03/09/2010

Diferenças e semelhanças sem fim (versão editada)

Não tenho a sua beleza,
Nem a sua clareza.
(Sou dúbio)
Não tenho o seu talento,
Nem o seu tormento.
(Sou resolvido)
Não tenho vergonha na cara,
Nem medo da vara.
(Sou abusado)
Não tenho a sua idade,
Nem a sua liberdade.
(Sou preso)
Não tenho a sua lida,
Nem a sua vida.
(Sou morto)
Não tenho nada,
Nem você.
(Somos iguais)

Não tenho você comigo,
Nem você a mim.
Eis a nossa igualdade!
Essa é minha felicidade.
(Somos infelizes)

Mas, no entanto,
Apesar de tanto desencontro,
Nos encontramos aqui,
No fundo do ser,
Numa sala secreta em que não se pode ver.
Apesar de ninguém saber,
Mesmo sem querer.
E vivemos um sonho bom;
E sonhamos uma vida boa.
E se me disserem pra acordar,
Vou me negar.
Vou me levantar,
Ajeitar os óculos
E me retirar,
Bem devagar:
Com dignidade
E com coragem,
Volto a me exilar.
Entristecido,
Humilhado
E apaixonado.
Até o fim.

02/09/2010

Segurança no caos

A celeridade com que as coisas são postas confunde até os mais atentos. E de tantas dúvidas e tormentos, conseguimos caminhar seguros.

01/09/2010

Vamos à luta?

Queria falar com você.
Mas nem sempre a gente se vê.
ME diz onde te acho
Ou como me afasto.
Precisamos nos encontrar,
Mesmo sem querer,
Pra gente conversar,
Pra gente se entender.
(Ou se desentender).
Pra falar da liberdade,
Da política,
E da instabilidade.
Pra falar à vontade,
Até a boca desejar.


Vamos conversar
E deixar a conversa pra lá.
Quando a gente conversa
A gente se acerta.
Vamos combinar o levante
Numa cena instigante:
Pode ser num café
Ou mesmo num cabaré.
Vamos sonhar com a liberdade
Enquanto desfrutamos.


A insanidade da guerra
Está na obrigação de matar,
Em usarmos as mesmas armas.
Quero uma guerra diferente,
Uma guerra à frente,
Com rosas na mão.
Posso até ser preso,
Mas me recuso a prender!
Temos o direito à resistência,
Mas não à penitência.
Respeito sua liberdade
E a quero assim.
Também quero ser livre
Para ir até o fim.
Se você quiser,
Pode se juntar a mim.
Essa já é a luta.

Vamos à luta?
Ou prefere um cineminha?
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As dúvidas permanecem, viu? Sem dúvida não há conhecimento.

31/08/2010

Controle social total

Chego em casa desorientado,
Parece até que fui esmurrado.
Deito pra descansar e não consigo.
Levanto pra trabalhar e leio um livro.
Jogado no sofá,
Ouço Crass.
E penso na falta de liberdade
Que há na sociedade.
O controle é intenso
E o temor, imenso.
Eu me sinto um anarquista
Numa sociedade panoptista.
No fim do dia,
Parafraseando Marx,
Tudo vira poesia.
E que venha logo outro dia
De mais-valia.
===========================>WW
Imagem: Jean-Michel Basquiat, Untitled (1981).

30/08/2010

Gente é ingrediente


Cada comida preparada
É uma mistura danada.

E se olharmos pra cada ingrediente,
Parece unidade, imediatamente.
Mas se há qualidades de ingredientes,
Cultivados em solos diferentes,
É porque tal explicação não é suficiente.

Se há mistura é porque somos ingrediente.
E quem não se mistura,
É porque se acha pura,
Ou porque não é gente.

29/08/2010

Empregabilidade ou empregabilismo?

Algumas noções são criadas sem nenhuma noção da realidade. E, por isso, são noções, e não conceitos. A noção de empregabilidade é um desses: é a capacidade do trabalhador aperfeiçoar-se, oportunizar-se, para encontrar uma boa colocação no mercado de trabalho ou manter-se empregado. A noção sem-noção de empregabilidade coloca no trabalhador a responsabilidade por sua condição de empregado ou desempregado, como se não houvessem fatores econômicos (externos à vontade do trabalhador) provocando o desemprego. É a vítima assumindo a "culpa" pelo mal que sofreu (desemprego).
Se essa moda pega, daqui a pouco teremos noções ainda mais equivocadas como, furtabilidade, sequestrabilidade, estuprabilidade e até homicidabilidade. Como o sufixo "ismo" costuma indicar a existência de ideologias, seria melhor falar em empregabilismo, em vez de empregabilidade. E pior é que tem gente que leva a sério. Dá-lhe Marx!

28/08/2010

Códigos e sussurros

Essa é uma história (quase) real da época da ditadura. Havia uma intensa perseguição aos intelectuais e guerrilheiros naquele contexto. Era uma guerra insana, como toda guerra. O panóptico era tão enlouquecido que olhava-se constantemente sobre os ombros e comunicava-se aos sussuros ou em códigos. Qualquer um era um inimigo em potencial. Quando precisavam se comunicar, era um problema, uma piração.
Dois revolucionários se encontraram e precisavam descobrir se estavam esperando um ao outro. Afinal, receberam ordens - por um bilhete - de ir até uma instituição de ensino tratar um ataque. Lá estavam no horário combinado. Um deveria "achar a mulher-maravilha". E a tal mulher, "procurar o professor-sonhador". Mas que procura mais difícil, já que ser professor é sempre ser sonhador e mulher maravilha, só existe no gibi. Se entre-olharam e não se encontraram. Contiuaram procurando. E não queriam acreditar no que viam: eles se encontraram, mas duvidaram. Afinal, a mulher era maravilhosa demais. E ele, sonhador demais. Impossível!
Começaram a conversar para decifrar se era quem esperavam. Descobriram suas afinidades: admiravam as artes, a literatura e o cinema. Gostavam também da crítica. Conversaram tão prolongadamente que esqueceram da missão. De repente, ela lembrou do bilhete recebido e perguntou: "Gosta de poesia?" (Porque não há sonhador que resista a uma poesia). Ele disse, "gosto mas não as leio, prefiro escrevê-las".
Ela logo percebeu que encontrara quem procurava. Olhou por cima dos ombros e afastou-se em silêncio com uma expressão séria e um ar de surpresa. Tirou um caderno da bolsa, escreveu alguma coisa e rasgou um pedaço do papel. Caminhou, ainda em silêncio, em direção ao cara (que a essa altura já havia entendido tudo) e entregou o pedaço de papel dobrado. Eles se despediram com um olhar de até logo e seguiram seus próprios caminhos. Caminhando atônito em meio à multidão ele tirou o bilhete amassado do bolso, desdobrou-o cuidadosamente e, esboçando um sorriso, leu o que estava escrito: "Me segurei para não te dar um abraço!"
Descobriram que estavam do mesmo lado. Daquele dia em diante a guerra se intensificou. O que aconteceu com eles depois não interessa mais do que o que aconteceu até ali. Mas, se quiser, você pode escolher/escrever um final.
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Como diria Nietzsche, a vida é feita de bons e maus encontros. Esse foi um bom encontro! Até o nosso próximo encontro!

27/08/2010

Contraditória mente

Contraditoriamente pensa pra escolher,
Mas escolhe sem pensar.
Segue o coração,
E alguma outra emoção.

Contraditoriamente vê o que deseja
E deseja o que não vê.
Sofre por querer,
Mas com medo de errar.

Contraditoriamente abraça o que quer
E quer o que não pode abraçar.
Sabe que o abraço aproxima os corações
E algumas outras emoções.

Contraditoriamente pede o que não quer
E quer o que não pede.
E arca com as consequências
Das escolhas que não fez mas queria ter feito.

Contraditoriamente consegue ser diferente
Num mar de iguais.
Mas essa diferença,
Não o difere dos demais.
Afinal, somos todos iguais!

Contraditória mente o tempo todo:
A luta da responsabilidade com a vontade.
Cotraditória mente.
Contraditória verdade.

26/08/2010

Não sou

Não sou o Cristo,
Ele é mais humano.
Não sou o Chico,
Ele é mais bonito.
Não sou o Che,
Embora quisesse ser.
Não sou o Lula,
Nem o Juca,
Nem o Elias,
Nem o Kierkegaard,
Nem o Lutero,
Nem o Botero,
Nem o Martin,
Nem o Penn,
Nem o Rainha,
Nem o Gonzaguinha,
O Sérgio,
O Zico,
O Tito,
O Afonso,
O Francisco,
O Basquiat,
O Lima,
A Elisa,
A Amélia,
A Esméria...
Não sou nenhum deles
E nenhum de tantos outros
Que poderia mencionar.
Mas trago aqui,
Misteriosamente,
Cada um deles,
E de tantos outros
Que poderia mencionar,
E que não o faço,
Por medo de falhar.
Sei quem não sou,
Quem não fui,
Nem serei.
Mas isso não me impede de sonhar.
E me vejo discursando,
Cantando,
Brigando,
Pintando,
Encenando
E ensinando.
E por culpa de cada um deles,
E graças a cada um deles,
E de tantos outros
Que poderia mencionar,
Vivo como se fosse único.
Mas sei com quantos encontros,
E tantos desencontros,
Se faz uma vida;
O quanto doeu
Pra chegar até aqui.
Onde mesmo?

25/08/2010

Castração

Ajuda-me com a censura,
A minha e a dos outros;
A repressão,
Que nem sempre é agressão;
A responsabilidade,
Que às vezes gera passividade;
O medo.
Variações do mesmo "tema!":
Castração.