10/07/2010

Vida social

Não consigo dormir sem escrever pra você. Mas quando termino percebo que não passou de pretexto, que escrevi pra mim, que também fui egoísta, que usei o texto como terapia. E sabe o que é pior? É que o texto escrito cai com uma luva pra você. Nem preciso dizer o quanto comemoro essa nossa identificação. Porque só demonstra que estamos mais próximos do que imaginamos. Afinal, o que se passa aqui, também aí. Isso que eu chamo de vida social.

09/07/2010

Coisas da vida

Subi ao alto de um prédio e vi ao longe as iluminações da cidade. E lá de cima tive uma luz, descobri a verdade sobre a indiferença e a desigualdade social. A indiferença é um modo de suportarmos as dores insuportáveis. A gente não vê (nem sente) a desigualdade social porque se acostuma a viver sobre os outros. E a gente só se acostuma a pisar sobre as cabeças alheias porque não olha pra baixo.
Repararam que quando o avião decola os comissários de bordo começam o servir o lanche (mesmo que a qualidade desse lanche venha caindo)? O lanche servido ajuda a acalmar o passageiro quanto à altura da aeronave. Já pensou se o avião fosse construído com um material transparente como o vidro? Ia ser difícil relaxar durante a viagem, o que, provavelmente, produziria mais problemas para as empresas aéreas: crises de choro, incontinência urinária, desmaio, taquicardia, vômitos, gritaria, aumento do consumo de calmantes... Seria como um terror. Mas o lanche, o confinamento e a técnica (demonstrada pelos comissários) aumentam a sensação de segurança. Mas não deixe de ler os cartões de segurança que se encontram no bolsão à frente de sua poltrona.
Olhar pra frente é mais confortável que olhar pra baixo. Experimenta chegar na sacada de um apartamento localizado num prédio bem alto, colocar a cabeça pra fora e olhar pra baixo. Alguns até se sentem misteriosamente magnetizados ao solo. Vivemos lá no alto, tranquilamente, porque só olhamos pra frente, porque vivemos dentro de casa, com as nossas coisas. Mas olhar pra baixo é uma lástima, nos dá arrepios e vertigens.
Aí está a verdade: suporto a desigualdade porque adoto um modo de vida que me torna indiferente a essa desigualdade. E isso é razoavelmente simples, é só olhar pra frente e curtir as coisas da vida. Consigo encarar a hierarquia social ao longe, mas não suporto me enxergar nela. Isso também é alienação.
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Obs: Depois que escrevi o texto, busquei uma imagem que pudesse ilustrá-lo e encontrei essa preciosa charge do Angeli.
Tudo perfeito. Tudo bem. Sem pesadelos pra ninguém.

08/07/2010

Leite de pedra


Quero virar a noite escrevendo sem pensar,
De olhos fechados e coração aberto, sem parar.
Quero estudar a cultura de um outro longínquo,
Que de tão distante se torna próximo,
Igual a você e a mim.
Quero ouvir as músicas que gosto até cochilar
Pensando em você.
Quero atravessar o mundo atrás de uma peça descartada
Que me faça pensar nos limites.
Quero uma arte feita a todas as mãos,
Mas sem uma razão que explique a formação e a formatação.
E pensar que tudo isso é nada diante do possível.
Você é impossível!?!
Você pode tudo pra mim,
Embora nem tudo se possa realizar.

02/07/2010

Muito por aprender


Fico pensando sobre como é difícil levar para o âmbito profissional nossas competências pessoais. E o inverso também é complicado: às vezes a gente é profissionalmente muito capaz, mas nossos relacionamentos são um desastre. Há muito o que aprender, pessoal e profissionalmente, mas a arrogância, o sentimento de auto-suficiência, atrapalha essa aprendizagem e faz escoar pelo ralo nossas chances.
Se fosse possível escolher, preferiria ser habilidoso no trato com as pessoas. Mas sei que a atividade profissional por vezes impõe um distanciamento social, que a profissão sacrifica os relacionamentos. É preciso uma auto-crítica apurada pra não perder a linha, pra não se deixar levar pra longe dos outros. Senão, a queda é enorme e fatal.
Eu sempre preferi os humanos; valorizei, sem idolatrar, os cabelos brancos; gostei mais de tocar que de falar; admirei quem abre mão de seu poder; elogiei o cuidado com o outro; estimulei os ouvidos (e olhos) atentos; prestei atenção nos últimos; cumprimentei os excluídos... E quer saber, apesar de minha predileção pela fraqueza e humildade, continuo errando muito, continuo distante dos meus ideais e de algumas pessoas das quais gostaria de ser mais próximo.
E fico imaginando a dor de quem sequer se esforça pra ser agradável: sem respeitar o tempo (o nosso e o dos outros) não atentamos para o vencimento do prazo de validade.

01/07/2010

Sobre o hábito de escrever

Viver é inspirador, é matéria-prima da poesia. Não consigo experimentar sem pensar sobre, sem escrever algo. Escrevo todo dia porque vivo todo dia, experimento todo dia, e isso me faz respirar. Por aí você já imagina o volume de coisas que guardo. Fica tudo aqui, escrito em mim. Às vezes jogado num canto, às vezes bem arquivado. Mas raramente passo a limpo o que escrevo, pra manter a expontaneidade e o improviso. E não publico tudo o que escrevo, só o que me faz pensar. E o que me faz pensar vai além de mim, é o que não consigo controlar, a interrogação. A seleção para publicação é feita em cada momento, e repeito cada um desses tempos. E rio, depois, de cada um deles. E me alegro de todos eles. Apesar de tanto escrever há pouquíssimos papéis aqui, porque sempre escrevo primeiro na cabeça, fico pensando no texto o dia inteiro. (E às vezes dias e semanas). O tamanho do texto sempre varia, como os temas, para nossa alegria (ou infelicidade). Mas escrever é todo dia. É um hábito que se cria. No meu caso, vem das cartas, de conviver com quem as escrevia e de escreve-las também. Desde muito cedo. Numa época em que correio ainda existia. Acho que ainda continuo escrevendo cartas, só que agora abertas. Mas mantenho o tom intimista, particularista. Se há um segredo na escrita é que a fonte de inspiração é a vida, sempre vivida intensamente no cotidiano. Agora vou parar, pois preciso viver esse dia.

25/06/2010

"Não quero ir embora"

Que animal é esse que vaga pelas montanhas
Alimentando-se das pastagens alheias,
Devorando minha razão?
Que animal é esse que circula entre as cachoeiras
E se abre como em Titanic,
Abraçando-me de coração?

Suas lágrimas me cativaram.
E quando vejo seus olhos brilhando,
E descubro que a fonte se abre por mim
(Ou gostaria de pensar que sim).
Então, gostaria de ficar aqui.

Todo esse carinho me deixa atordoado.
Suas idéias,
Suas lágrimas,
Seus papos,
Seus abraços,
Sua boca...
Liberdade!
Você vale por duas!

Vamos a um lugar democrático,
E não será para falar das crianças,
Mas por enquanto...
É melhor eu ir.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
C vc ñ se identifica, ótimo!

24/06/2010

Bocas

Bocas dizem muito.
Ou quase nada.
Bocas dizem;
Bocas calam.
Há muitas bocas:
Boca Santa,
Boca Podre,
Boca seca,
Boca molhada,
Boca virgem,
Boca rasgada,
Boca Maldita,
Boca inchada,
Boca delícia,
Boca amarga,
Boca Juniors,
Boca engraçada,
Boca de fumo,
Boca carnuda...
Mas não há boca que não seja usada.
Algumas mais,
Outras menos;
Umas pra lá,
Outras pra cá.
Mas todas usadas.
E o uso a faz melhorar.
Bota a boca no mundo,
E comece a experimetar
O gosto da boca mudar.
E fique de boca aberta.
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Quando soube que depois de um beijo alguém elogiou a boca beijada e não a pessoa beijada, pensei na fetichização da boca e na desporsanilização do sujeito. Mas pensei também, e daí? Ainda que a boca não seja bacana, ela pode se encontrar. E esse encontro produz uma explosão capaz de queimar até a razão. Outra coisa, pode ser mesmo que a pessoa beijada seja mais boca (ou outras partes do corpo) do que gente. Relaxa! Por que tudo deve ser tão sério?

19/06/2010

Volta

Foi-se o tempo da ordem.
É chega a hora da desordem.
E quem disser que esse é o fim,
É porque confiou nas retas;
É porque acostumou-se com o chicote;
É porque gostou da repetição.

Como considero a estabilidade temorosa,
Vibro com a reaproximação do caos.
O caos que envolve, arrasta, derruba e tira os sentidos.
Ele é o próprio sentido;
Ele é a pulsação da vida na sua forma mais humana,
Crua,
Errônea,
Finita...
Viva!

Quem precisa de âncora são os navios.
Eu quero vagar nas marés enfurecidas da costa.
Enfrentar a secura da boca, sedento de amor,
Bebendo a água que derrama dos olhos.
Quero ficar com os olhos cheios d'água
E enxergar torto o que está direito.
Porque nada é só o que se vê
E tudo é o que se vê.

Eu vejo alegria na luz do dia.
Vejo as ondas batendo na praia e meus pensamentos voam.
Preciso da confusão para lembrar quem sou:
Da minha fraqueza, da minha limitação, da importância do outro.
Preciso do "inimigo" pra lembrar da luta.
Pra não esquecer que a segurança é fugaz
E o consumo também.
Preciso da dor para valorizar o amor.
Pra ver que acho e não sei.
Pra ver se acho você.

Quero encontrar o outro cambaleante,
Carente,
Temente
E feroz.
E invocar minha incapacidade para encontrar forças
Pra lutar,
Enfrentar o desconhecido de peito aberto.
E triunfar.
Na certeza de que busco fazer sempre o meu melhor,
E de que não consigo fazer tudo certo.
E é essa convicção de que sou um errante
Que me faz valorizar a imperfeição,
Encontrar beleza nas curvas,
Nas ranhuras,
Nas rugas,
Na sujeira
E na oscilação.

Olho para as marcas na madeira e celebro o desgaste que o tempo produz.
E penso em como seria infeliz se não enxergasse os erros.
Como seria infeliz se não fosse o erro!
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Obs: é preciso lembrar que errar sem a humildade do reconhecimento do erro marca a vida do outro com nossos erros e diminui a possibilidade da reconciliação, que é a própria renovação da tentativa de acertar.

18/06/2010

Perda

Rodei por aí buscando um lugar definitivo.
Hoje percebo que perdi tempo em querer parar.
A maior graça da vida está em descobrir o que há.
Faz a gente se sentir importante, ativo e cativante.
A gente poderia ser mais feliz se valorizasse a proximidade cotidiana.
E se soubesse mesmo
A falta que o outro vai fazer e como a ausência
Faz chorar o coração.
............................
Mas... Valeu!

04/06/2010

Diga não!

O título dessa postagem é o título de uma música da banda Raízes. A música nos lembra da importância de saber dizer não. No caso da música o tema se desenvolve em relação à tentação das drogas na juventude. Mas a lição de aprender a dizer não vai muito além do caso específico de experimentar "viagens loucas" com as drogas, "prazeres que não podem durar". Saber dizer não é fundamental sobretudo para não criar expectativas erradas nos outros. Para não criar expectativas de que se possa fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Sei o quanto é difícil dizer não numa sociedade em que estamos acostumados com as trocas de favores, numa sociedade em que dizer não pode significar fechar portas. Dizer não se torna bastante difícil numa sociedade em que vivemos na base da idéia de que "para bom entendedor, meia palavra basta", em que esperamos que outro entenda as indicações, os "toques", que damos.
Se você tem dificuldade de dizer não, não se sinta fraco. Provavelmente essa não seja uma fraqueza sua, ou um problema de personalidade fraca, mas parte de uma cultura conservadora e omissa que desenvolvemos para manter as coisas como estão, para não confrontar o outro. Já que confrontar o outro pode significar prejuízo próprio, numa sociedade em que "a que se faz, aqui se paga". Teimamos em ser desleais sempre que fugimos do confronto/conflito com o outro esperando que esse outro conheça (ou advinhe) nossos interesses, nossas vontades. Mas não desista, nunca é tarde para aprender que "é preciso coragem para dizer sim, é preciso coragem para dizer não", como canta uma outra banda, a banda Resgate.
Diga não! O não duplamente libertador: libertador de si e do outro. E viva a liberdade! Até!