25/02/2009

Agente Laranja

Agente Laranja.
Agente Laranja.
Tente escapar
Desse espião.
Ele te pega andando
Ou deitado no colchão.

Agente Laranja.
Agente Laranja.
Ele é astuto
E é persistente.
Destrói os corações
E dilacera a sua mente.

Agente Laranja.

Agente Laranja.
É um herbicida

Que mata e deforma a vida.
Fica de olho sim!
Pois deixaram por aí!

Agente Laranja.
Agente Laranja.
Tente resistir
A esse pesticida
O Vietnam
Perdeu a sua vida.

Agente Laranja.
Agente Laranja.
Desfigura até a alma.
E a Mãe Santa
Inda nos pede calma!

Agente Laranja.
Agente Laranja.
Câncer geral
Em toda uma nação.
Violação.
Destruição.
Cadê os direitos do cidadão?
.......................................................................
Música escrita quando eu tinha 17 anos, em algum dia do ano de 1991.

24/02/2009

Amor no Caos!

Até o início da década de 1990 estava, junto com uns amigos, às voltas com a música e o ideário punk. Produzíamos fanzines em papel com temática política anarquista e ouvíamos músicas punk e hardcore praticamente o dia todo. Era nossa trilha sonoro existencial, acompanhando a tendência de atomização do indivíduo produzida pelo caos urbano das grandes cidades, apesar de morarmos em cidade de interior. Naquela época escrevíamos algumas letras de músicas e gravávamos algumas dessas músicas em fitas k7, tocando em "estúdio" improvisado no quarto de alguém. Para desespero dos vizinhos. Alguns desses arremedos de letras e de músicas sobreviveram aos anos e estão dispersos em fragmentos amarrotados e rabiscados de papel que se amontoam numa velha pasta azul e em velhas fitas k7, recentemente encontradas e transformadas em CD para melhor preservação do áudio. O som era é tão cru quanto nossa formação musical e o clima era de pura descontração. Liberdade e contestação típicas da adolescência. Para não deixar morrer a memória daquele contexto, vou publicar algumas letras e textos produzidos por aquela garotada. Naquela época as abordagens das letras transitavam predominantemente entre nacionalismo e anarquismo, mas não é raro encontrar também críticas à sociedade de consumo ou à erotização da adolescência e juventude. Publicar os textos daquele época talvez seja interessante também para compara-los com os escritos mais recentes e estabelecer pontos de conexão e ruptura entre esses momentos históricos distintos. Mas não há dúvida de que aquele período exerceu certa influência em minha trajetória acadêmica, particularmente em minha opção pelas Ciências Sociais.
Começo com a letra da música Amor no Caos, escrita no início dos anos 90.

Em cada casa
Caos!
Pelas ruas
Caos!
Pelas cidades
Caos!
No coração
Amor ao Brasil
No caos!
Amor no Caos!
Amor no Caos!
...................................
Letra escrita em algum dia de 1991.

25/01/2009

Tortura

Você é torto
E me entorta.
Você me dobra!
Você é sujo
E me suja.
Eu te olho!
Você é grosso
E me engrossa.
Você me choca!
Você me conhece a fundo
E eu te conheço.
Você me olha!
Meia vida
Não é meia morte
É inteira.
Minha vida não é minha,
Mas também não é sua.
Paulada!
Sua tortura me tortura.

24/01/2009

Carnaval

Como a folia diria:
Ainda falta alegria.
Samba nos passos,
Beijos e abraços.
Esses dias não são os últimos,
Mas são curtos.
Aproveitar é prolongar,
Ou mesmo encurtar,
Dependendo de quem vê o tempo passar.
Balança a pança
E desce a anca.
Rebola-bola
E franze a testa.
E o que se pensa
Não se pensa.
Nem se vai.
Só se cai.
Cai no samba
E deixa bamba.
Dias de carnaval
São sem igual.
Mesmo sem alegria,
Até sem fantasia,
O jeito é cair na folia.

16/01/2009

Chato!

A sua chatice me chateia.
Achatado
É chato.
Chatear
É chato.
Chato pega!

12/12/2008

O sentido do público

Ontem publiquei uma poesia em que tratava o termo "público" em seus distintos sentidos, confundindo propositadamente seus significados. Aproximando e afastando os diferentes sentidos de "público". Na verdade, o que me inspirou foi algo que me revoltou, foi saber que o termo "público(a)" quando usado como qualificativo no Brasil, desqualifica: como em educação pública, saúde pública, concurso público etc.
Por vezes o público é sinônimo de "para pobre". De um empobrecimento daquilo que está sendo qualificado como público, ou desqualificado pelo público. A coisa pública (res publica) era o espaço de todos e para todos. Era origem e destino da ação que se realizava por todos e para todos. Hoje, o público é (do) pobre. E a pobreza de quem usa o pública parece desqualificar o serviço prestado, com raríssimas exceções. É assim na saúde e na educação públicas. Saúde e ducação para pobres, para esse poviléu que não se parece comigo, que não merce o que eu posso. Triste falta de identidade, triste fim da cidadania, que vem da idéia de igualdade de direitos, igualdade de acesso a direitos! O público já é pobre.
Mas por vezes o público tem significado ritual de acobertamento de interesses privados em nome do público. Alguns concursos públicos, por exemplo, são destinados a pessoas específicas: desde o edital até o resultado, passando pela formação da banca os destinatários da vaga aparecem evidanciados. Utiliza-se todos os simbolismos do "Poder Público" para realização de interesses particulares. Quem não conhece uma história assim? Os aprovados aprovam suas aprovações. Os reprovados reprovam a prova que não prova nada além da capacidade de articulação política dos aprovados. Talvez se queira aprovar o conhecido por medo do desconhecido. O desconhecido pode desistir, ameaçar ou matar. Antes que o desconhecido me mate, eu o mato, eu o reprovo, eu o descarto. Mato a possibilidade dele participar em igualdade de condições, de ver seus esforços (e gastos) compensados.
Nos dois casos a negação da palavra público(a) se dá pelos mesmos fundamentos identitários e éticos: eu não me reconheço no outro e, por isso, não o vejo como um igual; eu não me reconheço no outro e, por isso, passo a perna nele. Os servições públicos vão cada vez mais se destinando aos pobres e os direitos de todos vão se tornando privados, privatizados nas relações personalistas com o(s) poder(es). Triste falta de identidade com o outro! A falta de identificação com o outro gera a falta de respeito para com esse outro e seus direitos.
Vamos recomeçar!

11/12/2008

O Público

Para o ator o público pode ser sua inspiração.
Para o músico pode ser a fonta de seus aplausos.
Para o artista plástico pode ser seus próprios pares ou seu mercado.
Mas o público somos nós.
Todos nós:
Pares, mercados, inspirações.
O motivo de tudo é o público.
O problema todo somos nós.
Publico em seu nome.
Todos em tudo.
Razão de ser, mesmo sem razão.
Para todos, tudo.
Eu, tu, ele, nós, vós, eles.
Todos.
Tudo.
Nada.
Tudo ou nada é uma linha tênue.
Todo poder a todos.
Nenhum poder a ele.
Todo poder a mim.
Todo poder pode não ser poder.
Todo poder pode não poder.
Público Atônito.
Público paralisado.
Extasiado.
Público privatizado.
Privado.
Privada pública não tem dona.
Ninguém quer privada.
Ninguém quer o público.
Nem o artista se importa mais.
O público virou cash.
Virou trash.
O público privado não interage,
Não pensa,
não participa.
Só consome.
Só tem fome.
De público em público,
Privatiza-se o círculo.
O circo.
Ou qualquer espetáculo:
Receptáculo do expectado:
A mídia não é o público.
A mina não é o público.
Não é do público.
O público não publica
Porque não é mais público.
O público não transforma
Porque não é público.
O público já não tem poder.
Não tem poder público.
De todos.
Para todos.
Pára tudo!
Eu quero o público de volta.
Eu quero público.
Eu quero ser público.
Eu quero tudo
Para todos.
O público é do público.
O público publica.
O público quer,
O público faz.

20/11/2008

Consciência negra

Em 20/11/1998 escrevi o seguinte:

Violência,
Embarque,
Travessia,
Desembarque,
Separação
E dominação.

Violência,
Resistência,
Massacre,
Liberdade,
Segregação
E humilhação.

Violência.
Depois de tanta violência
Ouve-se a voz da consciência:
Daquele que grita,
Que exige,
Faz manifestação
E irrita.
E irrita porque o processo
É histórico,
Rígido,
Conservador...

Mas grita
E exige
Reparação:
Do sangue derramado;
Do pescoço degolado;
Do chicote estalado;
Do crime praticado.
Praticando violência;
Tomando consciência:
De seu valor,
De seu suor,
De seu passado,
De sua dor
E de sua cor.

Negro,
Teu sangue,
Vermelho,
Igual ao meu,
É que te dá valor.

25/10/2008

Beijos de chocolate

A mesma pessoa para quem escrevi a poesia postada ontem, mereceu outros poemitos de minha lavra. Todos eles estão guardados na pasta verde. O que publico agora foi escrito no dia 19/09/1996, a partir da experiência dos primeiros beijos trocados com ela. Faz tempo!

A gomos de mexerica,
Os teus lábios eu comparo.
Nessa doce cobertura...
Me acabo.

Seus doces gominhos mordo
Sem caroços encontrar.
Mas a calda de chocolate,
Teremos que repassar.

Entre sons e o silêncio,
Consegui encontrar
Sua língua pra me firmar.
Mas a sua também parece
Um sustento procurar.

Quantas vezes a beijar
Tantas vezes vou lembrar
Que nesse grande dia,
Os meus lábios foram adocicados
Por gomos achocolatados.

24/10/2008

Lábia pra quê?

Andei desenterrando alguns escritos antigos que estavam guardados numa pasta verde de plástico. Encontrei, por exemplo, uma poesia que fiz para uma paquera e que publico abaixo:

A língua afiada de um lagarto incauto,
Acaba o levando a um lúgubre lugar.

Oh...
Mulher incomum:
De curvas arrojadas,
Do cabelo encaracolado,
De óculos alaranjados,
Dos olhos arredondados
E dos lindos lábios lambeiros.

Não deixe que o ludibriante
Também consiga te levar.

Com laçadas apertadas
E carícias embaladas,
Com lúcidas lambidas
E com o embolar de nossas línguas,
Conquistarei o teu amor.
Eu tenho lábios.
_____________
Essa foi escrita em 24/10/1996. Fernando Pessoa tinha razão: apaixonados somos ridículos! Mas é necessário.