois ainda há pessoas que vão às festas infantis com as mãos vazias.
Quem, quando era criança, nunca correu na porta para receber um convidado que chegava na expectativa de saber logo qual seria o presente? Ou quem nunca presenciou esta cena? E que decepção ao olhar as mãos vazias do convidado, ou ao receber apenas um tapinha na cabeça ou um aperto na bochecha. Depois dessa experiência ruim para a criança, a correria continua, a diversão continua, como se ela dissesse para si mesma: "não vai ser este cara-de-pau, este pão-duro, este insensível, que vai estragar minha festa!" É mais uma prova de que as crianças tem muito a nos ensinar!
Vamos incluir a necessidade de dar presentes às crianças na nossa lei federal. Elas merecem! Abaixo os adultos-de-mãos-vazias!

15/02/07

Aniversário

Não sei se o sentimento de quem faz aniversário é o mesmo em qualquer parte do mundo, mas tendo a pensar que há um misto de expectativa pelo que vai acontecer no dia e esperança de que coisas boas aconteçam que deve ser comum a todas as culturas. Talvez eu esteja errado, e até etnocêntrico (olhando para as outras culturas como se fossem iguais à minha, julgando as outras culturas a partir da minha). Mas me permito conjecturar sobre esta data tão especial que é o dia em que nascemos.
Pode até ser que com o passar dos anos, depois de muitos aniversários, passemos a valorizar menos a data de nascimento. Mas quando vemos uma criança celebrando um aniversário, e nem precisa ser a data dela mesma, ficamos maravilhados com o poder que esta data, e a festinha é claro, tem para ela. Uma coisa não podemos negar, os pequenos são expontâneos e sabem se divertir. É uma correria, uma risadaria, uma empolgação, enfim, uma alegria que talvez não tenha igual. Chego a pensar no porquê abandonamos esta inocência infantil que só parece fazer bem para as crianças.
Mesmo que não fôssemos tão alegres como as crianças, que endurecessemos co o tempo e a vida, poderíamos pelo menos observa-las em dias de aniversário. Observar a alegria delas também nos alegra e nos faz bem. É contagiante, no bom sentido. É uma aula de persistência e alegria. Persistência em alegrar-se. Numa correria que acaba em tombo, ou em choro, a criança se levanta rapidamente e continua em frente, limpando as mãos na calça, secando as lágrimas com as mangas da camisa, abraçando as pernas do pai enquanto observa as outras crianças, como se estivesse se recompondo para voltar à festa. E a hora de cantar parabéns? É aquela disputa por um lugar perto da mesa onde está o bolo. E as bolas coloridas? "Eu quero aquela amarela". "Eu quero a roxa!" No final, o saldo (para usar um termo dos adultos) é sempre positivo para as crianças, é sempre divertido.
Devia ser lei federal: "Todo cidadão tem direito de realizar festinhas de aniversários para seus filhos ou enteados até completarem 10 anos de idade, devendo a União, os estados e os municípios garantir o cumprimento desta lei, inclusive com recursos financeiros necessários para a realização das festas. Parágrafo único: Toda festa deve contar pelo menos com bolo de aniversário com velinhas, balões coloridos, docinhos variados, suco, pipoca, cachorro-quente e música infantil." Imagine toda criança tendo um dia do ano, de cada ano de sua vida, destinado a celebrar a sua existência? E isso até os 10 anos de idade pelo menos. Seria uma revolução na vida dos pequenos que talvez causasse um revolução na vida dos adultos que elas se tornarão. Quem sabe teríamos um mundo melhor? Mas deveria ter uma lei também que obrigasse os adultos a observar a alegria e diversão dos pequeninos. Para que os adultos não esqueçam do lúdico, da diversão, da alegria e voltem a se alegrar com os aniversários, mesmo que seja o dos outros.
Como eu sonho com um mundo melhor para as crianças! Como eu espero por um mundo menos "adultocêntrico"! Como eu desejo que os adultos se divirtam só em observar a diversão das crianças! Como eu me diverti hoje, com a alegria de minha filha que completou 1 aninho!

14/02/07

Diminuição da maioridade penal

Toda vez que acontece uma tragédia com repercussões nacional volta à tona o debate sobre aumentar ou não a punição prevista em lei para determinados tipos de crimes. Infelizmente ainda queremos pegar o "atalho", tentando resolver coisas muito complexas apenas com uma canetada ou uma alteração de lei. No caso específico da violência cometida e sofrida por menores de idade, como foi o caso do menino João Hélio e de seus algozes (alguns dos quais eram menores), precisamos nos conscientizar de que a redução da maioridade penal não será a solução para os crimes cometidos por menores. Precisamos aprender a lidar com nossas próprias mazelas. Entre elas, a de não saber como tratar nossas crianças. E isso não só em termos de falta de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento infantil, como também na nossa falta de condições de criar uma criança. Elas são abandonadas, mal-tratadas, humilhadas e assassinadas. E isso por pessoas comuns, como você e eu, não só pelo Estado. A redução da maioridade penal não resolve o problema porque só acentua o rigor da punição sobre a ponta do iceberg, o menor. Este menor delinquente é tão vítima quanto as vítimas que ele mesmo faz, como o garoto João Hélio. Se punirmos o infrator com maior rigor, e cada vez mais cedo, estaremos sendo injustos com ele, que é em grande medida produto da sociedade. É fácil pegar o menor infrator e usá-lo para expurgar nossas próprias contradições e omissões. Mas e o adulto que deveria ter cuidado daquele menor infrator antes dele se tornar criminoso e não cuidou? Reparem que cuidar não significa só abraçar e bajular não. Cuidar é também exortar, "puxar a orelha", no momento certo e de forma adequada. Precisamos cumprir as leis que temos e criar políticas de controle do papel esperado pelos pais e familiares. Precisamos de penas mais rígidas sim para o adulto que arrebanha crianças para o crime, para pais que abrem mão de sua tarefa de criar responsavelmente os filhos, para familiares que abusam dos menores, para adultos e empresas que exploram a força de trabalho infantil...

12/02/07

Violência e Infância




Estive uns dois dias perplexo com as notícias do assassinato brutal do menino João Hélio. Queria escrever alguma coisa sobre isso mas não conseguia. Afinal, como explicar uma morte tão cruel como esta? Parece mesmo não ter explicação. Aí tentei lembrar minha infância e as coisas mais cruéis que presenciei na minha época de criança. Lembrei que gostava de assisitr filmes de terror com assassinatos com "requintes de crueldade", como se costuma dizer: degolas, esquartejamento, tortura, facadas, tiros, venenos, asfixia, enforcamentos etc. Assisti todos ou quase todos das décadas de 1970 e 1980, época em que os filmes de terror viraram febre: Sexta-feira 13 (e suas intermináveis sequências), Halloween (e suas sequências), Colheita Maldita, Re-animator, A morte do demônio, Carrie, Massacre da serra-elétrica, A hora do pesadelo, A volta dos mortos-vivos, A noite dos mortos-vivos, Poltergeist, O portão, A maldição dos mortos-vivos, Coração Satânico, O Exorcista, Pavor na cidade dos zumbis, e por aí vai. Todos repletos de banhos de sangue e com os ingredientes indispensáveis ao gênero: mortes.


O que me atraía nesses filmes é que a violência contida neles era a caricaturização de algo distante da nossa realidade. Quero dizer que gostava dos filmes de terror (e eu preferia os de assassinatos do que os de monstros e fenômenos sobrenaturais) porque eles eram uma ficção no meu universo infanto-juvenil. Era a apresentação de uma coisa que no fundo eu achava que não era real. Eu sabia que era um filme e, de alguma maneira inconsciente, não admitia que a ficção do filme se misturasse à minha realidade, ou a de ninguém. O filme era o espaço das pirações, dos impossíveis, das invenções, do lúdico. Já a realidade era o lugar dos estudos, dos deveres de casa, das provas e dos horários marcados. O máximo que as imagens e símbolos dos filmes de terror passavam para minha realidade era nas brincadeiras, mas nada que colocasse em risco a vida alheia. Gostava de ser alguns dos personagens (Freddy e Jason, por exemplo) e de cantar as musiquinhas dos filmes (principalmente a de Halloween). A violência dos filmes de terror me fascinava.


Lembrando esses episódios dos meus 13 aos 16 anos de idade e toda violência contida nos filmes de terror, percebi que nada se compara ao que aconteceu com o menino João Hélio. Simplesmente porque o que aconteceu com o menino não é filme, mas real. Não se pode voltar a fita (como se fazia na época dos vídeocassetes) para rever os detalhes da cena. Não foi uma cena, foi um assassinato de verdade. E isso é mesmo chocante, apavorante e cruel. Esta violência que parece romper o limite infantil entre ficção e realidade, e a prova disso é que nossas crianças hoje já se preocupam com a violência (veja imagem acima), talvez seja a causa da redução das produções de filmes de terror a partir dos anos 1990. O que nos divertia nas produções das décadas de 1970 e 80 era que as cenas representadas na tela "não existiam" na nossa realidade. Estávamos mais distantes dessa violência. Mas na medida em que a violência passa a fazer parte do nosso cotidiano, o que nos divertirá? Será que aquela infância inocente, em detrimento da infância vivida nos dias de hoje, não explica também, em alguma medida, a onda retrô em que vivemos? Parece que queremos de volta o estilo de vida que tínhamos antes, e que perdemos. Viva os filmes inocentes, as animaões, os romances...! Viva a infância! Chega de violência!
Aproveito para indicar um filme inocente e cativante sobre acreditar no potencial de alguém ainda na infância, e sobre a diferença que isso faz na vida de uma criança, e para quem gosta do ritmo mais lento e romântico do cinema europeu. O nome do filme é "A voz do coração" (Les choristes). Vale a pena!

10/02/07

Homem-Animal


Antes de começar esta postagem quero dizer que minha relação com os animais nunca foi além de um mero observador e apreciador da beleza e pecularidades dos bichinhos. Quando criança, gostava de ir ao zoológico e observar as espécies. (Aliás, acho que zoológicos cumprem papéis pedagógicos importantes na vida das crianças, ao contrário dos mais radicais defensores dos "direitos dos animais".) Mas tem gente que leva a relação com os animais bem mais a sério. A coisa mais bizarra que já ouvi falar foi de um sujeito de Dores de Macabu, em Campos/RJ, que molestava uma égua, com o "consentimento" dela. Mas não é disso que quero falar, porque é tosco demais!

Não é de hoje que a relação homem-animal gera consequências. Um problema, supostamente gerado por esta relação entre homens e animais num mesmo espaço, seria a destruição dos animais no ambiente urbano. É claro que há uma redução dos animais nos espaços urbanos, mas há também uma diminuição de nossa sensibilidade à presença deles, pelo ritmo frenético que vivemos nas cidades. Mas se abrirmos nossos olhos e ouvidos, perceberemos que eles estão lá, resistindo à poluição e à agitação, mas não à nossa indiferença à presença deles. Se acordarmos mais cedo, ouviremos o canto dos pássaros anunciando o novo dia. Ou no final da tarde, as revoadas de pássaros recolhendo-se a seus ninhos. Os macaquinhos estão pulando de galho em galho e nas janelas de alguns apartamentos, em plena metrópole. Sem contar os cães pelas ruas, os gatos, as lagartixas, as borboletas, as corujas, os esquilos, os morcegos...

As praças, os hortos e outros espaços verdes das cidades estão repletos de animaizinhos e insetos que convivem bem conosco. Essa idéia de que homem e animais não se dão bem, que os homens ameaçam as vidas dos animais é uma falácia. A prova disso está do lado de fora. É só você chegar na janela ou ficar atento aos movimentos dos bichos nas cidades. Quer dizer, é só exercitarmos nossa percepção para descobrir estes seres que nos rodeiam.

Hoje não quero escrever muito porque vou comer um pedaço de bolo com minha esposa, que está aniversariando. Vou encerrar tentando lembrar alguns produtos culturais do cinema, da TV, dos quadrinhos e da música sobre a relação homem-animal: Manimal (seriado americano da década de 1980), Homem-Aranha, Batman (homem morcego), Mulher-Gato, Homem-Pássaro, Josie e as gatinhas, "O vira" (cantado por Ney Matogrosso), Os Saltimbancos (musical infantil dirigido por Chico Buarque nos anos 1970), Arca de Noé (de Vinícius de Moraes)... Tenho um primo que é especialista em artes cênicas, visuais e musicais. Vou pedir a ele pra elaborar uma lista mais completa desses produtos culturais em que a relação homem-animal está presente e postar aqui no comentário. Tá ouvindo, Leandro? Aceito outras contribuições. Até a próxima!

08/02/07

Mercado Animal e Solidão


Em 1982, quando Eduardo Dussek cantou "Troque seu cachorro por uma criança pobre", na música Rock da Cachorra, de Léo Jaime, ainda não havia acontecido a expansão do mercado de bichos de estimação e de toda parafernália ligada ao cuidado com os bichanos. O sucesso que a música alcançou naquele contexto provavelmente não seria o mesmo se fosse lançada nos dias de hoje. A música que tinha até um certo viés político de denúncia do exagerado cuidado com os animais de estimação, em detrimento de nossas crianças carentes, e cantada em tom bem humorado, provavelmente esbarraria na realidade do mercado: segundo consultores da área de produtos para animais de estimação, estima-se que o mercado de pet cresce cerca de 20% ao ano no país e fatura mais de US$ 1 bilhão por ano. A mesma quantia é movimentada anualmente pelo mercado clandestino de animais silvestres, no chamado tráfico de animais. É, os animais também viraram mercadoria! Este é um ponto interessante para refletirmos

Por que será que o mercado de animais se expande tanto? Poderão existir várias respostas, mas quero me dedicar a um fator, retirado do depoimento de um empresário do ramo de Pet Shops: "No mundo globalizado, o mercado dos bichos de companhia também é sinônimo de lucros".

Esta carência de companhia apontada pelo empresário não se deve à chamada Globalização, mas ao aumento da desconfiança entre nós. Carecemos de cuidados e queremos cuidar. Mas num mundo tão individualista, em que perdemos nossas referências, em que não conhecemos mais ninguém, em que saimos de casa para trabalhar e voltamos à noite sem receber uma manifestação de aprovação, de cuidado, e sem manifestarmos nosso contentamento com alguém, chegar em casa e ser recebido aos beijos, ou melhor, às lambidas e aos latidos ou miados, chega a ser comovente.

Não há dúvidas que os animais de estimação são carinhosos, companheiros etc. Mas a companhia que eles nos fazem é apenas um tipo de companhia, não substitui totalmente a necessidade de "estar com" que o ser humano tem. Tanto não satisfaz plenamente nossa carência de amigos e relações sociais que os mais entusiastas do cuidado com os animais logo começam a tratar os bichos como iguais, como seres humanos: é "meu amor" pra lá, "filhinho" pra cá, longas conversas com os bichinhos (e juram que o bicho está entendendo tudo que está ouvindo!).

Sem dúvida, esse tipo de cuidado exagerado com os bichos expõe a carência e solidão que vivemos nos dias de hoje. Principalmente nos grandes centros urbanos. Mas os lugares menores também são alcançados pelo mesmo sentimento de desconfiança e medo que nos isola um do outro, graças à homogeneização da experiência. (Vou falar melhor disso qualquer dia.)

Aristóteles dizia que o homem é um animal politico, quer dizer, relacional, que precisa desenvolver seu lado social, precisa estar com o outro. Se, como estou afirmando, a companhia dos animais não supre completamente as carências humanas de cuidado e proteção, podemos questionar também pensando pelo lado do animalzinho: será que nossa companhia é suficiente para ele? será que somos tão boa companhia para ele quanto ele é pra nós? Com certeza, as respostas serão negativas.

Desde já quero deixar claro que não sou contra animais de estimação ou que esteja pregando o maus tratos aos animais etc. Minha questão é humanista: por que nos tornamos pessoas tão sós? por que nos preocupamos e gastamos mais com os bichanos que com nossos semelhantes? E, fundamentalmente, quero afirmar que precisamos de um equilíbrio entre o cuidado com o bicho e o cuidado com o outro (ser humano), sob pena de nos tornarmos ainda mais sós e carentes. Vamos à rua. Vamos cuidar do outro. Mas não espere aceitação imediata, porque não estamos acostumados a isso e desconfiamos de quem o faça.

Para encerrar, quero dizer, em primeira mão, que ingressei (eu e a esposa) com um processo judicial para adoção de menor (ser humano). Estou fazendo a minha parte. A situação dos menores abandonados no Brasil é também um problema social. Mas isto fica para outra oportunidade.

07/02/07

Bicho-Homem


Quando falei, na última postagem, sobre uma certa tentativa de naturalização da guerra entre os homens a partir da exibição de documentários que retratam a "guerra" no reino animal, quis ressaltar uma ideologia que tenta destruir a possibilidade de cooperação entre os homens. Penso que não há nada que possa justificar o assassinato pela natureza humana. Porque a natureza humana é cultural, ela não existe a priori, ela é construída socialmente, nas nossas relações sociais e nas interações culturais com o(s) outro(s).

Um homicídio é um ato ético, e não natural. E é um conceito jurídico-moral. Mas é claro que existe um distanciamento nosso, dos seres humanos, do ato de reflexão sobre nosso próprio papel no mundo e sobre nossa própria visão de mundo. E talvez este seja um grande problema social. Algumas perguntas básicas para um viver saudável em sociedade não são feitas: Quem sou eu nesta sociedade em que vivo? Por que penso assim e não de outr jeito? Quer dizer, como cheguei a me tornar o que sou? Quais são as minhas características emocionais? Quais são meus pontos fracos? Quais são as minhas virtudes? Em que medida o outro é importante para mim? Como meu comportamento afeta o outro ou a coletividade? Será que afeta para o bem ou para o mal? Será que devo fazer isso ou aquilo? E por aí vai. Perguntas como estas significariam uma "re-flexão", uma auto-crítica, uma possibilidade de auto-conhecimento. Do contrário corremos o risco de embrutecermos, de nos bestializar, nos tornamos como animais.

Só nos conhecendo é que poderemos nos controlar, conter nossos impulsos de intolerância. Quanto mais as pessoas se afastam da reflexão, maior é a probabilidade de emergir a intolerância. Um líder carismático, que leva multidões atrás de si, faz com que seus seguidores se tornem alienados de seu papel no processo histórico e de que eles têm responsabilidades em suas ações. Hitler foi carismático. O resultado já é conhecido.

Quero dizer que a postagem de ontem fez algum sucesso. Recebi vários emails de apoio, a maioria concordando com o que escrevi. Os que acrescentavam uma ou outra coisa diferente do que havia escrito ou não concordavam com algum aspecto, estou tentando incorporar aqui, explicar melhor. Continuarei no mesmo assunto no texto de amanhã e, provavelmente, no de depois de amanhã. Essa bicharada está dando o que falar. Só peço que vocês deixem comentários no blog, em vez de me mandar emails. Ou façam os dois. Boa reflexão. Até amanhã.
Obs: Ah, reparem que a pomba, símbolo da paz, está pousada numa poça de sangue.

06/02/07

Sobre homens e animais



Ontem quando falei de humanização, constatando que ainda existe um sentido humanista na sociedade, com escassez mas existe, pensei no que caracterizaria o homem como humano, e não como animal. Entre alguns fatores, o uso da razão, da racionalidade e do poder de escolha. Os homens são também racionais e os animais, instintivos. Mas já repararam que há uma certa tendência em transformar os animais em sujeitos?


Ontem passei por um canal de TV específico sobre animais e o título do programa era "Matar ou morrer", e o narradaor mostrava as interações entre os animais em seu bioma natural, ressaltando a cadeia alimentar: um animal que é predador do outro é também presa de outro. Ora mas isso é instintivo, é da lei da natureza. Isso não é racional, nem pode ser chamado de assassinato. Homicídio é um fenômeno socio-jurídico. Atribuir aos animais características humanas como violência, vingança, frieza etc., como fazia o narrador, é no mínimo estranho.


O ser humano é o único ser vivo que consegue viver em sociedade sem se auto-destruir. Ou pelo menos, deveria ser, porque nós somos seres racionais e morais. Freud afirma que a cultura foi o meio encontrado pelos humanos para auto-preservação da espécie.


Quero dizer, com tudo isso, que aproximar o "comportamento" animal com o humano parece uma ideologia que serve para justificar a violência entre nós. É como se nós ficássemos mais confortáveis com a violência cotidiana ao saber que os animais também são violentos, que é da natureza dos seres vivos. Como se todo ser vivo fosse só instinto, como se não fossemos diferentes dos bichos. Talvez venha faltando mesmo a razão ao bicho-homem.


Tinha mais coisas a falar sobre este assunto, mas vou deixar pra outro dia.

05/02/07

Surpresa!


É sempre bom ser surpreendido com notícias boas ou com alguém que demonstra cuidado por você. A gente fica com as esperanças renovadas. Hoje fui surpreendido por alguém de quem não se esperaria muita coisa, seja porque não faz parte do seu círculo social, ou porque no fundo não acreditaríamos que pudesse vir alguma coisa boa dali. Surpresas como esta quebram a gente no meio, retira de nós o descrédito numa sociedade que em geral se afigura cada vez mais egoísta. Nem tudo está perdido, ainda há vida, humanidade, entre nós. Ainda existem pessoas que se preocupam com as outras gratuitamente.

Já estou começando a falar de coisas boas, não é? Até a próxima!

04/02/07

Intolerância!


Recebi um email de uma pessoa dizendo que tem lido minhas postagens aqui e que tem achado tudo muito sério, meio melancólico. Quero dizer que provavelmente a escrita de uma pessoa, e sua escolha sobre o que e como escrever, varia de acordo com o período de vida dela. Os escritos refletem sim, em alguma medida, o estado de espírito do escritor. Mas não podemos chegar a conclusões definitivas sobre o estado de espírito de uma pessoa apenas lendo algumas de suas idéias.

Outra pergunta que se impõe, ou melhor, que o email que recebi impôs, foi: todo cientista social é "melancólico" assim? A resposta a esta segunda pergunta está totalmente ligada ao meu comentário no final do parágrafo anterior sobre não se tirar conclusões precipitadas a partir apenas de meia dúzia de palavras despretenciosas. Mas a resposta a esta segunda pergunta vai um pouco além, passando pela necessidade que temos, de classificar ("rotular") e universalizar ("generalizar") um idéia sobre algo ou alguém. Não sei dizer se esta característica de levar as coisas a sério é comum a todo cientista social, ou se é minha em particular. Também não posso dizer que meus escritos, se são sérios demais agora, serão sempre assim. Se meu estado de espírito mudar meus escritos provavelmente não irá mudar também? Então, pode ser que escreva coisas mais alegres um dia desses.

Tenho que admitir que trato com seriedade mesmo a vida, em especial alguns assuntos ligados à nossa vida em sociedade, principalmente os assuntos que eu estudo: desigualdade social, pobreza, acesso à justiça, ensino superior e profissões. Não consigo tratar estes assuntos sem ser com seriedade, com exceção para piadas sobre advogados.

Mas fico grato ao autor do email que permitiu um maior auto-conhecimento, que eu escrevesse estas explicações e que eu pudesse refletir sobre a intolerância nos nossos dias. Falando francamente, este email foi uma aula de intolerância. Afinal, meu blog está apenas se iniciando. Nem houve tempo para que eu escrevesse direito, pois esta é apenas minha oitava postagem. Quem sabe um dia a mais e eu escrevesse coisas alegres?

Não pensem que o sujeito (ou sujeita) que me enviou o email seja mal-educado(a). A intolerância é uma característica dos dias de hoje (e aqui posso generalizar porque se trata de um conhecimento): vivemos numa sociedade consumista (consumir é também destruir), pragmática (tudo deve ter um objetivo prático), imediatista (a ação antecede a reflexão) e hedonista (tudo pelo prazer, que é sempre efêmero). Estas características da nossa sociedade estão em nós, que somos parte da sociedade, e dão as condições necessárias para a reprodução da intolerância nossa de cada dia. A intolerância ganha terreno fácil numa sociedade do "pra ontem", do "pra já", do "agora mesmo". Mas é claro que nós podemos refrear nosso ímpeto intolerante. Dá trabalho, mas podemos.

Acho que cientistas sociais são importantes ainda. Não deixem de enviar comentários, mesmo que seja por email. Isso faz me sentir útil.

02/02/07

Separações

Foi mesmo um tempo difícil
Que se afigurou para nós.
Foi uma vida inteira
Que se foi de uma vez.
Foi mesmo uma vida,
Punida pelo que fez.
Sofre a vida,
Sofre com a ida,
Triste partida.
E quem ficou?
Sofre e lida
Com o que passou.
Ela está presente.
Ela foi ausente.
A vida é mesmo esquisita:
Quem já foi, não foi;
Quem nunca foi, se foi.
E foi a vida que pediu.
E foi embora outra vez.
Foi a vida que impediu,
Que fosse embora de uma vez.
Viveu como se não fosse acabar;
Acabou como se não fosse viver.
Não entendeu que da vida,
O que se tira é a vida.
E se nada se tira da vida,
Permanece sem vida:
É como tirar a própria vida.
Espero que a vida lhe ensine.
Se é que quer aprender.

31/01/07

É o fim!



Fim do mês é aquele aperto econômico para o brasileiro. Mas também é tempo de renovar as esperanças, afinal o novo mês está às portas e, com ele, uma nova remuneração mensal, um novo planejamento orçamentário, uma nova possibilidade de gastos... Êpa, mas espera aí! De que tipo de brasileiro estou falando? Ah, estou falando dos brasileiros empregados regularmente no mercado de trabalho formal. Estes são cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros. Quer dizer que os outros 70% não são trabalhadores do mercado formal, divididos entre trabalhadores informais, autônomos, desempregados e pessoas consideradas fora da população economicamente ativa (PEA), como as crianças.


Se fizermos um cálculo otimista podemos dizer que temos um PEA de 60% da população brasileira. Se destes 60% descontarmos os 30% que estão no mercado de trabalho formal, podemos chegar à conclusão de que outros 30% dos brasileiros não podem contar com uma remuneração certa todo início do mês. Atenção que não estou falando de pobreza ainda, estou falando da PEA fora do mercado de trabalho formal. Quero dizer, entre a PEA, há pessoas que recebem menos de R$ 80,00 por mês e há pessoas que não sabem quanto vão ganhar no mês seguinte mas que ganham muito bem, como alguns autônomos.


Se formos falar de pobreza, que inclui parte da PEA, a estimativa da Fundação Getúlio Vargas é de que temos entre 25 e 30% de pobres na sociedade brasileira, algo em torno de 45 milhões de brasileiros. Isto significa que 45 milhões de brasileiros não renovam suas esperanças ao fim de cada mês. Vivem os dias como se fossem os mesmos. Podemos pensar, meu Deus, isso é loucura! É muita gente! Sim, é muita gente com pouca (ou sem) esperança. Então, dá para entender porque talvez não tenhamos conseguido resolver o problema da violência em nosso país?


Esta reflexão é pertinente, num ano em que pretendemos fazer algumas reformas: sindical, do Judiciário, política etc.

30/01/07

Crianças Invisíveis



Ontem assisti a um filme muito bom e que nos desperta para o problema das crianças no mundo todo: a invisibilidade das crianças e de suas necessidades num mundo construído pelos adultos e para os adultos. O filme "Crianças invisíveis" é uma coletânea de curtas sobre a temática infantil. Destaque para os curtas dirigidos por John Woo, Spike Lee e Katia Lund, nesta ordem.


O filme do chinês Woo é o último, mas é mesmo o melhor de todos, trabalhando a desigualdade social na China, mostra duas garotinhas com destinos aparentemente tão distintos, uma é pobre e ao outra é rica, mas com necessidades tão idênticas: afeto, cuidado, proteção, amor. O filme é de chorar.


O filme do americano Lee aborda o problema das crianças portadoras do HIV nos Estados Unidos. Estas são mesmo crianças invisíveis. Quando pensamos nos problemas das crianças, lembramos logo de violência, pobreza, fome, exploração sexual e trabalho escravo. Mas esquecemos completamente dos doentes. As crianças portadoras do vírus HIV sofrem discriminações e perseguições das outras crianças e dos adultos. Muitas delas nem sabe o que é AIDS, mas seus coleguinhas gritam o tempo todo que elas são "aidéticas", que vão morrer etc. Como toda criança faz, elas perguntam inocentemente: o que é AIDS? Eu vou morrer, mamãe? O que responder? Elas saberão o que é a discrimimnação ou a morte antes mesmo de saber o que é AIDS. Tocante!


O filme da brasileira Lund, é sobre crianças catadoras de papéis e outros recicláveis na cidade de São Paulo. Esta realidade a gente conhece bem, mas isso não quer dizer que essas crianças sejam menos invisíveis para nós. A última cena do filme é emblemática do problema da desigualdade social que afeta as nossas crianças, que são trabalhadoras (embora não devessem ser): os prédios suntuosos de Sampa surgem, numa abertura de câmera, ao lado de uma favela e impondo-se sobre ela. Triste sentir a sensação de "a vida continua" na tomada final. As decisões das grandes empresas, com milhões de dólares envolvidos, são tomadas ao lado das favelas e das crianças invisíveis das grandes cidades brasileiras, que lutam para conquistar míseros reais.


Vale a pena assistir.

26/01/07

Livre para escolher?!


Em minha última postagem falei dos constrangimentos da vida. Um colega me telefonou e disse que eu estava defendendo um híbrido entre a escolha racional e o determinismo social e que, portanto, eu estava em cima do muro. Pode ser mesmo. Penso que as duas coisas acontecem mesmo todos os dias em nossas vidas. Ora com maior ênfase e possibilidade pra um (a escolha do indivíduo), ora para outro (os constrangimentos da vida). Mas ele me falou outra coisa que concordo e que não posso deixar de salientar: "mesmo que sejamos constrangidos por alguma situação da vida, no final das contas podemos escolher o que fazer com este constrangimento". Realmente, embora sejamos levados às vezes a experiementar coisas que nem desejamos, podemos escolher o que fazer com essas experiências. De novo, não sem sofrimento ou angústia. Ele quis elegantemente me tirar do muro e me levar para o lado da liberdade de escolha e eu aceito. Na verdade não estava inteiramente no muro, talvez tenha dado apenas mais ênfase às determinações da vida por uma questão momentânea. Não sei se ficou claro, mas o que quero dizer é que escolhemos o peso que as determinações da vida terão em nosso viver. Uma experiência ruim (ou boa) do passado não pode nos aprisionar a ponto de reproduzirmos sempre uma mesma visão de mundo. Somos livres para resolver um trauma ou transformar nossa visão de mundo sobre algum aspecto da vida. Acho que viver é mesmo resolver problemas. E que é mais feliz aquele que mais consegue resolver problemas, afastar de si o mal.

Bom, a vida continua, com ou sem estas divagações, apesar da reflexão. E continua conduzida por pessoas de carne e osso, sujeito a crises, paixões, angústias... O que não podemos é deixar de interferir nos rumos da vida. O "deixa a vida me levar" não combina com quem quer viver uma vida responsável e autônoma.

24/01/07

Há vida. Ah, vida!


O pensamento não pára. Mas o que faz a vida seguir ou a vida parar não é o pensamento. A vida continua, a despeito de qualquer pensamento, de qualquer reflexão ou alienação. Não chega a ser uma roda viva, como cantou Chico, mas há algo de determinístico no viver. Nem tudo é escolhido por mim, embora nos pareça interessante pensar assim. Pensar assim dá maior autonomia ao indivíduo, mas também o sobrecarrega mais. Afinal, se tudo é escolhido pelo indivíduo, ele será sempre responsável por seus problemas, por suas escolhas. Mas sabemos que nem sempre isso é verdade. Há coisas que não desejaria, mas que meu pensamento positivo (ou negativo) não tem poder para barrar. Por isso parece haver alguma coisa além da nossa capacidade de escolha. O que não significa dizer que não haja possibilidade de escolha individual. Há. Mas também há coisas que não escolhemos viver e vivemos, não há? Há.

Ah! O pior desse jogo de forças entre a nossa capacidade de escolha e as determinações da vida é que há um indivíduo no meio, você e eu, sofrendo, ansiando, gritando, calando... Mas se esta é a vida que somos a chamados a viver e a suportar, que vivamos com esperança e responsabilidade, que suportemos com força e alegria. Esperando o bom resultado de nossas escolhas responsáveis; suportando firmemente as angústias da vida e transformando-as em gargalhadas em algum momento futuro. Porque as adversidades da vida não são maiores que a nossa capacidade de suportar. Pode acreditar em mim.

23/01/07

Depois do começo


Renato Russo tem uma música em que ele diz: "e depois do começo, o que vier vai começar a ser o fim". O dia seguinte de um lançamento é tão frustrante quanto à expectativa pelo lançamento. São aqueles minutos que sucedem à partida de um foguete. Momentos tensos, em que o foguete pode se desintegrar no ar, explodir, colocando fim a um trabalho longo e árduo. E aquele momento de decepção, aquele ahahhahahahahahahhahah!, toma conta da sala de controle da NASA. Lágrimas, abraços, comoção, tristeza... Acho que este é o momento em que estou. O foguete ainda não se desintegrou, mas a expectativa é imensa. Será que ele consegue alcançar sua órbita.
Bom, para não dizer que eu não tenho nada a dizer, e por falar em foguetes, quero deixar registrado que nesta data, em 2003, foi recebido o último sinal da sonda Pioneer 10 antes de se perder no espaço. A sonda foi lançada ao espaço em 1972.

22/01/07

Começando pelo começo



Começar é sempre difícil, gera ansiedade e até dor. Os braços parecem até ficar pesados e o corpo prostrado. Quando começo alguma coisa tenho sempre a sensação de que o que se está iniciando pode não ser relevante, de que talvez não possa dar conta... Essas coisas que servem para nos tirar do foco. Mas o desafio de seguir em frente, de produzir algo, acaba me motivando a enfrentar estes obstáculos e, no fim, as coisas dão certo. E você, o que acha do começo?
Para um começo, este é o meu primeiro blog, até que consegui sair da inércia e expressar sentimentos que nem sempre são conscientes. Acho que a cada dia estarei mais acostumado com este novo papel, de publicador de coisas que ninguém lê e ninguém comenta.