22/10/2010

Tudo ou nada

Se há alguém que atrapalha meu trabalho,
É você.
Se há alguém que me torna criativo e estimula meu trabalho,
É você.
Você é tudo.
Você é nada.
Ser tudo ou nada
Depende sempre de você.
Se é que existe liberdade!

21/10/2010

Sofrer e fazer sofrer

Sofremos na alma o que produzimos no outro.
Produzimos no outro o que sofremos na alma.
Recíproca produção,
Sem nenhuma opção.
E quando a alma sofre,
O corpo se recente.

Ah, e o(s) outro(s) também.
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Me at 10 (from family suite), gravura da artista inglesa Tracey Emin, que retrata o corpo de forma dessacralizada.

20/10/2010

Lance

Esse é o Lance.
Um vencedor:
Venceu corridas;
Venceu na vida;
Venceu o câncer
Venceu a morte.
E voltou.
E se reencontrou.
Esse é o Lance!

Também já fui assim,
Também venci,
Também voltei.
E me reencontrei.
Também tenho esse lance dentro de mim.
Sempre foi assim:
Meu lance é total, integral.
E vivo esse lance como se não fosse ter fim.
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Um lance pode ser só um lance,
Mais um lance.
Ou pode ser o lance final,
Impondo o fim do jogo afinal.
Como caracterizar esse lance?
O que esperar desse lance?

19/10/2010

Perda de tempo

Desde muito novo tive relógios. Desde aquele reloginho clássico do Mickey, em que os ponteiros são seus braços, até relógios digitais à prova d'água. Nem sei se gostava de relógios, mas sempre os tive comigo. No dia 27 de agosto de 1992 fui assaltado junto com mais dois amigos quando ia para a escola. Roubaram nossos relógios. Desde esse dia o tempo parou pra mim. Fiquei doze anos sem comprar nem usar relógios. Quando comecei a trabalhar ganhei um relógio de minha mãe. Usava-o para controlar o tempo das aulas. Mas confesso que nunca usava o relógio o tempo todo. Dezoito anos após o assalto que sofri, ganhei outro relógio, mas continuo com o mesmo costume de tirar o relógio quando chego em casa. Estive pensando sobre essa minha indisposição com as horas e percebo que esse é um problema comum nos dias de hoje: num momento em que tempo é dinheiro, os ponteiros do relógio se tornam algozes da liberdade e da vida. Mas no meu caso, há ainda outros agravantes: como sou filho único, nunca contabilizei muito o tempo, sempre tive o tempo a meu dispor; e pra piorar, quando tive uma doença grave o tempo parou de vez, parecia que vivia o mesmo dia todo dia, com os mesmos rituais de tratamento e pouca expectativa de ver o futuro chegar. Hoje sei que o tempo passa para todos e que pretende meu fim também. Agora sei valorizar cada segundo e quero jogá-los fora um a um. Continuo sem usar relógios fora do ambiente de trabalho e agora quero desperdiçar todo tempo que não tenho. Quero deitar no chão pra ouvir música, ler um livro ou pensar na vida. Sem pressa. Sem fim.

18/10/2010

Insatisfação e perda

Temos duas mãos,
Mas escrevemos com uma só.
Temos duas pernas,
Mas chutamos com uma só.
Temos dois olhos,
Mas preferimos não enxergar.
Essa é nossa completude incompleta:
Temos tudo e queremos menos;
Temos nada e queremos mais.
Valoramos o que não temos;
Desvalorizamos o que não temos.
Qual o valor da inteligência?
Qual o valor da companhia?
Do corpo?
Do abraço?
Do beijo?
Do outro?
Desse outro almejado,
Esperado,
Desejado,
Conquistado e...
Desvalorizado,
Abandonado,
Coisificado,
Tornado mobília,
Patrimônio,
Propriedade particular.
Perdido.
Perdido em alguma curva,
Em alguma mudança.
Mas é sempre possível encontrar um Outro.
Mesmo que no mesmo.
Se houver tempo.

17/10/2010

Abismo

Um pai levou seu filho para conhecer o mundo. Apresentou-lhe tudo, cada detalhe, e explicou o que eram as coisas. Depois de caminhar dois dias inteiros, com apenas pequenas paradas pra comer e descansar, chegaram a um abismo profundo. O filho imediatamente perguntou o que era, ao que o pai respondeu que era o fim. O filho, incucado com a resposta evasiva do pai, insistiu:
- "Mas o que é o fim?"
O pai respirou fundo temendo não conseguir responder a pergunta tão difícil, dobrou-se na frente do filho e disse olhando nos olhos dele:
- "O fim é o final de tudo, meu filho. É o ponto de chegada da existência humana, é quando tudo acaba. É importante que você se mantenha distante daqui para que viva seguro".
O filho acatou a resposta do pai, mas nunca se satisfez com ela. Anos mais tarde, depois que o pai havia morrido, aquele filho, agora adulto, voltou aquele abismo, levantou a cabeça e gritou bem alto:
- "Pai, você está aqui?"
Recebeu a seguinte resposta em forma de eco:
- "Aquiiiiiiiiii".
Aquele filho não teve dúvidas e desceu o abismo em busca do pai que imaginava estar em algum lugar do outro lado. Andou muitos dias e muitas noites, mas não encontrou o pai. Mas, de repente, percebeu que desbravara o abismo, que o fim não era assim tão definitivo, que era um mito. E encontrou vida do lado de lá. E nunca mais quis voltar.

16/10/2010

Razão dormente

Se não fosse sua razão,
Eu perderia a minha.
Se é que já não perdi.
Mas em perdendo a razão,
Não se perde mais do que se ganha.
O elogio da cautela é para manutenção.
E só há mudança na rebelião.
Mas pra mudar é preciso querer.
É preciso enfrentar
E arcar.
Mesmo sem razão.

Não há mudança sem dor.
Mas dessa dor nascerá uma flor.
Uma só:
Suficiente,
Inteira,
Única.
Brotando do solo árido,
Como um milagre.
Até ser árvore,
Floresta
E pó.

Tudo acaba um dia.
Até o dia.
Nos tempos de hoje,
A razão já era!
Descartes morreu!
E isso também é racional.
Sim, "O sono da razão produz monstros".
Mas quem tem medo de monstros?
Não há razão razoável para arrazoar sobre o fim.
Só o medo paralizante que a razão produz.
_________________
Imagem da gravura clássica do espanhol Goya.

15/10/2010

Uma poesia universal

Queria uma poesia universal. Então pensei que poderia falar do amor. Mas aí lembrei que há sociedades em que não há amor. Não esse nosso amor romântico.
Então pensei numa forma de compensação: na possibilidade de escrever sobre o perdão. Mas aí lembrei que nem sempre se concede o perdão. E nem sempre se recebe o perdão.
Resolvi então escrever sobre a dor. Não há sociedade que não saiba o que é uma perda dolorosa, uma angústia. Então, queria que fosse um texto simples: com uma simplicidade rasa o suficiente para deixar a dor ser sentida intensamente. E achava que quanto menos palavras utilizasse, mais universal seria. Pensei no seguinte:
Soledad es muerte.
Einsamkeit ist der Tod.
Loneliness is death.
La solitude est la mort.
La solitudine è la morte.
孤独は死です。

Enfim, muitas maneiras de escrever assim, sem rima, uma mesma verdade universal:
Solidão é morte.


Só.

14/10/2010

Ridículo

Talvez esteja sendo ridículo.
Talvez seja.
Mas quem entende a dor da saudade
E pode suprir essa lacuna que está aqui,
Devorando a vontade de seguir,
Sem ser ridículo?
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"Quando você fica mais velho, o gosto das pessoas por desafios começa a minguar. (...) As pessoas com 30 anos parecem bem menos dispostas a arregaçarem as mangas e se envolverem em algo ridículo. Para mim, envolver-se em algo ridículo é a vida, porque a vida é ridícula". (Ian MacKaye, um dos grandes baluartes da música punk dos anos 70 e 80, com as bandas Minor Threat e Fugazi, em entrevista à revista Punk Planet de maio/junho de 1999). Amém!

13/10/2010

Arrogância

Sempre achei que não deveria buscar riquezas.
Nunca tive posses.
Sempre achei que deveria ser reconhecido e recompensado por ser quem sou.
Não sei o que é sucesso.

Sempre achei que os amigos deveriam me procurar.
Não tenho muitos amigos.
Sempre achei que não deveria correr atrás das mulheres.
Não tive muitas.

Sempre achei que não deveria pedir ajuda.
Não ajudei muito.
Sempre achei que não deveria deixar de ser o que quisesse.
Não sei quem sou.

Hoje aprendi que tudo isso é arrogância.
E tenho dificuldade de pensar e agir de modo diferente.
Eis a questão sobre esse meu problema:
Voluntarismo ou determinismo?
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Faço da segunda minha primeira opção.