16/10/2010

Razão dormente

Se não fosse sua razão,
Eu perderia a minha.
Se é que já não perdi.
Mas em perdendo a razão,
Não se perde mais do que se ganha.
O elogio da cautela é para manutenção.
E só há mudança na rebelião.
Mas pra mudar é preciso querer.
É preciso enfrentar
E arcar.
Mesmo sem razão.

Não há mudança sem dor.
Mas dessa dor nascerá uma flor.
Uma só:
Suficiente,
Inteira,
Única.
Brotando do solo árido,
Como um milagre.
Até ser árvore,
Floresta
E pó.

Tudo acaba um dia.
Até o dia.
Nos tempos de hoje,
A razão já era!
Descartes morreu!
E isso também é racional.
Sim, "O sono da razão produz monstros".
Mas quem tem medo de monstros?
Não há razão razoável para arrazoar sobre o fim.
Só o medo paralizante que a razão produz.
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Imagem da gravura clássica do espanhol Goya.

15/10/2010

Uma poesia universal

Queria uma poesia universal. Então pensei que poderia falar do amor. Mas aí lembrei que há sociedades em que não há amor. Não esse nosso amor romântico.
Então pensei numa forma de compensação: na possibilidade de escrever sobre o perdão. Mas aí lembrei que nem sempre se concede o perdão. E nem sempre se recebe o perdão.
Resolvi então escrever sobre a dor. Não há sociedade que não saiba o que é uma perda dolorosa, uma angústia. Então, queria que fosse um texto simples: com uma simplicidade rasa o suficiente para deixar a dor ser sentida intensamente. E achava que quanto menos palavras utilizasse, mais universal seria. Pensei no seguinte:
Soledad es muerte.
Einsamkeit ist der Tod.
Loneliness is death.
La solitude est la mort.
La solitudine è la morte.
孤独は死です。

Enfim, muitas maneiras de escrever assim, sem rima, uma mesma verdade universal:
Solidão é morte.


Só.

14/10/2010

Ridículo

Talvez esteja sendo ridículo.
Talvez seja.
Mas quem entende a dor da saudade
E pode suprir essa lacuna que está aqui,
Devorando a vontade de seguir,
Sem ser ridículo?
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"Quando você fica mais velho, o gosto das pessoas por desafios começa a minguar. (...) As pessoas com 30 anos parecem bem menos dispostas a arregaçarem as mangas e se envolverem em algo ridículo. Para mim, envolver-se em algo ridículo é a vida, porque a vida é ridícula". (Ian MacKaye, um dos grandes baluartes da música punk dos anos 70 e 80, com as bandas Minor Threat e Fugazi, em entrevista à revista Punk Planet de maio/junho de 1999). Amém!

13/10/2010

Arrogância

Sempre achei que não deveria buscar riquezas.
Nunca tive posses.
Sempre achei que deveria ser reconhecido e recompensado por ser quem sou.
Não sei o que é sucesso.

Sempre achei que os amigos deveriam me procurar.
Não tenho muitos amigos.
Sempre achei que não deveria correr atrás das mulheres.
Não tive muitas.

Sempre achei que não deveria pedir ajuda.
Não ajudei muito.
Sempre achei que não deveria deixar de ser o que quisesse.
Não sei quem sou.

Hoje aprendi que tudo isso é arrogância.
E tenho dificuldade de pensar e agir de modo diferente.
Eis a questão sobre esse meu problema:
Voluntarismo ou determinismo?
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Faço da segunda minha primeira opção.

12/10/2010

Angústia

Tenho pensado muito e escrito pouco nesses últimos dias. Na verdade nem tenho escrito pouco, tenho publicado pouco, já que considero escrever um ato burocrático: colocar no papel (ou no computador) o que se escreve primeiro lá dentro, na alma e na memória. E como não consigo parar de viver, também não consigo parar de escrever. Aproveito as experiências para refletir. Sempre fui assim.
Tenho umas quatro ou cinco postagens paradas. Para o desenvolvimento de algumas delas, falta-me coragem. Em outras, vontade. No meio da escrita de um texto abandono tudo, numa fuga do auto-enfrentamento que a escrita provoca em quem escreve. Mas não paro de pensar. É sempre assim.
Tenho uma pilha de CDs num pequeno armário da sala. Ligo o som querendo relaxar. Mas aí ouço músicas francesas e sou torturado pelo pensamento que não me abandona, e nem quero; ouço Gonzaguinha e a vida se intensifica, o que desejo; ouço Cartola e dissipo a crise, acontece. É a arte provocando a vida. E o texto vai se estruturando em algum lugar. Acho que sempre fui assim.
Tenho uma pilha de livros ao lado da cama e uma outra série de livros espalhados por lugares estratégicos da casa. Estou lendo uns cinco ou seis ao mesmo tempo, em momentos diferentes de cada dia. E me deleito em todos os eles, com cada um deles: Florestan, Melman, Wacquant, Adorno, Elias, Giddens... E ainda quero ler um Graciliano, um Kierkegaard, um Saramago e um Joyce, entre outros. E cada leitura realizada ou desejada desconstrói parte dos meus argumentos e me corrói. Acho que estou ficando doido. Talvez tenha sido sempre assim.
Não tenho nada que possa chamar de meu. Se precisasse sair por aí, carregaria apenas uma pequena mochila com poucos objetos pessoais. E muitas memórias e expectativas. Caminharia buscando me encontrar em algum lugar. Nem sempre fui assim. E essa liberdade assusta, aprisiona e liberta.
Escrevi esses parágrafos anteriores para mostrar que quando enfrento um dilema, enfrento; quando tenho uma esperança, espero; quando sinto medo, tremo; e quando vejo o fim, vejo um começo. E me orgulho de ser um eu conformado (pela classe) e inconformado (com a classe) ao mesmo tempo, construído e desconstrúido constantemente. Sempre em busca de uma maior autonomia e alegria. De uma outra poesia. Em busca de um novo amor.
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Tenho pensado muito e feito pouco. Ou feito pouco e pensado pouco. E se não tenho pensado é por fuga das consequências implicadas na ação. E se não tenho feito é porque penso demais.

10/10/2010

Cabana

Construí uma cabana na praia.
Ela é toda de bambu.

Lá não tem eletricidade,
Não tem água encanada,
Nem privada.

Lá não tem endereço,
Não tem fogão,
Nem televisão.

Lá não pega celular,
Não tem geladeira,
Nem frigideira.

Lá não tem fechadura,
Não tem cama,
Nem fama.

Só não digo onde é pra não lotar,
Pra algum conhecido não me ligar
Desejando ir pra lá;
Pra não atrapalhar
Meu descanso à beira-mar.

Mas essa cabana só tem um problema,
Que é o meu maior dilema,
Não tem você.

Por isso, já não sei se vou.
Pois sem você, não sou.
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Enquanto escrevia essa poesia, meu filho Tito, que tem um ano e oito meses, entrou no escritório com seu irmão Pedro e apertou o teclado aleatoriamente. Resolvi manter na poesia a "sujeira" que ele produziu, para que no futuro ele saiba que viver é também conviver, que eu trabalhava enquanto eles circulavam em torno de mim. Que o erro faz parte da vida. E que nem sempre é o pior que pode acontecer. Pior que errar é não tentar. Tentei, tento e tentarei sempre acertar. Mas errei, erro e errarei mais do que gostaria. E estou muito feliz com essa minha condição errante, imperfeita, humana. Vamos em frente com força e sensibilidade. Sempre. Amo você!

09/10/2010

O melhor e o pior de mim

Você só tem o melhor de mim:
Minha angústia sem fim;
Minha barba por fazer;
Minha mania de escrever;
Minha dificuldade com temperos;
Minha casa cheia de filhos;
Minha flatulência pós-feijoada;
Minha visão embaçada...

Você só tem o melhor de mim:
Meu olhar pra dentro de si;
Meu bruxismo noturno;
Meu braço pesado sobre o corpo deitado;
Meu hábito de pensar;
Meu desejo de enrroscar;
Meu modo orgulhoso e arrogante de ser;
Meu medo incessante de ter...

Mas queria que você conhecesse também o pior de mim.
Que você conhecesse também o pior de mim.
Conhecesse também o pior de mim.
O pior de mim:
Mim.

Desfrutar é mais difícil que experimentar;
Amar é mais complicado que transar;
Conviver é mais doloroso que viver;
Refletir é mais trabalhoso que agir;
Ouvir é mais cansativo que falar;
Cada dia é mais duro sem você.
E como não me dedico a tarefas fáceis,
Quero tudo isso e mais.
Mais intensamente,
Você.

Mas não quero enganar você:
Será sempre difícil e possível.
Mas estou a fim
De enfrentar a morte;
De arriscar a sorte.
Nada já não é mais igual.
Nem eu, nem você.
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Por antítese também se aprende.
Sou a sua antítese,
O seu contrário.
Contra tudo e todos.
Menos você.
E a vida vai voltar ao normal.
Um normal excepcionalmente agitado e dinâmico:
Caótico.
Anormal.

08/10/2010

É proibido desejar

O meu gosto está na noite.
E se gosto, tem açoite.

07/10/2010

Linha de chegada e premiação

Tentei tanto que tanto faz.
Perdi tanto que tento esquecer.
Mas as derrotas são mais inesquecíveis que as vitórias.
E venci.
Venci tantas etapas
E levei tantos tapas,
Que não quero mais correr,
Não quero mais competir.
Quero só descansar
E gozar.
Com liberdade
E responsabilidade.
Com você.
Esse é meu prêmio.

06/10/2010

Germes, fungos e bactérias

Milhões de germes, fungos e bactérias se encontram no canal.
Isso gera conflito:
O pau come!
E minha cabeça dói.
Quem disse que somos um?