01/12/2010

Dicão

Essa é para meu amigo Dicão, que não me conhece, mas que considero um irmão. O que preciso falar aqui não é ilusão, embora possa parecer ficção. São duas realidades buscando a verdade, sedentas por afinidade. A história de Dicão começa lá atrás, quando conheceu alguém que lhe tirou a paz. Alguém que não se faz. Uma raridade que se tornou uma beldade. Um lindo projeto de mulher, que ficou melhor. Ela ainda é, uma linda mulher. Mas, voltemos a Dicão, que ficou algumas vezes com aquela beleza até que se separaram com frieza. Não se viam com frequência, mas tinham alguma convivência. Dicão tocava sua vida e, de repente, recebeu aquela visita. Cheia de amor pra dar. Tanto amor que consigou engravidar. Depois que engravidou, ela o abandonou. E voltou pra sua casa, voltou pra onde estava. Mas nada mais era como deixara. E pagou caro por sua maneira ousada. Dicão ficou atordoado, pior do que era encontrado. Com o filho roubado e o coração destroçado. Se perguntarem pra ele como tudo aconteceu, não saberá dizer como se sucedeu. Foi tudo muito rápido, como o efeito de um ácido. E ele que costumava usar drogra nunca tinha experimentado antes uma onda assim, sem fim. Mas quer saber de uma coisa, não tenho pena de Dicão, que sofreu o quanto fez sofrer. E recebeu o que estava a merecer. Ele é atlético, enérgico e acéfalo. Estava com a cabeça onde não devia, onde não se via. E pagou pelo que fez, pelo que nem fez. E ela leva mais uma bola de ferro nos pés. E um bebê nos braços. E ninguém a quer.
Final duplamente infeliz, como se quis.

29/11/2010

Cacos

Junto com as mãos os cacos que sobraram de tudo
E sinto o corte profundo que faz sangrar sem chorar.
Que faz sangrar e chorar.
Faz chorar sem sentir,
Sem ouvir.
E uso os cacos pra ferir você,
Pra dilacerar você e eu.
Rasgo na carne o mal que me prende.
Rasgo na carne o mal que me liberta.
E se não for para o bem,
Será para o mal.

26/11/2010

Sem vergonha

Há um menino buscando um amigo.
Querendo um abrigo.
Essa amizade é impossível,
Ela é temível.
Mas ele é terrível,
E vai atrás.
Sem vergonha nem culpa,
Na paz.
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Inspirado na música "Sem Vergonha", de Cazuza e Frejat. Letra completa e vídeo do Barão Vermelho cantando essa música no Rock in Rio estão disponíveis em: http://letras.terra.com.br/cazuza/1495328/

25/11/2010

Os de dentro e os de fora

Expulsos,
Excluídos,
Excomungados,
Exilados...
Estão todos fora,
Todos perdidos.

Buscando se achar.
(Ou querendo ser achados).

Um dia...

Enquanto você dorme,
Eu penso.
Eu choro.
Eu luto.
E só não sucumbo
Porque sei que amanhece.
E quando isso acontece,
Meu corpo cansado adormece.
E sonho de dia.
Sonho com o dia.
Todo dia.

Um dia...

24/11/2010

Confusão paralisante de uma cabeça fora do lugar

Tenho tanto por fazer e não sei por onde começar.
Tenho tanto pra começar e não sei por onde fazer.
Faço planos sem conseguir executá-los.
Executo planos sem conseguir planejá-los.
E vou me enrolando nos meus traços.
E vou me embolando nos seus braços.
E não sei o que esperar.
Eu só sei esperar.
O fim.

23/11/2010

Procura-se

Procura-se alguém do sexo feminino,
Maior de idade,
Que curta arte
E valorize o erro.
Que conheça seus desejos
E queira satisfazê-los.
Que goste da realidade
Sem perder a sensibilidade.
Que saiba ouvir quem não fala
E diga o que se passa.
Que não traga corrente nos pés
Nem tema o revés.
Procura-se um amor de verdade:
Inteiro e não pela metade.

22/11/2010

Panóptico cego

O panóptico tudo enxerga e nada vê.
O problema é que ele se coloca em você:
Faz suplicar o corpo,
Faz sentir-se morto.
Vigiado.
Quem vê o que não devia,
Nem sabe se confia.
Quem não vê o que queria,
Mantém a fantasia.
Mas às vezes se vê o que temia;
Às vezes se vê o que judia.
E duvida-se da serventia
De saber o que não se queria,
O que não se podia,
Não se devia.

O panóptico tudo enxerga e nada vê.

18/11/2010

Validade vencida

Vi a validade acabar
E não fiz nada pra evitar.
Deixei o tempo passar,
Achando que ia melhorar.

Hoje vivo no bolor,
Respirando esse fedor.
Até morrer?
Preciso mudar.
Antes dele me matar.
Antes de morrer.

15/11/2010

Verdade e liberdade

Queria que todos soubessem a verdade.
Mas como nem eu sei,
Melhor continuarem ignorantes.
A ignorância também é uma virtude.
Porque o conhecimento faz sofrer.

Queria que todos soubessem a verdade.
Mas como nem sei se há verdade,
Melhor continuarem acreditando.
Acreditar é temer pra manter.

Queria que todos soubessem a verdade,
Que não conheço
Nem reconheço.
Mas pra se aproximar de alguma verdade,
Qualquer que seja,
Melhor começarem a duvidar.
E sonhar.
Duvidar é enfrentar para mudar.
E quem sabe, melhorar.

Essa é a verdade:
Liberdade!
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Imagem de escravo fugindo, publicada num jornal do Rio de Janeiro, no século XIX. Naquela época prometia-se reconpensa a quem dissesse o paradeiro do escravo foragido. O escravo fugia da opressão do senhor e das condições insalubres da senzala, em busca da liberdade, que frequentemente não vinha, já que viver escondido é tão opressor quanto viver amarrado. Mas numa ponderação de valores, valia a pena correr o risco, enganar para se safar e tentar reconstruir a vida longe dos açoites. A fuga do escravo para os quilombos, ou para qualquer outro lugar, reduzia a falta de liberdade física e político-jurídica a uma falta de liberdade político-jurídica. E isso já era melhor.