23/09/2010

Está tudo fora de lugar!

Está tudo fora de lugar!
Se é que as coisas tem lugar.
Eu mesmo desconfio de estar.
E se você pensa em ficar,
Coloca outro em meu lugar.
Porque não pretendo continuar.

Quero achar um lugar
Onde possa descansar:
Deitar a cabeça e esparramar o corpo suado.
Sentir o cheiro estranho sem o chamar de fedor.
Quero um lugar onde o limite seja o cansaço,
E a alegria esteja no dia-dia.
Sem hipocrisia,
Nem mordomia.
Quero um lugar onde não haja ninguém.
Onde possa encontrar alguém.
Alguém que também não se encontre em algum lugar.
Alguém que não se encontra em qualquer lugar.
E que se encontre a caminhar.
(Ou pedalar)
Mesmo sem saber se vai chegar.

Está tudo fora de lugar!
Se é que algum dia já houve algo no lugar.
Fui!

20/09/2010

Desigualdade social

Queria escrever algumas linhas sobre a desigualdade social de forma leve, introdutória e didática. Meu interesse maior é diminuir as confusões que se fazem sobre esse tema, militando pelo conhecimento como meio de reconhecimento e enfrentamento da realidade.
A primeira coisa que preciso dizer é que ao falar de desigualdade social, não se está pretendendo, a contrario sensu, buscar uma igualdade material ou mesmo ontológica, o que não se faria sem uma força coatora externa (autoritária ou totalitária). O objetivo é chegar a uma igualdade formal ou igualdade de tratamento (que efetivamente todos sejam tratados como iguais pelo poder público, sem distinção de qualquer ordem), uma igualdade de oportunidade, que é democrático. Aliás, a desigualdade social é uma barreira real para a efetivação da democracia.
O conceito de desigualdade social é relacional, porque relaciona riqueza e pobreza. Desigualdade social não é o mesmo que pobreza. Pobreza é desprovimento material, escassez de recursos econômicos. Já desigualdade social é uma medida da distância entre ricos e pobres numa sociedade. A desigualdade social é medida por índices (que são uma composição de variáveis explicativas), do qual o índice mais conhecido é o Índice de Gini. Este índice varia de zero a um. Quanto mais próximo de zero, menos desigual é uma sociedade; quanto mais próximo de um, mais desigual. Não há sociedade com índice zero de desigualdade (sem desigualdade) nem com índice um (desigualdade máxima). As sociedades menos desiguais ficam em torno de 0,2 e 0,3 (sociedades escandinavas); as mais desiguais, em torno de 0,7 e 0,8. O Brasil fica na casa de 0,6 e é considerado um dos países mais desiguais do mundo. Importante falar da desigualdade como medida do abismo social entre ricos e pobres porque as análises de desigualdade são eminentemente análises quantitativas.
Outra distinção que precisa ser feita é entre desigualdade e diferença social. A desigualdade social é um problema social e já comecei a explicar acima. Diferença social é um conceito que está vinculado à idéia de diversidade cultural, e é algo desejável porque é um dos patamares da democracia. Portanto, confundir o conceito de desigualdade com o de diferença social é perverso porque tomamos algo ruim (desigualdade) por algo bom (diversidade ou diferença). Nem sempre a desigualdade social foi vista como um problema social. A desigualdade se torna um problema social no contexto da modernidade. Mas os liberais não tiveram a desigualdade como um problema em si, sendo seguidos pelos funcionalistas (com algumas poucas alterações) nessa visão sobre a desigualdade.
Há indicadores de desigualdade social, que como o nome já diz, indica a probabilidade de haver desigualdade social numa dada sociedade. Entre os indicadores mais conhecidos podemos citar: mobilidade social (dinâmica de ascensão e descenso de uma sociedade), mortalidade (tipos de mortes), morbidade (tipos de doenças), segregação espacial (espaços para ricos e pobres), diferenças regionais (distribuição da riqueza em diferentes regiões de um país) etc.
Assim como há indicadores de desigualdade, há tipos de desigualdades. A desigualdade social clássica é a desigualdade econômica, que Marx chamava de iniquidade social, e da qual nos restringimos a falar até agora. Mas há outros tipos: desigualdade racial (desigualdade entre as diferentes etnias/raças numa sociedade), desigualdade de gêneros, desigualdade de oportunidades (análise da distribuição de educação formal nos diferentes estratos sociais) etc. Os diferentes tipos de desigualdades podem ser analisados em conjunto. Por exemplo, pode-se analisar as relações entre desigualdades econômicas e desigualdades raciais; entre desigualdades de gêneros e desigualdades raciais etc. Mas vou falar sobre isso em outra ocasião. Até lá.

19/09/2010

Só sei ser com você (dando razão a Durkheim)

Só, não sei ser.
Não sem você.
Só não sei se...
Só você sabe.
Só não, sabe?
Sei ser com você.
Como você,
Só você!
Só eu e você.
Sei ser o que não sei que sou.
Com você.
E você só sabe ser você,
Sem saber que sabe,
Sem saber que sei,
Sem saber que só,
Não sei ser.

E saber ser só,
Só sem você.
Só se você...
Só se...
Deixa pra lá,
Melhor não pensar;
Melhor não dizer.
Eu precisava quebrar a forma [a fôrma] para ser feliz. Porque a estrutura que sustenta também constrange, oprime. E às vezes é preciso ir longe para valorizar a proximidade; sentir a dureza da solidão para avaliar a relação. Mas pode ser que não haja tempo de voltar.

Só.
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Reflexão poética alinhavada há mais de um ano, após assistir ao belíssimo filme Na Natureza Selvagem, e publicada só agora. A personagem quis voltar, ele ia voltar, mas... Era tarde demais. Restou a foto na máquina. Só. Todo o resto é poesia.

17/09/2010

Golpe do baú

Tô de olho na sua renda,
E vejo ela desaparecer.
Penso em aplicar o quanto antes,
Antes de tudo acabar,
Antes de você se cansar:
Investimentos na poupança, fundos, ações...
E outras aplicações.
Tô de olho na sua renda,
Ela faz meu capital crescer.
E se você acha que estou de putaria
É porque não entende nada de economia.
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Embora a economia às vezes pareça uma grande sacanagem.

16/09/2010

Máscaras e rótulos

Essa visão que você tem de mim não é estranha. Outras pessoas também tiveram. Outras tem. (A ingenuidade não está só em você). Mas as dificuldades da vida me ensinaram a não confiar nas máscaras: nem nas minhas nem nas atribuídas. Sou cauteloso comigo mesmo. Mas confio em você. E se você me vê assim, guardo sua consideração na minha pasta azul. E continuo a viver. Só. Sem culpa nem temor. Não há nada que substitua uma caminhada na praia, um filme despretensioso no cinema ou um bate-papo descontraído sobre idéias e artes. Mas em nada disso dispenso sua companhia. Um bom sociólogo não consegue viver só. Nem eu. Nos rótulos me interessam apenas as datas de validade. (Embora às vezes esqueça de observá-las e passe mal). Nem a indicação da origem me desestimula de experimentar. Pois o melhor vinho é aquele que a gente gosta. E se a gente não gosta, não gosta mesmo. A gente se afasta. Só Bourdieu discute gosto. Eu não, prefiro discutir idéias, possibilidades, vontades e dramas. E você.
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Esse rodapé é para explicar que esse post foi escrito para uma reflexão sobre as críticas classificatórias que tenho recebido de alguns alunos, que tentam me classificar para melhor me entender. Fujo da aceitação dos rótulos, dos títulos, dos enquadramentos, porque tendo a considerá-los castradores, camisas de força. Eles me impedem de tentar ser outra coisa, de mudar. Gosto de classificações mais gerais: sou gente, sou esforçado, sou poeta. E não faria nada disso sem paixão.

15/09/2010

Conflito e reprodução de classes

Os pais querem seus filhos convivendo com os filhos das mesmas classes sociais a que pertencem ou de classes imediatamente superiores, por uma questão de segurança, para reduzir os riscos de dilapidação do patrimônio familiar com a contrução de um "conhecimento" aventureiro ou radical e para executar um projeto de ascensão social.
A escola aparece, assim, como uma instituição conservacionista, que seleciona as classes por poder aquisitivo (os que podem ou não pagar os valores cobrados para inserir seus filhos num processo de socialização de classes) e que as reproduzem no acesso aos espaços de poder da sociedade, mantendo as desigualdades sociais.
A incorporação do modo de comportamento (habitus) típico das classes acontece num longo processo de violência simbólica, onde a escola adestra as crianças a comportarem-se como esperado pelas classes sociais nas quais estão inseridos. Isso significa que quando uma família não tem recursos financeiros suficientes para arcar com as despesas das melhores escolas particulares e faz das tripas coração pra isso, está tentando realizar um projeto de ascensão social geracional. Quer dizer, quando uma família de classe média paga por uma escola de classe alta para seus filhos (mesmo que a mensalidade seja incompatível com sua própria capacidade econômica), o que se quer é que a geração dos filhos tenha uma "sorte" melhor do que a dos pais (a sorte dos ricos numa sociedade desigual).  Como dinheiro não tem cheiro, as escolas particulares aceitam qualquer criança (desde que os pais paguem corretamente) com a incumbência de forjá-las para assumir um pensamento e uma postura típicas da expectativa comungada pelas classes sociais ali representadas naquela escola.
Alguns dos filhos das classes sociais menos favorecidas que são compulsoriamente matriculados pelos pais nas escolas frequentadas pelos ricos sofrem por não se reconhecerem nos amiguinhos, sentem-se como peixe fora do aquário. Os pais se esforçam para pagar as mensalidades, mas não conseguem suprir as demais ostentações dos coleguinha de classe (que não pertencem a mesma classe): as viagens, as roupas, o acesso à cultura e às artes etc. Isso faz com que alguns desses alunos não aguentem a pressão de conviver com as classes mais abastadas, gerando crises em casa (por exemplo, envergonhamento dos pais) ou na escola (por exemplo, isolamento ou agressividade para com os coleguinhas). Esse aluno que está fora da sua classe causa duas preocupações (que se retroalimentam) aos demais pais: 1) o risco da má influência, podendo levar seus filhos por caminhos não desejados como a do consumo de drogas e da realização de pequenos delitos; 2) o risco do filho/filha apaixonar-se por alguém sem classe que possa estar interessado no patrimônio da família. A literatura está repleto de personagens que encarnam esse amor impossível entre classes distintas.
O pior é que o medo comungado pelas classes mais abastadas não passa de um mito, de uma ignorância quanto às classes "perigosas" e suas formas de agir e pensar. As classes estão separadas de fato por um sentimento de indignadade bastante sedimentado que é construído de ambos os lados e que se reproduz no cotidiano, colocando cada um no seu devido lugar. O pobre não quer se relacionar com o rico tanto quanto o rico não quer proximidade com o pobre. E se por acaso esse bloqueio social/cultural for rompido (e a educação não faz muito para que haja esse rompimento), o direito está aí para isso (porque o direito também é uma instância de seleção de classes), para servir aos interesses das classes dominantes (mantendo o patrimônio seguro) e estabelecer a democracia dos iguais. Essa é a seleção: quem conseguir chegar até o final do processo educacional, vencerá, terá um lugar entre as classes dominantes, será um igual.
Puxa, mas que olhar pessimista da educação!! Não. Não é pessimista, é crítico. É um olhar de quem acha que o modelo educacional poderia/deveria ser outro, de quem entende que as ações afirmativas são uma saída viável para confundir a reprodução das classes e para ampliar os conflitos sociais.
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Estou falando do que sei: eu mesmo fui criado fora da minha realidade socio-econômica. Se bem que naquela época era um pouco mais democrático porque as elites frequentavam escolas públicas. Trago comigo ainda 1) o orgulho típico da classe operária (que as vezes se transforma em raiva ou mesmo em uma apatia, que também é uma forma de resistência, assim como o deboche), 2) a impaciência com rituais (dos rituais à mesa aos rituais jurídicos, passando por uma série de outros pequenos rituais, como, por exemplo, o da sedução) e 3) a fala discursada (como se estivesse liderando uma greve ou enfrentando os cães da polícia), entre outras características da classe trabalhadora. E tudo isso que se mantém em mim, pode acreditar, já não é mais original, já fora polido. Alguns dos meus antigos iguais são ainda mais rudes que eu. Como podemos transpor a linha que nos separa se estamos determinados a reproduzir os interesses de nossas classes de origem? Como transpor essa distância sem pagar o preço, sem sofrer as consequencias? Precisamos pensar e agir. Não necessariamente nessa ordem.

14/09/2010

Território

Quando revelo meus segredos,
Deixo você ocupar meu território.
E quando você aqui está,
Não pode pedir pra não entrar.
E agora que o território,
Que não é propriedade,
Já se encontra habitado,
Conquistado,
Colonizado,
Com toda a violência que possa soar;
Com toda a corpulência em que se possa suar;
Com toda a inteligência que se possa imaginar,
Não se pode mais refrear.
Esse "meu" território
É espaço de liberdade,
De liberalidade
E libertinagem.
Esse território não é meu:
Nunca quis território fixo.
Mas se você insitir que é meu,
Insisto que seja também seu.
Que seja nosso lugar vazio,
Sem autoridades,
Sem coações.
Espaço de encontros
E esperança.
Território do diálogo
E do amor.

13/09/2010

É muita crise para pouco whisky

Queria que você estivesse aqui.
Queria atravessar esse oceano que nos separa,
E me juntar a você,
E me abraçar a você:
Sem amarras,
Sem nada.
Em silêncio.
Falando tudo pelo olhar.
Como sempre fizemos.
Juntos.
Sós.
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Jack me faz sonhar;
Johnny me faz pensar.
Mas sempre prefiro você!

12/09/2010

Decisões são sempre difíceis

Decisões são sempre difíceis.
Às vezes decidimos com coragem,
Às vezes na malandragem,
Ou na sacanagem.
A coragem é um medo da subordinação;
A covardia é uma força para manutenção.
E quem disser que não,
Pode me explicar como o forte mantém a relação;
E como o fraco faz a revolução.

Eu que não sou forte,
Vou trabalhando de forma discreta,
E solitária,
Pelo fim da história:
Vou me preparando para o dia do confronto final.
Vou juntando a lenha caída com a mão,
As palavras espalhadas no chão,
Pra fazer uma fogueira que queime as intenções,
E que purifique os corações.

Se enganei a muitos,
Foi por necessidade.
Por medo da repressão
E da castração.
Nunca quis ser o centro das atenções,
E talvez isso tenha me levado pra longe;
Nem fazer algo da qual precisasse me obrigar para sempre,
E talvez isso tenha me levado pra longe.
O sempre sempre foi distante demais pra mim.
Mas mesmo assim,
Vivi cada momento como se não fosse ter fim.
E ninguém pode me acusar de ser relaxado,
Ninguém pode me acusar de ter recuado,
De não ter enfrentado,
E vivido.
Mesmo que temeroso.

Enfim, é o fim!
E toda lágrima que rolar
Será recolhida e contabilizada
E se tranformará em força pra continuar.
Ninguém sabe onde vai parar,
Mas sempre vale a pena recomeçar.
É o começo!

11/09/2010

A saída

Bate a cabeça na parede pra ver se acha uma saída, se acha uma fechadura. Ela está dentro de você, atrás da sua testa. Ou em algum lugar lá fora, se você permitir. Se você tem medo de fantasmas, siga aflito entre as quatro paredes. Pensando em quem pode ir aonde quer. Sofrendo por imaginar como seria bom fugir e amar a pessoa desejada. Ou simplesmente não fazer nada. Talvez você possa. Embora nem todos queiram isso pra você. Nem os vivos, nem os mortos. E quando o exterior governa, fica-se refém, perde-se a autonomia. A vida perde a graça. Mas o entorno agradece e continua seguro.
E aí, o que vai ser? Mas saiba que se encontrar uma saída, você corre o risco insuportável de ser feliz numa sociedade rude.
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Eis uma atualização possível da Alegoria da Caverna.