17/02/2010

A massa

Na massa estão os ingredientes.
Todos eles.
Cada um deles.
Misturados com carinho
E com muita força.
Estão todos lá
Escondidinhos
Juntinhos
Formando uma coisa só.
Um mistério!

A massa pode ser de bolo
Ou pode ser torta;
Pode ser salgada
Ou melada;
Pode ser leve
Ou pesada.
Lá estão os ingredientes.
Nas medidas exatas
Ou erradas.
O sal
E o açucar.
A pimenta
E a canela.
A água fria,
O calor,
O vapor,
O trigo,
Um ovo
E de novo.

E aperta
E amassa,
Amassa
A massa.
E soca,
Bate,
Alisa.
Mais trigo.
E força nas mãos:
Sem pressão não há criação.
E tudo fica misturado.
E o resultado é maravilhoso:
Juntos são uma coisa nova,
Mesmo de maneira disfarçada.
Mas eles convivem bem.
Porque se isso não acontece,
A massa desanda.

Quantos segredos se escondem numa massa?

16/02/2010

Parceria com o Criador


O rude.
O tosco.
O bruto.
Quanta beleza há aí!
É preciso muito talento
Pra lidar com a matéria-prima.
Ela pode ser modificada pelo artesão.
Mas também pode modificar o artesão.

O trabalho humano quando respeita os contornos naturais
Melhora a própria natureza,
Valoriza o original.
E o artista vê sua arte integrada à natureza.
Artista e Criador tornam-se um,
Trabalham juntos:
Trabalho coletivo entre artista e Criador.

A tora.
A rocha.
O látex.
O couro.
Não importa o material.
Ele é melhorado pelo artista para atender o espiritual.

A arte é a reunião da inspiração divina
Com a transpiração humana.
E é mais divina que humana.
Mas diviniza o Homem
E humaniza a Divindade.
E nos entendemos nesse patamar intermediário que chamamos
Gosto.

15/02/2010

Muitos braços e solidão

Quantos braços são necessários para 1) abraçar, 2) cuidar, 3) acariciar, 4) pegar, 5) despedir, 6) carregar, 7) balançar, 8) criar...? E de que adiantaria fazer tudo sozinho, sem ter com quem dividir?

14/02/2010

Roda de carnaval


Mais um carnaval.
São tantos carnaváis!
Quantos carnaváis?!
Mas cada um deles é apenas mais um.
Carnaval de verdade é hoje.
Momento de subversão.
De transgressão da ordem.
De uma ordem que deveria ser mais transgredida cotidianamente,
Já que enfadonha, cansativa, desigual e injusta.
Precisamos de mais carnaváis,
De mais subversões.
De mais gozo.
A cada semestre.
Ou a cada trimestre.
Ou a cada mês.
Semanalmente.
Ou diariamente.
Sei porquê o carnaval brasileiro é tão rico.
É que nossas opressões são mais intensas
E descontamos tudo na plasticidade do nosso gingado
E de nossa festa carnavalesca.
É o nosso desabafo.
O nosso grito de insatisfação
Que apresenta uma nova possibilidade,
Leve, bela e alegre.
Poesia pura.
Mas como o carnaval é uma válvula de escape,
Não o levamos a sério.
Não o suficiente
Para gerar mudanças permanetes.
Suspendemos a lei da moral por três dias,
Talvez por uma semana,
E nos libertamos.
Passado esse tempo,
Voltamos à rotina de opressão.
E aí suspendemos (ou usamos) a lei legal para dar cabo à exploração.
Para por em prática nossa moral de favores, de conchavos,
De acordos.
Acordamos assim
Cada dia,
Todo dia.
Menos no carnaval.
Ah, o carnaval!
Mais um carnaval.
São tantos carnaváis?!
_________________
A forma não é sempre a fôrma do conteúdo. Por vezes a forma é mais, é o próprio conteúdo. Mesmo que ela (a forma) pareça deformada.

12/02/2010

Feedback


Quando recebo um retorno positivo e inesperado encho os olhos de lágrimas. Saber que alguém fez questão de falar comigo por algo que fiz sem saber, ou sem querer, é uma experiência única. Impressionantemente emocionante. É algo como ter cumprido uma missão. É experimentar a sensação de ter sido instrumento para realização de alguma coisa que não estava em mim, que eu não era capaz de produzir. E pior é que dá vontade de continuar fazendo o melhor que puder. Mesmo sabendo que não posso fazer o melhor, que não sei realiza-lo. Mas pela adorável sensação de ouvir um "muito obrigado!", de receber um feedback.

11/02/2010

Cenoura


De tanto comer cenoura
Fiquei com a pele alaranjada.
De tanto comer cenoura
Fiquei com hálito de coelho.
De tanto comer cenoura
Sofri com prisão de ventre.
A conclusão a que chego é que cenoura demais faz mal.
E que preciso variar a alimentação.

10/02/2010

Confuso, esperançoso ou agressivo



Há coisas na vida que desejamos sem poder experimentar.
E há coisas que experimentamos sem desejar.
Há experiências que são impossíveis.
E há as que não nos permitimos.
Quero fazer o que não posso.
Posso querer o que não faço.
Penso em contradições.
Vivo como penso.
E não sei se isso deve ser diferente.
E nem sei se há outra maneira de ser.
Mas sugiro uma vida pensada.
Mas pretendo um pensamento vivo.
O que gostaria é de uma vida calma.
O que gostaria é de um pensamento novo.
Mas sem eliminar o que na vida há de melhor:
A possibilidade de resolver puzzles cotidianos.
Ou mesmo de passar adiante.
Pois não há demérito em perder.
Não há nada errado em não saber.
Eu mesmo já imaginei saber.
Eu mesmo já soube imaginar.
E quer saber,
Não vi motivos para não continuar
Tentando,
Errando
E acertando.
Qual o problema de aproximar-se do fim?
A vida pode estar no fim.
Ou o fim pode não estar ali.
Mas o que importa se não chegamos a lugar nenhum?
A quem importa desejarmos o impossível
E vivermos o indesejável?
O problema é particular.
O particular não é problema.
Quem disse que a vida acabou está errado.
Quem acha que o tempo se esvai está enganado.
A vida não é uma grande tentativa tentadora de acertar?
Se essa vontade se mantém
A vida vai além.
Mas quando a bomba para de bombear
A vida não está mais lá.
Você tem dificuldade de entender o que digo?
Talvez seja mesmo complicado e sem sentido.
Ou talvez não seja pra você.
Passe adiante.
Passar bem!

26/12/2009

Poesia pra viver


Queria viver de fazer poesia.
Alguém quer financiar esse meu projeto?
Só não espere retorno financeiro.
Queria viver de fazer poesia,
Não necessariamente de escrevê-las,
Nem de publicá-las.
Não é pra ganhar dinheiro,
Mas pra um viver prazenteiro.
Fazer poesia é pra mim uma constante.
Não precisa ter rima,
Pode ser dissonante.
Não precisa ter esperança,
Pode ser de desconfiança.
Mas tem que ser poesia,
Expressão de uma vida aflita,
Mas que em tudo vê a Lira.

25/12/2009

Sistema prisional é tapete social


Queria soltar os presos.
Afinal, é Natal!
Tenho vontade de soltar os presos.
Mas o que seria de nós?
Como conviver com o lixo cotidianamente?
Quanto mal estar!
Quanto mau cheiro!
Como viver numa casa sem tapete,
Sem onde esconder os detritos?
É melhor manter os presídios,
Nosso tapete social.

24/12/2009

Eu preciso ir embora

Queria curtir o momento
Com sentimento.
Mas sem grude,
Sem grilo.
Só um instante:
Guardado na memória,
Sem arranhões,
Sem culpa,
Para sempre.
Como mágica (ou bruxaria).
Queria fazer uma obra capaz de durar.
Uma ponte (que reduza pela metade a distância)
Dura.
Ela é dura.
(She is heavy)
E eu, Duro.
Porque homens não choram,
Nem brincam de boneca.
Cada momento um presente
E uma esperança.
Nada se esvai,
Nem seu cabelo.
E o presente não passa
Na minha cabeça.
E eu fico meio vermelho,
Como a bandeira da Polônia.
Eu preciso ir embora.