08/11/2010

Gosto e não se discute!

Gosto de raciocínios rápidos,
Mensagens subliminares,
Sorrisos simpáticos
E língua afiada.
Gosto do que não sou.

Gosto de vestidos esvoaçantes
E tatuagens exuberantes:
Liberdade e arte.
Gosto do que não tenho.
Gosto do que não tive
(Gosto e não se discute!),
Gosto do que não fui.
Gosto de você
Só.
[][][][][][][][][][][][1903-2011][][][][][][][]

07/11/2010

Desempenho e frustrações

Um intelectual de tradição marxista chamado Guy Débord publicou no final da década de 1950 o livro "Sociedade do Espetáculo", em que criticava as transformações do capitalismo tornando tudo em espetáculo para consumo. A sociedade americana, sociedade do espetáculo por excelência, usa a expressão standing ovation para designar um ritual de aplausos prolongados e de pé (numa expressão de reverência) que se destina a grandes personalidades. Quem já presenciou uma cena como essa não pode negar que seja emocionante. Talvez uma dessas homenagens mais emocionantes tenha sido a despedida de Magic Johnson das quadras de basquete, quando descobriu ser portador do vírus HIV.
Mas o contexto da fragmentação das relações sociais e atomização dos indivíduos em que vivemos alimenta essa nossa carência coletiva por reconhecimento (aplausos) numa sociedade onde a indiferença reina. Por esse motivo, pela busca do reconhecimento, acabamos dando cabo a uma sociedade do desempenho. Mas trata-se de um desempenho apartado de seu sentido de uso, quer dizer, sem levar em consideração o bom desenvolvimento de uma atividade, qualquer que seja ela.
Estamos exageradamente preocupados com nossos desempenhos, mas de uma perspectiva egoísta e alienada: queremos desempenhar bem nosso papel, visando os aplausos, o reconhecimento, e não necessariamente a boa execução de uma atividade. Isso significa que estamos mais preocupados com o fim (reconhecimento) do que com o meio (boa execução de uma atividade). Aí passamos a desempenhar bem em todas as áreas da vida, do sexo à atividade profissional, passando pela religiosidade e a paternidade/maternidade.
Hoje em dia o vazio existencial é tão grande que desempenhamos com maestria nossos papéis para receber elogios e aplausos. Prova disso é que quando esse reconhecimento não vem, nos sentimos amargurados, magoados, deprimidos ou irritados. Ou tudo junto. Isso significa que o sentido da existência tem cada vez mais sido colocado no outro. E como vivemos, paradoxalmente, numa sociedade egoísta, essa atitude acaba gerando muitas frustrações, porque queremos reconhecimento pessoal mas não estamos dispostos a reconhecer o bom desempenho do outro. Isso também é um problema social.

04/11/2010

Louca!

Você é mesmo louca:
Vem buscar minha boca,
Vem pedir meus abraços,
E me dar uns amassos.
E eu que tenho tudo
Fico sempre mudo.
E eu que não tenho nada,
Caio no conto de fada.
E derreto-me sem poder compartilhar,
Sem poder a seu lado caminhar.
Cada momento é finito.
É infinito.

03/11/2010

Lado a lado no caminho

A caminhada é uma aprendizagem.
E como todo conhecimento,
É um sofrimento.
Sofro pra acertar o passo.
Mas se sofro é porque quero com você caminhar.
E porque penso que você quer comigo caminhar.

Para caminhar lado a lado,
É preciso apertar o passo
E desacelerar.
É preciso cadenciar.
Vem comigo?

02/11/2010

Postagem sem título nem razão

Você tem toda razão.
E sofro por não tê-la.

30/10/2010

Atalho

Conhecer alguém,
Envolver-se com alguém,
É tomar um atalho pra longe de si,
Agradar mais o outro que a mim.
E quem disser que aí não há liberdade,
É porque nunca amou de verdade.

Afastar-se de si,
Perder-se na realização dos planos,
E dos sonhos,
Parece ser nosso destino certo.
Ou procurar ter alguém por perto.

Amar é perder-se com alguém,
Perder-se em boa companhia.
Todo dia.
Com agonias e alegrias.
E vale a pena!

29/10/2010

Quando pensar é demais

Relacionar-se dá trabalho,
Nos deixa quebrantado,
Angustiado,
Mas também empolgado,
Renovado.
Pois não há conhecimento sem dor,
Não há pertencimento sem cessão,
Sem cisão.
Não há relação que prescinda de reflexão;
Não há duração sem reconsideração.

Quem foi talhado pra pensar,
Não consegue deixar de matutar.
Assim como quem foi condicionado a viver,
Não quer pensar em morrer.
Ou quem aprendeu a dançar,
Não consegue parar.

Pensar,
Morrer,
Parar,
Parecem carregar em si essa noção estática,
Que hoje apavora a prática.

Evitamos o pensamento
Como evitamos a morte e a inação,
Como forma de alienação.
E preferimos a prática,
A vida e a ação.
E isso produz aceleração:
Pois não há pensamento que possa superar a experiência.

Mas sei bem quando pensar parece demais:
Quando nos faz voltar atrás.
Afinal, em meio a tanta aceleração,
Voltar atrás parece contra-mão,
Quando só temos os olhos no próprio dedão;
Ou quando o adiante se torna obssessão.

Aí, o melhor a fazer é mesmo relaxar.
O melhor é aproveitar,
Como se o feitiço fosse iminentemente acabar.
Vive-se pouco,
Vive-se intensamente.
E deixamos de ser gente,
Deixamos de pensar
E de nos importar.

Mas uma coisa boa de não pensar,
É não se responsabilizar,
É não se dedicar a criar e recriar,
E nem brigar;
É não precisar entender,
Nem ceder;
É não conhecer.

Mas aí volto ao velho dilema anarquista:
Haverá futuro?
Ou, atualizando:
Relacionar-se sem responsabilizar-se
Não é um consumo do outro?
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Pretendo considerar uma resposta possível para essas questões finais na postagem de amanhã, partindo de um paradigma sonhador/idealizador que seja factível/realizável por cada um com cada um, conjuntamente entre nós. E vou falar do que sei, apesar de saber que nem sei. Apesar da dor que causo no outro por não saber realizar o que sei. E causo a dor no outro pra me proteger da dor em mim. Isso é egoísmo, falta de responsabilidade e intolerável. Mas é o amor o mistério que nos permite continuar, apesar de tanta dor. E quando deixar de acreditar no amor, deixarei também de tentar vivê-lo. Aí será o fim.

26/10/2010

Faça o certo?!

Às vezes é melhor fazer o certo.
Mesmo que ele não esteja por perto.
Mesmo que não exista o certo
Ou que ele seja incerto.

Às vezes a convenção é a própria realidade.
E aí não se apresenta nunhuma outra possibilidade,
Além da submissão
Ou da punição.
Ou os dois ao mesmo tempo,
Como uma forma de tormento.

Quando a gente não quer enfrentar,
O melhor é dissimular
Ou abandonar.

Mas quando se tem paixão pelas verdades,
Não satisfaz as amenidades:
É preciso ir fundo e desvelar as vontades
E revelar as verdades.

Mas quando a gente não pode enfrentar,
O melhor é acreditar.
Ou abandonar.

Penso que fugir é também resistir.
Fujo com quem quiser.
Fujo com quem puder.
Fujo pra bem longe
E trago comigo o que me consome.

Descubro que o mal está em mim
E que esse espírito malvado precisa sair.
Mesmo sem acreditar,
Preciso concordar
E me dissuadir,
Como um palhaço que vê o público aplaudir
Sem mesmo entender porque se está ali.

A segurança está aí:
Em que ser diferente
Produz desconforto nessa gente temente.
E eu que sou demente,
Preciso extrair a serpente
E seguir crente,
Carente
E insuficiente.
E isso é intransigente.

Penso que fingir é também garantir.
Finjo com quem quiser.
Finjo com quem puder.
Finjo pra ir longe
E trago comigo quem me consome.

Não há medo que justifique o fim.
Não há desejo que justifique o fim.
Aplacar, amansar, adestrar, castrar e controlar
É sempre melhor que arriscar?

E quando a gente foge,
Diz amém.
E quando a gente foge,
O dominador também.
E tudo se mantém.

É confortável seguir:
Faça o certo!
Crê no credo!
Viva o perto!
Morra o resto!

E depois abra os olhos
E não enxergue sua vida continuar.

É desconfortável resistir:
Faça ereto!
Pense o credo!
Prenda o reto!
Solte o verbo!

E depois feche os olhos
E veja seu próprio cadáver acabar.

Quando a razão faz parar o coração,
O medo paralisa a ação.
E aí não tem jeito,
O mal já está feito:
A técnica ataca
E a arte se mata.

Não recrimino a fuga,
Ela também é coragem.
Mas duvido que o medo
Encontre o amor.


Sinto por sua apatia.
E me ressinto da falta de alegria.
Lamento!
Está tudo perdido.

25/10/2010

Vai!

Vai!
Vai em paz!
E traz de volta a minha paz.
E vê que a vida é o que se faz.
E vê que a vida é o que apraz.

Volta!
Volta atrás!
E leva embora o que me jaz.
E vê que a vida é o que se faz.
E vê que a vida é o que apraz.
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Essas duas últimas postagens escrevi inspirado na música "Perder ou Ganhar", de Paulinho da Viola, que diz assim:
Perdi, mais uma vez,
Agora quero prosseguir em paz.
Tanto que falei, voltei,
Mas, obrigar jamais.

Fazer o que eu fiz,
Nem adianta contar.
Tudo de bom pra você
Eu desejo,
Porque sei perder e ganhar.


Felicidade há de voltar para mim.
Vou me livrar da tristeza,
Com toda certeza,
Um dia ela pode ter fim.

A leitura da letra da música não substitui ouvi-la cantada pelo filósofo Paulinho da Viola, com toda a força e velocidade das batidas que parecem tentar nos convencer (à força) da "verdade" contida na letra.

24/10/2010

Jogo do amor

"Azar no jogo, sorte no amor",
Já dizia o cantador.
Como nunca reconheci o "jogo do amor",
Já me acostumei à dor.
Aliás, nunca aprendi a jogar,
Não aprendi a ganhar.
E perco cada partida com um sentimento de inutilidade,
De não saber onde errei,
Sem aprender nada além do que sei.
Provavelmente cometerei os mesmos erros da próxima vez.
Se é que haverá próxima vez.
Mas um dia serei derrotado de vez.
Sem chance de revanche.
Talvez o erro não seja meu.
Mas também não é seu.
Talvez nem haja erro.
Só razão para tudo.
Só razão pára tudo.
Só razão.
Só!
Já é o bastante.