06/08/2010

Tubo vazio

Quando a pasta de dentes acaba é preciso trocar. E se não há outra, aperta-se até o final. Espremer. Exprimir. Sair. Tirar. Esvaziar. Substituir. Ninguém joga um tubo de pasta de dentes fora se não há outro para substituir. Nem você.

02/08/2010

Invisivel e atento

Estou aqui escondido,
Camuflado de mim mesmo,
Vendo você entrar,
Vendo você passar.
Querendo aparecer,
Escancarar.
A tinta das suas canetas não me faz corar.

Continuo invisível pra você.
Invisível por você.
Invisível há tempo.
Invisível e atento.
Mas trabalhando pelo dia em que se enxergará.
Vai ver.

27/07/2010

Inspirações

Não se pode viver sem inspirações.
Às vezes músicas,
Outras musas
Ou alucinações.
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Podem também ser filmes, pessoas, lembranças ou imaginações.

26/07/2010

Retrospectiva

Olho pra trás e entendo os equívocos,
Mas não me conformo com os acertos.
E tento corrigir os erros
E esquecer os acertos.
Os acertos que me acertaram em cheio,
Que me levaram ao chão,
Que marcaram a minha vida.

Olho pra trás e não vejo ninguém:
Não há pessoas,
Não há amores,
Não há intrigas,
Nem seduções.
Mas está tudo aqui comigo,
Tudo ao meu abrigo.

Olho pra trás e exercito minha memória.
Lembro de cada situação,
Lembro de cada complicação,
De cada rosto,
Cada expressão.
Mas não lembro de nada
Que não me cause alguma emoção.

Olho pra trás e vejo o fim.
A distância temporal cumpre um curso natural:
Faz amadurecer,
Faz apodrecer
E morrer sentimentos.
Se há um proveito a tirar dessa distância,
É matar a amargura que seca;
Que mata.
E não para por aí.
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Hoje não tenho ressentimentos, mas também não tenho ilusões. E sigo ligando os pontos, dando sentido aos rastros. E você pode me ajudar.

23/07/2010

Captura sociológica


Se eu não ensino Direito, o problema não é meu, mas do processo de socialização. Por um lado, talvez eu não tenha tido boas experiências com quem achava que era bom, quem achava que ensinava Direito. Aliás, o presunçoso está a um passo da tragédia. E aquilo que era pra ser Direito, fica torto. De outro lado, minha experiência com a sociologia na faculdade foi sempre muito libertária. Naquele meu momento histórico era tudo que eu queria, era o que eu precisava. E o que era pra ser um coadjuvante, passou a principal. Fui capturado por essa sociologia que não me deixa parar de pensar. Vivo nela. E vivo dela.
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Obs: Tive dois professores de sociologia já no primeiro ano da faculdade de direito que foram fundamentais para minha opção pela carreira sociológica: Ricardo Falbo, que lecionava Introdução ao Estudo do Direito; e Amélia Rosa de Sá Barretto, que lecionava Sociologia e, posteriormente, foi minha orientadora de monografia na graduação. Ainda tive outros encontros com a sociologia na graduação, em palestras, encontros, debates e como monitor de sociologia do direito. Aí não tive como escapar, fui capturado mesmo.

22/07/2010

Xenofobia

De tanto ser estrangeiro em terras estranhas,
Não consigo nutrir rivalidades por outros povos.
Nem no futebol.
Eu os vejo mais próximos do que minha própria gente.

Mas já sofri na pele esse ódio local.
E tive dificuldades para ser aceito como igual.
Precisei provar meu valor,
Sem descaracterizar o que sou.
Não sei se consegui,
Pois a xenofobia é intolerante
Até com a meritocracia.

O refúgio do estrangeiro acaba sendo um outro estrangeiro.
E assim se constituem os núcleos de resistência,
De lado a lado.
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Obs: Tudo seria mais fácil, se houvesse receptividade.

19/07/2010

O intelectual e sua condição econômica

Tenho tantas idéias na cabeça
E nenhum dinheiro no bolso.
E não tenho idéia de como conseguí-lo.
Não sei se as idéias vão sair de lá.
Sinceramente, se eu tivesse o dinheiro,
Não sei se teria as idéias
Ou se as pretenderia ter.
Tão forte quanto o coração de um atleta,
Bate as idéias na cabeça de quem não pode executá-las.
(E isso é angustiante).
Ainda bem que os ricos não tem tempo pra pensar...
De onde tirariam tempo para ganhar dinheiro se precisassem também refletir na vida?
Por isso estamos sempre na dependência econômica deles.
E eles precisam de nós pra mitigar o sofrimento de suas almas solitárias.
(Porque viver para ganhar dinheiro é isolar-se dos outros).
Mesmo que eu não queira,
Mesmo que eu não goste,
O governo do mundo está nas mãos dos capitalistas.

[Pausa para pensar e para criar a expectativa pelo que virá depois]

Mas a minha vida quem governa sou eu:
Garçom, pendura mais essa!
Gente, é a saideira, mas vamos continuar a conversa enquanto caminhamos.
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Imagem: Jorge Castillo, Funámbulo/Tightrope Walker (Chinese ink and watercolor on paper, 50 x 35 cm, 1966)
Ah, antes que me esqueça, o artista também é um intelectual. Se bem que tem uns e outros aí...

18/07/2010

Equilibrando a vida

Pensei comigo mesmo: como faço para equilibrar as finanças sem desequilibrar/comprometer a existência?
Uma das respostas a que cheguei é que a vida (quando vivida) vale mais que qualquer organização financeira (que não dá vida, pelo contrário, tira o sono, os cabelos, a alegria, o apetite, o tempo, o humor, o dinheiro...).
Quer dizer, o melhor a fazer às vezes é jogar tudo para o alto e re-la-xar um pouco. Afinal, perder dinheiro para se permitir viver não é tão ruim quanto perder a vida tentando encontrar dinheiro.

17/07/2010

Lembranças

Encho a mala
E esqueço o que tem dentro.
Ali não cabe lembranças.

Quando chego vejo o quanto faltou
E o que sobrou.
Mas não há lembranças.

Guardo a mala vazia
E penso em um dia voltar.
Agora cheio de lembranças.

Se não houver mais o que colocar na mala,
Ou se não houver mais mala,
Levo só as lembranças.

13/07/2010

Interrogações sobre consumo e política

Vamos às ruas?
Quem sabe?
Vamos às compras?
Quem pode?
Até onde a política impede o consumo?
O consumo estimula a política?
Há verdade na política?
E no consumo?
Quanto dura a satisfação do consumo?
Até que ponto a política transforma?
E essa constatação da insuficiência de ambos deve nos levar à apatia e ao consumismo?
Vamos receber as bombas caindo em nossas cabeças de braços dados com os ícones do consumo?
Isso é política?
Podemos protestar para consumir mais?
Podemos consumir política?
Nada refreia o consumo?
Nada torna a política mais atraente?
O mundo global é um mundo sem ética?
E a sociedade de consumo também?