05/10/2010

Embriaguez e insensatez

Quando as amaras se vão,
Você vem:
Meus dedos e olhos buscam você
Sem parar,
Sem pensar.
E é chato saber que se é chato,
Mas é bom conhecer esse fato:
A loucura liberta o amor.
O auto-controle
Aprisiona você.
E quando as amarras se vão,
Você vem.
Vem de vez,
Com toda lucidez
Duma embriaguez;
Cheia de graça,
Com toda raça,
E me abraça.

Essa minha embriaguez
Revela a minha insensatez.
E vou me acabando de uma vez.
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Desculpe-me por ser assim, tão ridiculamente apaixonado por você!

03/10/2010

Entorno

O meu entorno é a minha cara: o gosto é socialmente produzido e é definido pela posição e condição de classe. Estou junto da minha classe, conformando-me ao padrão esperado de mim.
O meu entorno não é a minha cara: eu não estou no controle, já que o condicionamento social na minha classe é maior do que nas classes altas. Aqui há menos liberdade. E nem sei se há.
O meu entorno precisa ser a minha cara: se o meu entorno não fosse a minha cara, provavelmente eu não me reconheceria e nem existiria. Sou uma formação e conformação da minha classe.
A vida do lado de cá é tão dramática quanto do lado de lá. Nisso somos iguais: vamos atrás dos nossos iguais, reproduzimos os valores iguais dos nossos iguais. E somos sempre mais do mesmo. Sem dúvida. Sem perceber.
Mas há uma pequena possibilidade de vencermos a distância que nos separa. Não sem consciência. Não sem resistência. Não sem luta. É com o fim dessa distância que eu sonho. E não temo as consequências.

02/10/2010

Imagem imaginada

Não acredite em tudo que vê.
Sou uma projeção da sua cabeça.
Sou sua esquizofrenia crônica,
Produto de sua apaixonite cômica:
Uma miragem
Ou uma assombração.
Enfim, uma alucinação.
Não existo senão como um modelo idealizado.
Não sou real.
Sou uma imagem imaginada por você.
Sou um ideal inatingível,
Inalcançável,
Irreconhecível,
Impossível.
Um não-lugar.
Não porque eu seja demais;
Não porque você seja de menos.
Mas porque, como todo ideal,
Sou uma ficção.
Não existo.
Não sem você:
Você que me dá vida.
Você que me inventou.
E me realiza a cada vez que me vê.
E não sei se realizo você,
E nem sei se quero saber.
Mas sei que o modo como me vê,
Me faz viver.

Não acredite em tudo que vê.
Embora a culpa não caia sobre você.
Talvez seja um trauma na alma:
Uma carência
Ou uma ausência.
Talvez seja ingenuidade
Ou coragem.
Talvez você precise de ajuda.
(E eu também)
Talvez você precise de óculos.
Ou de ósculos.
Tenho tudo aqui.

01/10/2010

De que adianta?

Estava um tanto quanto desgostoso da vida, principalmente com a velocidade exacerbada que nosso cotidiano tem assumido ultimamente (tornando a vida em sociedade extremamente díficil para as gerações mais velhas, que não conseguem acompanhar toda essa velocidade), e lembrei-me da poesia cristã do falecido músico Janires Manso, na música Coração Azul, que transcrevo abaixo:

"Já não se vê fitas coloridas pelo ar
Trazendo a esperança
Que as crianças voltaram do espaço
Que as crianças voltaram a brincar

Já não se lê lindas poesias nos jornais
Trazendo a esperança
Que os poetas voltaram do exílio
Que os poetas voltaram a sonhar

Também de que adianta fitas coloridas pelo ar
Se as pessoas não querem mais ver
Também de que adianta lindas poesias nos jornais
Se as pessoas não querem mais ler".

Vivemos num contexto de desvalorização da vida alheia. Somos levados a ter uma auto-imagem excessivamente valorizada numa sociedade em que o sucesso tornou-se o padrão de julgamento da vida: títulos, posses, conhecimentos, belezas etc. Essa auto-imagem distorcida de si mesmo e a obsessão pelo sucesso gera uma tendência a ver no outro um oponente a ser batido, um inimigo. E o pior é que aprendemos desde cedo a lógica da competição a todo custo. Mesmo que não haja objetivos para a disputa. Deixamos de agradar ao outro com medo de sermos dominados por esse sujeito. A só competição passa a ser a finalidade comum de todos. E nesse processo, vamos embrutecendo, deixando de lado a poesia, fechando os olhos para a beleza e leveza que a vida pode ter.
A solução apresentada por Janires na música para esse esfriamento que nos consome hoje é contrária à lógica da realidade em que vivemos: olhar pra cruz de Cristo como símbolo da libertação é contrário à lógica do sucesso. A cruz é a condenação, a derrota final. Mas Janires quer mostrar a transcendência da fé, encarnada na ação humana de amar a ponto de se entregar à morte em nome desse amor. Só a fé pode produzir uma ação tão radical como essa. Fé na transcendência do vivido, da existência, fé no amor para libertação do outro. O resultado é que essa fé alivia o coração e nos transforma em crianças inocentes (mas não ingênuas) e em poetas, capazes de sonhar um outro mundo possível. Segue abaixo o restante da letra:

"Olhe pra cruz de Jesus e sentirás
O amor de quem te amou demais
E deixe ele morar no seu coração azul
E seja uma criança a brincar

Olhe pra cruz de Jesus e sentirás
O amor de quem te amou demais
E deixe ele morar no seu coração azul
E seja um poeta a sonhar".

De que adianta sonhar? Só pela fé. Como diria Gonzaguinha: "fé na vida, fé no homem, fé no que virá; nós podemos tudo, nós podemos mais".
Está faltando poetas nesse mundo; está faltando inocência infantil; está faltando fé!
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Só um detalhe para as gerações mais novas. Ouso explicar o coração azul que dá nome à canção da seguinte maneira: na década de 80 havia uma propaganda de um barbeador que era da cor azul e, na propaganda, as pessoas perguntavam umas as outras se estava tudo bem. A resposta era que estava "tudo bem; tudo azul!" A idéia era de que fazer a barba com aquele barbeador tornava a vida muito boa, muito confortável: sem cortes, sem sangue, sem dor. Como Janires é um poeta inserido em seu contexto (contextualizado), provavelmente a referência tenha sido essa. A crítica dele seria à limitação da vida boa oferecida por um barbeador, apresentando o encontro com Cristo como sinônimo de verdadeira alegria, uma alegria duravel. Essa expressão "tudo azul" é encontrada também na música de mesmo nome composta por Lulu Santos. Só não sei dizer se a música veio antes da propaganda ou o contrário.

30/09/2010

João do Amor Divino de Sant'Anna e Jesus

Essa é uma homenagem a um pobre artista brasileiro que enfrenta todo dia a dureza da vida sem deixar cair a alegria necessária para suportar. São dezenove anos de luta com a mesma rapariga, com nove bocas de crianças para dar comida. E com a confiança de quem não pode parar de lutar, e que para isso, é preciso sempre se reinventar, João subiu ao último andar de um edifício de sete andares e ameaçou se jogar. A multidão se formou lá embaixo olhando para o alto, esperando o suicida chegar. Atendendo aos gritos ávidos pela desgraça alheia, ele pulou, fazendo a alegria dessa gente inclemente e insensível que se põe a curtir o espetáculo do fim da vida como forma de entretenimento, como fuga de suas próprias realidades esmagadas. Desce João, voa sobre essas cabeças vazias, certo de que isso é estritamente necessário para a manutenção da existência (por mais contraditório que possa parecer). Os olhos atônitos e os sorrisos nos semblantes esperam o corpo se partir em mil pedaços no encontro com o chão. Lá vem ele no silêncio característico de quem já morreuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu. Quase todos os olhos se apertam e poucos vêem o desastre final afinal. Buuuuuumm! Poeira subindo e rodando por toda parte e os olhos abertos não enxergam nada por alguns segundos. A poeira vai se dissipando e os olhos atentos procuram a mancha de sangue e os órgãos esfacelados e espalhados. Mas o sangue está nos próprios olhares. No chão, apenas um corpo deitado. Mas de repente, para a surpresa de todos, João mexe a cabeça e os dedos, se apoia sobre os braços e vai se erguendo vagarosamente esboçando um sorriso nos lábios. Ninguém acredita no que vê: ele levanta totalmente, se dobra para frente e estende o braço direito num sinal de respeito ao público, que o aplaude exaustivamente. É um vitorioso, é um profissional do suícidio cotidiano dessas classes sofridas (os pobres e os artistas) numa sociedade da técnica e da insensibilidade. João guarda pra sempre os aplausos e os gritos da multidão e recolhe com as mãos as moedas redentoras de sua condição. A existência está garantida (a dele mesmo e a de seus dependentes) por pelo menos mais um dia. Até que venha outro dia de espetáculo e drama. Agora ele mergulha de cabeça na sua arte. Agora ele tira o leite da pedra dura. E vamos à luta!
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Essa breve história é contada e cantada por Gonzaguinha na música "João do Amor Divino". Dá-lhe, poeta!

29/09/2010

Não quero mais esperar

Não sei mais o que espero.
Não sei porque espero.
Não sei se espero.
Não tenho mais idade pra esperar:
Sofro daquela intolerância típica das gerações mais velhas,
Da impaciência com esses jogos de azar,
Com essa racionalidade distante.
Sou da época do carinho e da flor.
Hoje tudo é espetáculo.
Hoje não quero mais aguardar,
Nem sequer um instante.
E sei que nada será como antes.
Também não quero seguir em frente:
Quero parar agora,
Quero pular fora.
Um humanista sofre com tanta desumanidade,
Com tanta insensibilidade.
Nada hoje me compadece.
Hoje é o fim:
O ciclo não vai se fechar.

28/09/2010

Dobrado, amassado e cortado ao meio

Sou um homem dobrado.
Longitudinalmente:
De cima a baixo.
E ao revés.

Tenho tudo em dobro:
Alegria e tristeza;
Inteligência e beleza;
Responsabilidade e safadeza.
Tenho duas cabeças,
Quatro olhos
(E muitos outros sobre mim),
Quatro braços
E quatro pernas:
Sou um octopus.

E essa dobradura de mim
Me faz fininho.
E vou passando em qualquer lugar.
Sem ninguém notar.
Vou me apertando por aí.
Vão me apertando por aí.
Sem ninguém notar.

Mas corto um dobrado:
Vivo amassado.
Dividido.
Temeroso.
Carente.
Só, aguardo.
E sinto a dor da cisão.

E as dobras de mim
Se tocam assim:
Pra lá
E pra cá.
Como um sino a badalar.
E eu mesmo não badalo.
As dobras de mim se tocam simetricamente.
Aproximando o que estava distante.
Distanciando o que estava próximo.
Como um contato entre dois mundos distantes.
O mundo de cá;
E o mundo de lá.
Separados por um fosso quase intransponível
Habitado por caras feias e terrores;
Por egoísmos e odores.
Odores que não saem de mim,
Que me fazem tremer.
Que me fazem querer.

Sinto a tesoura cortando no pontilhado,
Trilhando o lugar marcado.
Com bastante cuidado.
Com muita pressão
E precisão.
Vai passando pelo dobrado
E afastando as duas metades de mim.
Mas não há sangue,
Porque é só um papel.
Um mero papel.
Mais um papel.

Levo o machado na cabeça
E me parto em dois.
E essa partida
Me faz considerar sobre o jogo,
Embora não seja um jogador.
Sobre a luta,
Embora não seja um lutador.
Sobre a lâmina,
Que rasga.
O corte,
Que sangra.
A ferida,
Que fica.

E espero a costura dos dois lados.
O melhor dos dois mundos,
Que estão separados.
Mas sei que a quelóide vai ficar.
E não sei se quero costurar.
Talvez eu queira comer as víceras que saem de mim.
E servi-las a quem quiser um pedaço de mim.
(Se é que alguém quer).
Para saborear o amargo da minh'alma;
Bem devagar, com calma.
Enquanto tudo está fresco;
Enquanto há tempo.

E depois de tudo isso,
É preciso considerar a morte.
É preciso considerar a sorte.
Que sorte a minha:
Encontrei um gato negro sob a escada!
Esse bicho vai arranhar minha estabilidade,
Vai encher a minha cara de instabilidade.
Mas amanhã será outro dia.
Será?
.....................
A tesoura e o machado são dois intrumentos cortantes. No fim das contas ambos os intrumentos produzem a divisão. Acho que prefiro a passionalidade grotesca do corte do machado ao corte racional e linear da tesoura sobre o papel. Gosto mais das feridas abertas espontaneamente, com violência e imprecisão. Penso que por trás do machado há um animal, um apaixonado, um errante como eu. Mas por trás do corte preciso da tesoura pode estar alguém que eu não sei ser: perfeito, frio ou superficial.

27/09/2010

Relação amorosa é objeto

Quero nessa postagem defender a idéia de que relação amorosa é objeto, é produto. Se, como defendi na postagem anterior, o amor é uma ação individual humana comprometida com a alegria do outro, então, a relação amorosa acaba sendo uma consequência do amor, um produto da ação de amar. E como consequência de uma ação realizada por seres humanos falhos, limitados, errantes, a relação amorosa também é frágil e está sujeita a quedas e quebras. Trata-se de um produto (objeto) frágil. Faço essa afirmação inicial para tentar responder à seguinte questão: a cama salva a relação?
Ouço constantemente das pessoas que a vida sexual de um casal responde por grande parte do sucesso ou fracasso de uma relação amorosa. Ontem mesmo um familiar me falou até em valores, embora não tenha dito a fonte desse "conhecimento": "80% da relação é sexo!" Eu discordo inteiramente. Sei que sexo é parte da ação de amar a outra pessoa e que tem um papel importante na relação, mas ele não pode ser responsável pelo sustento de uma relação amorosa por motivos óbvios: com raras exceções, o cotidiano de um casal é muito mais do que sexo. Se não fosse assim, não trabalharíamos e nem produziríamos nada. Além do mais, é impossível que esse "conhecimento" seja verdadeiro porque nos falta tempo e espaços para colocá-lo em prática. Quer dizer, precisaríamos de mais tempo e mais espaços dedicados ao prazer do que temos de fato. O sexo será tanto melhor, quanto mais intensamente os amantes dispuserem-se a amar.
A relação amorosa é o objeto produzido pelos sujeitos amantes. O objeto (o vínculo, a relação) não pode ser mais importante que os sujeitos que o produzem. O fetichismo é exatamente isso: uma reificação do sujeito e sobrevalorização do objeto. O fetiche faz parte de uma relação amorosa, mas não pode ser a base dela porque geraria uma insegurança enorme entre os amantes, já que o fetichismo está centrado no egoísmo. E aí não tenho dúvidas de que o egoísmo mata a relação amorosa aos poucos, porque gera uma insegurança emocional nos agentes (amantes), que se veem como meros objetos de realização do prazer egoístico do outro. Sem o comprometimento com a alegria do outro o amor produz um vínculo amoroso frágil, uma relação fraca.
Relação amorosa é como um objeto frágil que pode rachar. Ela deveria vir sempre acompanhada daquele adesivo vermelho onde se lê em letras maiúsculas: CUIDADO FRÁGIL. E o cuidado aqui não deve ser com a relação, mas com o outro. Sob pena de nos esforçarmos mais em salvar a relação (o objeto) que o outro (o sujeito), mantendo uma relação de fachada.
Por fim, pra responder a pergunta inicial (a cama salva a relação?) eu diria o seguinte: a probabilidade disso acontecer é mínima. Até porque precisaria ser uma cama elástica enorme, quase como a rede de proteção utilizada pelos trapezistas para salvar o objeto, que está em queda livre, de se partir. A vida é tão rápida que nem dá tempo de pensar em tecer uma rede de proteção.
É isso!

26/09/2010

Reflexão crítico-poética sobre o amor

Vivemos num tempo em que parece que alguns temas de análise vão se tornando obsoletos. Parece até que construímos um conhecimento seguro e definitivo (verdadeiro) sobre eles, alimentando o ideário do senso comum. Por exemplo, religião (que em geral é vista como o aprisionamento da fé), casamento (experiência necessária, mas que transforma a relação numa rotina sem graça), fim-do-capitalismo (o fim do socialismo real indica que o capitalismo é o melhor sistema econômico e que veio pra ficar. Será?)... Hoje quero propor o enfrentamento crítico-poético de um desses temas das quais em geral não ousamos discutir mais do que já conhecemos: o amor.
Começo fazendo uma afirmação de caráter genérico: o amor é uma tentativa de acertar. Mas acertar o que? Acertar no agrado ao outro; acertar-se com o outro. O amor é uma ação comprometida de doar-se em função de alegrar o outro, o que gera imediatamente uma relação de troca (como mostrarei mais ao final). Mas esse outro não precisa ser apenas um companheiro, namorado, amante ou parceiro. Pode ser um outro indefinido (qualquer um) ou alguém conhecido pela qual não se nutra nenhuma pretensão de intimidade ou cumplicidade, por exemplo, um amigo, um filho, um familiar, um empregado etc. O que estou propondo é uma universalização do amor para além de uma relação romântico-afetiva. Quer dizer, o amor caracterizado agora como um esforço (ação) de alegrar o outro. E alegrar pode ser aliviar as cargas, apoiar. Com essa definição ampla, podemos incluir o amor em qualquer tipo de relação que se possa estabelecer, desde as relações afetivas até as relações de trabalho, passando por uma infinidade de outros modos (infinitos) de relações entre pessoas.
A segunda afirmação geral que quero fazer é a seguinte: o amor não é a finalidade a ser alcançada numa relação (qualquer que seja ela, como dissemos acima), mas o meio para se alcançar uma finalidade. Mas que finalidade? Aí vou sugerir, ainda de modo geral, que essa finalidade seja alegria. E aqui trabalho com alegria (e não felicidade) como quem reconhece que não se pode chegar a um estado final e acabado de contentamento que seja definitivo (felicidade). O ser humano é tenso, intenso e limitado, razão pela qual estamos sempre querendo mais, superando nossos limites. O que significa que não há porto final e seguro, que estamos sempre em busca de novas experiências, novos desafios, novas conquistas. E é essa tentativa de superar etapas que nos motiva a continuar vivendo. Se eu chegasse a um estágio completo de alegria (como o termo felicidade parece indicar) eu provavelmente não teria motivos para continuar vivendo, eu deitaria e morreria abraçado com a coisa ou pessoa conquistada.
Como somos seres errantes, a manifestação dessa ação de amar pode ser realizada com muita intensidade (paixão) ou com pouca intensidade. Mas ela deve sempre, necessariamente, ter o objetivo de alegrar o outro. Fujo aqui da contraposição entre paixão e razão como quem percebe que não se pode cair na armadilha de estabelecer um olhar dicotômico sobre esses dois conceitos. Quer dizer, a paixão não é inferior à razão, nem o contrário. Em alguns momentos a paixão pode ser sentida como um aprisionamento, ou irresponsabilidade, ou mesmo exagero. Mas em outro momento a paixão pode ser a força sobre-humana de construir ou reconstruir uma relação das cinzas, do improvável, do caos. Por outro lado, a razão pode produzir um avanço seguro e constante da relação ou mesmo a burocratização, a estagnação, ou esfriamento dessa relação.
E se somos seres errantes, falhos, limitados, não podemos dar ao amor uma transcedência para além do vivido por atores sociais concretos. Quer dizer, o amor não está na relação, mas no indivíduo que assume o compromisso de agir amorosamente. Esse sujeito manifesta sua ação amorosa para com o outro, que percebe essa ação na sua prática concreta, na sua existência.
Assim, enfim, chegamos a uma definição final: o amor é uma ação individual e humana que se destina a produzir alegria no outro. E pra que uma relação amorosa se mantenha, é preciso uma reciprocidade entre os amantes. Quer dizer é preciso que as pessoas envolvidas na relação se doem de forma comprometida a conhecer os desejos e necessidades do amado, a alegra-lo. Portanto, é possível amar sem ser amado. E se isso acontecer, o melhor a fazer é pular fora. Aí deveremos enfrentar criticamente um outro problema: a honra, o orgulho próprio, a vergonha na cara. Mas essa é outra história.
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Queria mesmo desmitificar o amor, torná-lo mais humano, mais real: o amor não é finalidade, é meio; o amor não é ideal, é concreto; o amor não é externo, é interno; o amor não é sentimento, é ação; o amor não é eterno; é contextual; o amor não traz felicidade, traz alegria; o amor não é para poucos, é para todos. É pra mim. E pra você. E essa desmitificação proposta não banaliza o amor, mas o aproxima de nossa realidade, de nossa própria capacidade. E elimina o medo de amar. E de dizer que se ama a quem se ama. Não tenha medo de amar! Não tenha medo do amor!

24/09/2010

Corpos deitados no chão

Olho para o chão e ainda vejo os corpos caídos ali. E ao lado uma manchinha de café. Mas eles não estão mortos. Eles ainda gemem. E suspiram com os olhos parados. Com os olhos virados.
Embora a morte pareça breve, eles não querem se entregar. E lutam para continuar por ali. Dia após dia. Semana após semana. E ninguém sabe do que se trata, donde vem o cheiro estranho que paira no ar e os cabelos encontrados em todo lugar. Nem a tal da música francesa que toca sem parar.
O sangue já pinga e o sorriso continua parado no canto da boca. E todos percebem que há alguma coisa errada (ou certa) para acontecer. Mas ninguém sabe o quê.
E eu que não sou bobo nem nada, não quero ficar pra ver. Quero mesmo é sair daqui. Viajar para algum lugar, onde se possa descansar, cansar, pensar, conversar, passear, relaxar... Gozar. Quero sair por ai. Pode ser pra Guaçuí. Ou pra Sapucaí. E se ainda puder ir à luta, quero ir a Cuba.
Quem sabe tudo não dê certo? Quem sabe o errado não se torne em certo? Quem sabe ao certo. Quero estar sempre por perto. Mesmo quando tudo parecer incerto.
Mas se a morte, enfim, chegar... Vou deixar os corpos no mesmo lugar. Ficarão no chão, sem sepultar. Até a decomposição, afinal, tudo apagar. Isso vai demorar. Enquanto isso, vamos comer uma picanha ao ponto em algum lugar e depois sair pra dançar?
...
Desenho feito por Picasso. Gênio!