30/10/2010

Atalho

Conhecer alguém,
Envolver-se com alguém,
É tomar um atalho pra longe de si,
Agradar mais o outro que a mim.
E quem disser que aí não há liberdade,
É porque nunca amou de verdade.

Afastar-se de si,
Perder-se na realização dos planos,
E dos sonhos,
Parece ser nosso destino certo.
Ou procurar ter alguém por perto.

Amar é perder-se com alguém,
Perder-se em boa companhia.
Todo dia.
Com agonias e alegrias.
E vale a pena!

29/10/2010

Quando pensar é demais

Relacionar-se dá trabalho,
Nos deixa quebrantado,
Angustiado,
Mas também empolgado,
Renovado.
Pois não há conhecimento sem dor,
Não há pertencimento sem cessão,
Sem cisão.
Não há relação que prescinda de reflexão;
Não há duração sem reconsideração.

Quem foi talhado pra pensar,
Não consegue deixar de matutar.
Assim como quem foi condicionado a viver,
Não quer pensar em morrer.
Ou quem aprendeu a dançar,
Não consegue parar.

Pensar,
Morrer,
Parar,
Parecem carregar em si essa noção estática,
Que hoje apavora a prática.

Evitamos o pensamento
Como evitamos a morte e a inação,
Como forma de alienação.
E preferimos a prática,
A vida e a ação.
E isso produz aceleração:
Pois não há pensamento que possa superar a experiência.

Mas sei bem quando pensar parece demais:
Quando nos faz voltar atrás.
Afinal, em meio a tanta aceleração,
Voltar atrás parece contra-mão,
Quando só temos os olhos no próprio dedão;
Ou quando o adiante se torna obssessão.

Aí, o melhor a fazer é mesmo relaxar.
O melhor é aproveitar,
Como se o feitiço fosse iminentemente acabar.
Vive-se pouco,
Vive-se intensamente.
E deixamos de ser gente,
Deixamos de pensar
E de nos importar.

Mas uma coisa boa de não pensar,
É não se responsabilizar,
É não se dedicar a criar e recriar,
E nem brigar;
É não precisar entender,
Nem ceder;
É não conhecer.

Mas aí volto ao velho dilema anarquista:
Haverá futuro?
Ou, atualizando:
Relacionar-se sem responsabilizar-se
Não é um consumo do outro?
§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§§
Pretendo considerar uma resposta possível para essas questões finais na postagem de amanhã, partindo de um paradigma sonhador/idealizador que seja factível/realizável por cada um com cada um, conjuntamente entre nós. E vou falar do que sei, apesar de saber que nem sei. Apesar da dor que causo no outro por não saber realizar o que sei. E causo a dor no outro pra me proteger da dor em mim. Isso é egoísmo, falta de responsabilidade e intolerável. Mas é o amor o mistério que nos permite continuar, apesar de tanta dor. E quando deixar de acreditar no amor, deixarei também de tentar vivê-lo. Aí será o fim.

26/10/2010

Faça o certo?!

Às vezes é melhor fazer o certo.
Mesmo que ele não esteja por perto.
Mesmo que não exista o certo
Ou que ele seja incerto.

Às vezes a convenção é a própria realidade.
E aí não se apresenta nunhuma outra possibilidade,
Além da submissão
Ou da punição.
Ou os dois ao mesmo tempo,
Como uma forma de tormento.

Quando a gente não quer enfrentar,
O melhor é dissimular
Ou abandonar.

Mas quando se tem paixão pelas verdades,
Não satisfaz as amenidades:
É preciso ir fundo e desvelar as vontades
E revelar as verdades.

Mas quando a gente não pode enfrentar,
O melhor é acreditar.
Ou abandonar.

Penso que fugir é também resistir.
Fujo com quem quiser.
Fujo com quem puder.
Fujo pra bem longe
E trago comigo o que me consome.

Descubro que o mal está em mim
E que esse espírito malvado precisa sair.
Mesmo sem acreditar,
Preciso concordar
E me dissuadir,
Como um palhaço que vê o público aplaudir
Sem mesmo entender porque se está ali.

A segurança está aí:
Em que ser diferente
Produz desconforto nessa gente temente.
E eu que sou demente,
Preciso extrair a serpente
E seguir crente,
Carente
E insuficiente.
E isso é intransigente.

Penso que fingir é também garantir.
Finjo com quem quiser.
Finjo com quem puder.
Finjo pra ir longe
E trago comigo quem me consome.

Não há medo que justifique o fim.
Não há desejo que justifique o fim.
Aplacar, amansar, adestrar, castrar e controlar
É sempre melhor que arriscar?

E quando a gente foge,
Diz amém.
E quando a gente foge,
O dominador também.
E tudo se mantém.

É confortável seguir:
Faça o certo!
Crê no credo!
Viva o perto!
Morra o resto!

E depois abra os olhos
E não enxergue sua vida continuar.

É desconfortável resistir:
Faça ereto!
Pense o credo!
Prenda o reto!
Solte o verbo!

E depois feche os olhos
E veja seu próprio cadáver acabar.

Quando a razão faz parar o coração,
O medo paralisa a ação.
E aí não tem jeito,
O mal já está feito:
A técnica ataca
E a arte se mata.

Não recrimino a fuga,
Ela também é coragem.
Mas duvido que o medo
Encontre o amor.


Sinto por sua apatia.
E me ressinto da falta de alegria.
Lamento!
Está tudo perdido.

25/10/2010

Vai!

Vai!
Vai em paz!
E traz de volta a minha paz.
E vê que a vida é o que se faz.
E vê que a vida é o que apraz.

Volta!
Volta atrás!
E leva embora o que me jaz.
E vê que a vida é o que se faz.
E vê que a vida é o que apraz.
°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°
Essas duas últimas postagens escrevi inspirado na música "Perder ou Ganhar", de Paulinho da Viola, que diz assim:
Perdi, mais uma vez,
Agora quero prosseguir em paz.
Tanto que falei, voltei,
Mas, obrigar jamais.

Fazer o que eu fiz,
Nem adianta contar.
Tudo de bom pra você
Eu desejo,
Porque sei perder e ganhar.


Felicidade há de voltar para mim.
Vou me livrar da tristeza,
Com toda certeza,
Um dia ela pode ter fim.

A leitura da letra da música não substitui ouvi-la cantada pelo filósofo Paulinho da Viola, com toda a força e velocidade das batidas que parecem tentar nos convencer (à força) da "verdade" contida na letra.

24/10/2010

Jogo do amor

"Azar no jogo, sorte no amor",
Já dizia o cantador.
Como nunca reconheci o "jogo do amor",
Já me acostumei à dor.
Aliás, nunca aprendi a jogar,
Não aprendi a ganhar.
E perco cada partida com um sentimento de inutilidade,
De não saber onde errei,
Sem aprender nada além do que sei.
Provavelmente cometerei os mesmos erros da próxima vez.
Se é que haverá próxima vez.
Mas um dia serei derrotado de vez.
Sem chance de revanche.
Talvez o erro não seja meu.
Mas também não é seu.
Talvez nem haja erro.
Só razão para tudo.
Só razão pára tudo.
Só razão.
Só!
Já é o bastante.

23/10/2010

Repressão e subversão

Sou fechado.
E me abro de modo figurado;
E falo de modo sussurrado.
Como quem prende o que não se pode aprisionar.
Como quem sabe que nem tudo se deve desejar.
E se envergonha do que não deveria envergonhar.

Mas tenho em mim uma força subversiva,
Capaz de abrir e fechar ferida.

22/10/2010

Tudo ou nada

Se há alguém que atrapalha meu trabalho,
É você.
Se há alguém que me torna criativo e estimula meu trabalho,
É você.
Você é tudo.
Você é nada.
Ser tudo ou nada
Depende sempre de você.
Se é que existe liberdade!

21/10/2010

Sofrer e fazer sofrer

Sofremos na alma o que produzimos no outro.
Produzimos no outro o que sofremos na alma.
Recíproca produção,
Sem nenhuma opção.
E quando a alma sofre,
O corpo se recente.

Ah, e o(s) outro(s) também.
________________________
Me at 10 (from family suite), gravura da artista inglesa Tracey Emin, que retrata o corpo de forma dessacralizada.

20/10/2010

Lance

Esse é o Lance.
Um vencedor:
Venceu corridas;
Venceu na vida;
Venceu o câncer
Venceu a morte.
E voltou.
E se reencontrou.
Esse é o Lance!

Também já fui assim,
Também venci,
Também voltei.
E me reencontrei.
Também tenho esse lance dentro de mim.
Sempre foi assim:
Meu lance é total, integral.
E vivo esse lance como se não fosse ter fim.
*****************************************************
Um lance pode ser só um lance,
Mais um lance.
Ou pode ser o lance final,
Impondo o fim do jogo afinal.
Como caracterizar esse lance?
O que esperar desse lance?

19/10/2010

Perda de tempo

Desde muito novo tive relógios. Desde aquele reloginho clássico do Mickey, em que os ponteiros são seus braços, até relógios digitais à prova d'água. Nem sei se gostava de relógios, mas sempre os tive comigo. No dia 27 de agosto de 1992 fui assaltado junto com mais dois amigos quando ia para a escola. Roubaram nossos relógios. Desde esse dia o tempo parou pra mim. Fiquei doze anos sem comprar nem usar relógios. Quando comecei a trabalhar ganhei um relógio de minha mãe. Usava-o para controlar o tempo das aulas. Mas confesso que nunca usava o relógio o tempo todo. Dezoito anos após o assalto que sofri, ganhei outro relógio, mas continuo com o mesmo costume de tirar o relógio quando chego em casa. Estive pensando sobre essa minha indisposição com as horas e percebo que esse é um problema comum nos dias de hoje: num momento em que tempo é dinheiro, os ponteiros do relógio se tornam algozes da liberdade e da vida. Mas no meu caso, há ainda outros agravantes: como sou filho único, nunca contabilizei muito o tempo, sempre tive o tempo a meu dispor; e pra piorar, quando tive uma doença grave o tempo parou de vez, parecia que vivia o mesmo dia todo dia, com os mesmos rituais de tratamento e pouca expectativa de ver o futuro chegar. Hoje sei que o tempo passa para todos e que pretende meu fim também. Agora sei valorizar cada segundo e quero jogá-los fora um a um. Continuo sem usar relógios fora do ambiente de trabalho e agora quero desperdiçar todo tempo que não tenho. Quero deitar no chão pra ouvir música, ler um livro ou pensar na vida. Sem pressa. Sem fim.