Sua imperfeição é marcada.
Você é cheia de erros e fraquezas.
Sua imperfeição chega a ser perfeita.
Perfeita para mim.
24/08/2010
22/08/2010
Condecorado corpo
Não pretendo cobrir meus cabelos brancos, tenho orgulho de cada um deles. Aliás, sinto-me honrado com cada dobra, com cada ruga, cada marca e mancha que carrego no corpo. São expressões do tempo. De um tempo que não volta mais. Ainda bem. Elas me fazem lembrar os limites da vida. E servem de estímulo para que eu vença os obstáculos da idade. Como não vivi dissolutamente e como não há corpo perfeito, penso que fiz o meu melhor em cada momento. E, por isso, carrego tranquilamente as marcas do tempo como condecorações dadas a um herói de guerra. Honrarias concedidas a quem lutou, e nem sempre venceu, todas as batalhas da vida. Quem se envergonha do seu corpo, se envergonha da sua vida.
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Imagem: Viejo desnudo al sol, óleo sobre tela de Marià Fortuny i Marsal (1838-1874), Museo del Prado, Madrid.
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Imagem: Viejo desnudo al sol, óleo sobre tela de Marià Fortuny i Marsal (1838-1874), Museo del Prado, Madrid.
20/08/2010
Duas histórias com um mesmo final?
Havia uma mulata cujo nome era Clara. E um homem baixo que se chamava Fausto. Os sobrenomes não importam. Essa não é uma história de amor, nem de final feliz.
Clara, que era filha mais filha velha de um casal de classe média com três filhos, e nascera e crescera em Niterói/RJ, tinha tanta beleza quanto coragem. Aos 17 anos conhecera o movimento paramilitar Ação Libertadora Nacional (ALN) através de colegas da escola que frequentava. Em 1968, aos 18 anos, entrou na luta armada contra a ditadura militar, vivendo na clandestinidade e passou a ser chamada de Vivi. Nesse tempo cruzou intensamente as estradas do sudeste brasileiro, apoiando seus companheiros da ALN. Fazia um pouco de tudo com o fusca marrom do seu pai, de levar armas, cigarros e correspondências até pessoas que faziam parte da guerrilha. Foi executada um ano depois de entrar na luta armada, numa emboscada montada para matar um conhecido lider do movimento, em São Paulo. Morreu buscando a vida e deitou com um sorriso no rosto.
Ah, já ia esquecendo de falar de Fausto! Ele era sub-gerente de uma revendedora de carros e naquela mesma noite procurava um chaveiro que pudesse abrir a porta do carro de seu pai, porque distraidamente ele mesmo deixara a chave dentro do próprio veículo. Um dos tiros disparados contra Clara acertou Fausto em cheio na cabeça, a um quarteirão de distância de onde Clara fora executada. Ele ouviu vários tiros na rua de baixo e instintivamente dobrou os joelhos e virou a cabeça na direção de onde vinham os disparos. Que azar, pegou a bala de frente, na altura da sombrancelha esquerda. Morreu buscando alguém que lhe abrisse uma porta e caiu com cara de assustado.
Ambos morreram no mesmo dia e de uma mesma rajada de metralhadora. Os dois tinham 19 anos e tinham ideais, sonhos. Nenhum dos dois tinha carro próprio e nem esperava que a morte chegasse naquele dia. Só um virou herói.
Dificilmente o nosso fim expressa as dimensões da nossa vida.
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Não há moral na história: a história dos mortos é contada pelos vivos, do jeito que se quer.
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Vivi como se fosse Clara.
Clara que não era clara.
Já era, Vivi.
E o nefasto destino,
Derrubou Fausto
Sem nenhuma grandeza.
E no fim,
O julgamento cabe a mim.
Clara, que era filha mais filha velha de um casal de classe média com três filhos, e nascera e crescera em Niterói/RJ, tinha tanta beleza quanto coragem. Aos 17 anos conhecera o movimento paramilitar Ação Libertadora Nacional (ALN) através de colegas da escola que frequentava. Em 1968, aos 18 anos, entrou na luta armada contra a ditadura militar, vivendo na clandestinidade e passou a ser chamada de Vivi. Nesse tempo cruzou intensamente as estradas do sudeste brasileiro, apoiando seus companheiros da ALN. Fazia um pouco de tudo com o fusca marrom do seu pai, de levar armas, cigarros e correspondências até pessoas que faziam parte da guerrilha. Foi executada um ano depois de entrar na luta armada, numa emboscada montada para matar um conhecido lider do movimento, em São Paulo. Morreu buscando a vida e deitou com um sorriso no rosto.
Ah, já ia esquecendo de falar de Fausto! Ele era sub-gerente de uma revendedora de carros e naquela mesma noite procurava um chaveiro que pudesse abrir a porta do carro de seu pai, porque distraidamente ele mesmo deixara a chave dentro do próprio veículo. Um dos tiros disparados contra Clara acertou Fausto em cheio na cabeça, a um quarteirão de distância de onde Clara fora executada. Ele ouviu vários tiros na rua de baixo e instintivamente dobrou os joelhos e virou a cabeça na direção de onde vinham os disparos. Que azar, pegou a bala de frente, na altura da sombrancelha esquerda. Morreu buscando alguém que lhe abrisse uma porta e caiu com cara de assustado.
Ambos morreram no mesmo dia e de uma mesma rajada de metralhadora. Os dois tinham 19 anos e tinham ideais, sonhos. Nenhum dos dois tinha carro próprio e nem esperava que a morte chegasse naquele dia. Só um virou herói.
Dificilmente o nosso fim expressa as dimensões da nossa vida.
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Não há moral na história: a história dos mortos é contada pelos vivos, do jeito que se quer.
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Vivi como se fosse Clara.
Clara que não era clara.
Já era, Vivi.
E o nefasto destino,
Derrubou Fausto
Sem nenhuma grandeza.
E no fim,
O julgamento cabe a mim.
17/08/2010
Massa
Olha essa massa homogênea,
Amassada com força e por muitas mãos (e pés).
Ela está no ponto pra ir ao fogo.
E virar algo novo.
Você não sabe o que ela pode fazer.
Ela não sabe o que faz.
O pão que nos sustenta vem dessa massa.
O medo que não se sustenta vem de cima.
O segredo dessa massa é a liga.
A liga dessa massa é o suor (e as lágrimas).
O problema dessa massa é a fôrma.
O problema pra essa massa é a força.
A fôrma limita a expansão da massa com força.
A fôrma restringe e aprisiona a massa.
Mas se a fôrma fosse outra,
A massa daria um belo pão.
Quem sabe as idéias não alimentam nossas mentes,
Quem sabe elas não se ponham em prática
E sejamos capazes de criar algo novo:
Um pão para todos!
Quem sabe sentemos à mesa juntos,
Com todas as nossas diferenças,
Com todas as nossas presunções,
Para partilhar do mesmo pão.
A milagrosa massa produzindo o milagre do pão.
O milagre do pão produzindo o milagre da vida.
E o milagre da vida compartilhada num ideal comum:
A própria vida tornada comum.
_____________________________
Tornar a vida comum não é banalizá-la, pelo contrário, é valorizá-la num olhar compreensivo e compassivo em relação ao outro, em relação à vida do outro, às escolhas do outro. É criar o espaço da comunhão, da tolerância com o diferente, é nos vermos como iguais.
Amassada com força e por muitas mãos (e pés).
Ela está no ponto pra ir ao fogo.
E virar algo novo.
Você não sabe o que ela pode fazer.
Ela não sabe o que faz.
O pão que nos sustenta vem dessa massa.
O medo que não se sustenta vem de cima.
O segredo dessa massa é a liga.
A liga dessa massa é o suor (e as lágrimas).
O problema dessa massa é a fôrma.
O problema pra essa massa é a força.
A fôrma limita a expansão da massa com força.
A fôrma restringe e aprisiona a massa.
Mas se a fôrma fosse outra,
A massa daria um belo pão.
Quem sabe as idéias não alimentam nossas mentes,
Quem sabe elas não se ponham em prática
E sejamos capazes de criar algo novo:
Um pão para todos!
Quem sabe sentemos à mesa juntos,
Com todas as nossas diferenças,
Com todas as nossas presunções,
Para partilhar do mesmo pão.
A milagrosa massa produzindo o milagre do pão.
O milagre do pão produzindo o milagre da vida.
E o milagre da vida compartilhada num ideal comum:
A própria vida tornada comum.
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Tornar a vida comum não é banalizá-la, pelo contrário, é valorizá-la num olhar compreensivo e compassivo em relação ao outro, em relação à vida do outro, às escolhas do outro. É criar o espaço da comunhão, da tolerância com o diferente, é nos vermos como iguais.
16/08/2010
A bailarina
Todos os dias ouço tocar nossa música
E vejo você bailar.
Roda bailarina,
Roda sem cansar.
E quando sua corda acabar
Vou recomeçar.
Vou recomeçar.
Estou aqui pra isso:
Não me canso de admirar você.
E observo cada detalhe:
Seus quilinhos a mais,
A maquiagem demais,
Seus calos,
Seus passos errados,
Seus sapatos esgarçados,
Seu semblante engraçado,
Seus dentes embotados.
Mas tudo perfeito,
Na maior elegância,
Na maior arrogância,
Como quem não erra,
Apenas escorrega.
E limpo o chão para você cair,
Pra observar sua queda.
Ainda bem que há sensibilidade aqui:
Aplaudo cada um dos seus pequenos erros
E torço para que se multipliquem.
Senão ia achar que você não existe,Que você é perfeita.
10/08/2010
Descarrego
Descarrego em você
Toda a minha inquietude,
Esperando de você
Uma nova atitude.
Se você não gostar,
Sinto muito e atenção:
Você não vai acreditar,
Azar o seu, irmão.
+++++++++++++++++++
Fiquem firmes!
Toda a minha inquietude,
Esperando de você
Uma nova atitude.
Se você não gostar,
Sinto muito e atenção:
Você não vai acreditar,
Azar o seu, irmão.
+++++++++++++++++++
Fiquem firmes!
09/08/2010
Calo
Às vezes não se tem nada a dizer.
Às vezes não se tem nada.
E quando não se tem nada,
Melhor não dizer.
Melhor lutar
Pela simples vontade de viver.
Calo pra fazer.
E esse meu calo é viver,
É lutar.
Calo pra luta.
Calo de luta.
Calo e luto.
Às vezes não se tem nada.
E quando não se tem nada,
Melhor não dizer.
Melhor lutar
Pela simples vontade de viver.
Calo pra fazer.
E esse meu calo é viver,
É lutar.
Calo pra luta.
Calo de luta.
Calo e luto.
08/08/2010
Humanizar
Nem sempre fui humano
Fui sendo adestrado,
Aprendendo a ser humano.
Imunizando a imagem.
Humanizando a carcaça.
Mas o bicho dentro de mim continua vivo,
Aprisionado,
Querendo sair,
Querendo aparecer.
Mas o universo a minha volta não pode, nem quer, conhecer o que há no meu interior.
E, pra falar a verdade, temo libertar esse danado que vive aqui,
Por não conhecer exatamente o que ele pode fazer em mim,
Embora queira muito saber o que ele poderia fazer por mim.
Mas pagar pra ver eu não vou.
E você?
O auto-controle nasce do atendimento à expectativa do outro sobre cada um de nós.
Vamos domesticando, pelo social, o animal furioso que vive em nós.
E nos especializando em acatar.
Mas ao menor descuido ele pode atacar.
Cuidado: animal feroz!
Fui sendo adestrado,
Aprendendo a ser humano.
Imunizando a imagem.
Humanizando a carcaça.
Mas o bicho dentro de mim continua vivo,
Aprisionado,
Querendo sair,
Querendo aparecer.
Mas o universo a minha volta não pode, nem quer, conhecer o que há no meu interior.
E, pra falar a verdade, temo libertar esse danado que vive aqui,
Por não conhecer exatamente o que ele pode fazer em mim,
Embora queira muito saber o que ele poderia fazer por mim.
Mas pagar pra ver eu não vou.
E você?
O auto-controle nasce do atendimento à expectativa do outro sobre cada um de nós.
Vamos domesticando, pelo social, o animal furioso que vive em nós.
E nos especializando em acatar.
Mas ao menor descuido ele pode atacar.
Cuidado: animal feroz!
06/08/2010
Tubo vazio
Quando a pasta de dentes acaba é preciso trocar. E se não há outra, aperta-se até o final. Espremer. Exprimir. Sair. Tirar. Esvaziar. Substituir. Ninguém joga um tubo de pasta de dentes fora se não há outro para substituir. Nem você.
02/08/2010
Invisivel e atento
Camuflado de mim mesmo,
Vendo você entrar,
Vendo você passar.
Querendo aparecer,
Escancarar.
A tinta das suas canetas não me faz corar.
Continuo invisível pra você.
Invisível por você.
Invisível há tempo.
Invisível e atento.
Mas trabalhando pelo dia em que se enxergará.
Vai ver.









