10/05/2011

Lealdade

Nunca fui leal
Sempre achei que fosse coisa de animal:
Que graça tem deixar a coisa assentar sem nem mesmo chacoalhar?
Toda mansidão é poeira deitada no fundo do pote,
Esperando alguém balançar,
Esperando alguém misturar.
E o fetiche está em esperar,
Em expectar.
E faço o que me compete,
Isso me compromete.

09/05/2011

Quando a gente leva um tombo sente mais que a dor

Você é muito mais importante pra mim
Do que fui pra você.
E não me interessa que seja diferente!
Ainda estou todo machucado,
Mas quero acreditar que foi por meu bem.
Fora isso não sei
O que se pode fazer sem perder,
Sem arriscar perder o risco do bom tino.
Porque ganhar sem perder
É não se ver.
Só quem cai olha a ferida,
Só quem cai tem uma querida.

É preciso se deixar cair
Pra ver as coisas de outro lugar,
Pra ver tudo fora do lugar,
Fora do lugar que quiseram acreditar,
Que nos deixamos colocar,
Pra entender que não existe nada perfeito,
Nem nós.
E que nada passa do chão.
Por isso, não devemos abrir mão da proteção:
Você me protege a mim
E eu lambo seu chão.

08/05/2011

Faça amor, não faça guerra!

Muitos querem saber como podemos ser felizes em meio a tantos conflitos de interesses nas relações humanas? A resposta poderia se desdobrar em inúmeras análises. Mas como sou sucinto, como sou reducionista, minimalista, prefiro dizer só o que já sei. E abandonar o que idealizei.
Na guerra não há espaço para o amor. Mas o amor só se realiza em meio a guerra. Ele floresce na secura da alma, ele se dá sem equilíbrio, em meio aos conflitos. O amor destrói as barricadas construídas para proteger e atacar. O amor implode o sentido da guerra e nos torna vulneráveis. E quem resiste ao poder do amor produz a guerra, que começa dentro de si e se desdobra por aí. Até chegar aqui. E aí, voltamos ao começo: na guerra não há espaço para o amor.
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A expressão "faça amor, não faça guerra!" foi cunhada nos Estados Unidos, nos anos 1960, em meio a resistência à guerra do Vietnã e à expansão da cultura hippie. Os maiores difusores dessa idéia foram Yoko Ono e John Lennon. A atual crise das instituições sociais tem produzido uma releitura desse ideário hippie, embora com uma roupagem mais niilista e consumista. Ao lado, foto do casal Lennon-Ono que foi capa polêmica da revista Rolling Stone, de dezembro de 1980.

07/05/2011

Metáforas

Gosto de metáforas,
De diásporas
E catástrofes.
Elas são meu fim,
Meu caos:
Indecifráveis,
Inexoráveis
E inacreditáveis.
E crio todas elas.
E caio em todas elas.
ҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨҨ
Imagem: "Allusive Metaphors III", de Florence Putterman.

06/05/2011

Não vou parar

Vou confessar:
Não vou parar.
Não vou conseguir;
Não vou consentir.
Mas também não vou partir.
Vou continuar,
Sem nunca me encontrar.
Pra viver as muitas vidas,
Com muitas vidas.
Pra me tornar imortal,
Surreal.
Pra ser amado,
Desejado
E esquartejado.
Vou viver sem plano,
Vou entrar pelo cano,
Morrer aos poucos,
Viver como os loucos.
Se no fim vamos todos para o mesmo lugar,
Vai ter briga pra me levar!
Não vou correr o risco do esquecimento,
Que se dá ao excesso de consentimento.
E por falar em sentimento,
Em nenhum momento vou deixar de me envolver,
De devolver
O que recebo sem merecer.
E me dou pra não esquecer
O que é viver.
(E pra não ser esquecido)
Esquisito?
É o que digo:
Melhor se adaptar,
Se quiser continuar.

05/05/2011

Limite!

Não gosto das limitações.
Nem da falta que elas me fazem.
Sem limites não há subversão,
Não há desordens,
Nem crimes.
Nem castigos.
E eu seria...
Mais infeliz!
..............................
Garfite de 'Osgemeos' com frase de Bob Marley

04/05/2011

Nunca serei

Sei que nunca serei
Que nunca serei além
Nunca serei além do que você
Nunca serei além do que você fizer de mim.
E com você também será assim.
Dá-me o prazer.
Dá-me o prazer de ser pra você,
De ser com você.

03/05/2011

Inspirações poéticas

Não faço poesia
À luz do dia,
Sem hipocrisia
E mais-valia.

02/05/2011

Corpo como suporte da dor

Vejo seus ombros arreados,
Seus braços inchados,
Sua pele queimada,
Sua alma cansada,
Seu semblante derrubado,
Seu corpo arqueado...
E penso no peso que suporta,
Na lida que o entorta.
Sem recompensa,
Sem pertença.
__________________
Homenagem à dor suportada (sem escolha) pela classe trabalhadora empobrecida brasileira. O corpo expressa a condição de sua própria classe. Na foto: carvoeiros do Vale do Jequitinhonha.

01/05/2011

De repente viver

Bem, de repente, é sorte grande.
Bem de repente é sorte grande.
É embolada marcada,
É fala ritmada.
De repente se vive,
Sem querer.
Bem de repente
É sobreviver,
Viver na arte
Na arte de enganar a vida,
A fome,
O medo.
Na arte de enganar os sentidos,
De criar novos sentidos.
Sem nem saber,
Sem nem escrever.
Vendo tudo se perder.
Vende tudo pra viver
E leva nas pontas dos dedos
Uma vida inteira,
Uma família inteira,
Uma cultura inteira.
E leva na ponta da língua
O que não sabe explicar,
Porquê a necessidade faz o sapo pular
Na panela vazia.
E engole sapo pra matar a fome,
Pra não morrer de fome,
Pra não ter fome de matar.
Na sua vida tudo acontece numa fração:
Um meio de viver,
Um quarto de dormir,
Um sexto de abacaxi...
E aprende a descascar
Pra não morrer.
E aprende a viver
E resistir.
Pois tudo na sua vida acontece sem razão:
Seca,
Sinhô,
Coroné,
Fé,

E amor.
Desilusão,
Expulsão
E ganha-pão.
Desafiando toda razão,
Com toda emoção,
Vai vivendo de repente,
Sonhando em um dia ser gente.
Como as que vê frente a frente
Na TV,
Se é que vê.
Bem de repente é sorte grande!
E o azar é a morte.
Por isso, vive na sorte.
Vive de doação:
Doa mais do que recebe,
Ensina mais que aprende.
Ensina a poesia da vida,
A tirar da dureza
Sua bravura,
Sua fartura.
Farto de esperar
Põe-se a caminhar.
E de repente começa a viver.
Deixando no caminho
As marcas do viver,
A cultura de refletir
Sem pensar,
Sem parar.
E aprende com a vida a zombar.
E zomba da vida (da sorte) até se fartar.
Essa é sua sorte,
Cantar.
ӃӅҰҲҞҘҸҥҦҩӋӃӅҰҲҞҘҸҥҦҩӋӃӅҰҲҞҘҸҥҦҩӋӃӅҰҲҞҘҸҥҦҩӋ
O repente é nossa cultura de resistência política, de enfrentamento das adversidades da vida. Essa poesia é uma homenagem ao nosso folk e a todos esses anônimos artistas que de repente vivem. Que repartem a riqueza que trazem, sem saber que as tem. E que não conhecem a justiça, são fustigados e enganados: dão mais do que recebem. Salve todas as recriações possíveis do repente! No fanqui, no panqui, no répi, no mangui, no roqui, no pópi... Abrasileirando tudo que toca bem aqui, no fundo da caixa de bater, no marcapasso da caminhada. Viva!