26/02/2007


Já ouvi histórias.
Já pesquei piabas.
Já andei descalço.
Já quebrei um vaso.
Já fiz pirraça.
Já contei piada.
Já fui cantor.
Já arranquei uma flor.

Já presenciei brigas.
Já fui preso.
Já vi intrigas.
Já levei tiro.
Já morri.
Já levitei.
Já senti.
Já amei.

Já vivi,
Já sonhei,
Já experimentei...
Na realidade ou na ficção,
Minha mente já foi
Onde esteve meu coração.
E eu continuo aqui:
Vivendo.

25/02/2007

Darwin e o capitalismo


Há muito tempo me intriga a massificação da idéia de que Darwin criara a teoria da seleção natural das espécies, em que os mais aptos, "os mais fortes", sobrevivem, e os menos preparados, sucumbem. Charles Darwin foi o grande responsável pela criação e divulgação das idéias evolucionustas através da publicação do livro "A origem das espécies", que foi um sucesso. Mas ele escreveu outro livro, chamado "A origem do homem e a seleção sexual", que foi um fracasso.
Se atentarmos para a relação do primeiro livro com os interesses capitalistas, poderemos entender a razão de seu sucesso e do fracasso do segundo. A idéia de competição entre os homens faz parte do doutrina liberal. Quando Darwin enuncia a teoria da seleção natural das espécies, o Liberalismo assume e divulga essas idéias porque elas naturalizariam, tornariam natural, parte da natureza humana, a disputa entre os homens. Os homens são competitivos não porque querem, mas porque é da natureza humana. A ideologia da competição inata dos homens se firmou também na teoria evolucionista.
Por outro lado, o segundo livro de Darwin colocava em cheque o próprio capitalismo, quando ele afirmava que o mais apto não era o mais forte, mas o que tinha melhor desempenho sexual. O mais forte no sistema capitalista é o que detém maior poder econômico, não há dúvidas. Mas e o mais apto sexualmente num sistema capitalista? Provavelmente os capitalistas, preocupados com a reprodução de seu capital, não teriam muitas condições de ser bons amantes também.
A consagração da teoria da seleção natural das espécies, foi promovida também pelos capitalistas. A idéia da seleção sexual era uma ameaça à reprodução do capital e à própria doutrina liberal.
Deu pra entender? A teoria da evolução das espécies foi promovida pelo capitalismo como meio de se estabelecer e perpetuar.
Fui!

24/02/2007

Piada de advogados


Por falar em advogados, não posso deixar de escrever aqui uma das minhas piadas preferidas sobre advogados:

"O Instituto Pasteur anunciou que eles não vão mais usar ratos em experiências médicas. No lugar dos ratos, usarão advogados. Eles tiveram três razões para tomar esta decisão: 1. existem no momento mais advogados que ratos; 2. os pesquisadores não ficam tão ligados emocionalmente aos advogados como ficam com os ratos; 3. há certas coisas que nem os ratos fazem".

É boa ou não é? Aceito contribuições.

23/02/2007

Advogados


Os advogados têm tirado meu sono. Não, não estou enrolado com a justiça por dívidas, jogo, tráfico, espancamento ou homicídio. Estou preocupado com os advogados porque são objeto de minha tese. Estou pesquisando a relação entre profissões jurídicas e desigualdade social após a Constituição de 1988: estou convencido de que os juristas utilizaram a chamada Constituição Cidadã para alavancar seus poderes na sociedade brasileira. Não vou adiantar muita coisa para não estragar a surpresa, mas estou reunindo dados suficientes para sugerir a criação e execução de um projeto profissional dos juristas antes, durante e depois da promulgação da Constituição de 1988. "Projeto profissional" é um conceito que aponta para uma tentativa de tomada do poder, poder social (status profissional e alta remuneração), por determinados grupos profissionais. No meu caso, estou investigando o projeto profissional dos juristas. Aguarde!

22/02/2007

Credencialismo

Credencialismo é um conceito criado por Randall Collins, um sociólgo norte-americano, para indicar a sobrevalorização do diploma em detrimento do conhecimento, do conteúdo. Para Collins, vivemos numa sociedade credencialista, em que a educação cumpre apenas um papel formal de treinamento. Mais do que o conhecimento, queremos uma credencial pra o mercado de trabalho, um diploma. As credenciais educativas são passaportes para postos do mercado de trabalho? Não necessariamente, segundo Randall Collins. Para ele, uma credencial, um diploma, é um passo importante para entrar no mercado de trabalho, mas é preciso também incorporar uma cultura que se identifique com a cultura desejada, esperada, pelo empregador.

Ele está entendendo, de fato, o conteúdo aprendido com a educação como irrelevante para uma boa colocação no mercado de trabalho. Uma credencial, ou melhor, uma boa credencial é mais importante do que o conteúdo ensinado e aprendido. Isso significa dizer que a estratificação educacional, a hierarquia entre as escolas, gera uma estratificação de diplomas, uma hierarquia de diplomas. Que por sua vez, mantém uma relação direta com o mercado de trabalho: a estratificação educacional é reproduzida no mercado de trabalho e o mercado, em contrapartida, condiciona a estratificação educacional. Em palavras mais simples, escolas boas ou ruins, são boas ou ruins porque o mercado as faz assim, valorizando-as, seus diplomas, desigualmente. Os formados por boas escolas terão uma probabilidade maior de obter êxito no mercado de trabalho não porque eles tenham mais conteúdo, conhecimento, que os formados por escolas ditas ruins, mas porque seus diplomas valem mais no mercado. Os empregadores para não colocar em risco suas empresas tendem a selecionar trabalhadores formados por determinadas instituições reconhecidamente elitistas.


Na verdade, Randall Collins está mostrando que a seleção para ocupar postos no mercado de trabalho é uma seleção classista, uma seleção que acaba reproduzindo a hierarquia de classes da sociedade: os mais ricos estudam nas melhores escolas e os melhores postos de trabalho, os mais bem remunerados, são entregues aos formados nas melhores escolas, que, coincidentemente, são os mais ricos. Será que ele está errado em sua análise? Se estiver errado, então, como explicar tanta desigualdade social?

21/02/2007

Papai

Sujeito importante na nossa vida é o tal do pai, não é? Quem não tem mais pai, ou nunca teve, sabe o que estou dizendo. Fica aquele vazio, imaginamos que bom seria termos pai. Quem teve o pai pouco presente em casa ou excessivamente presente em sua vida também sabe o que estou dizendo. Enfim, todos sabemos a importância que o pai teve ou tem em nossas vidas. Eles são quase determinantes em nossa trajetória pessoal.
Freud diz que o pai representa a figura da lei em casa. A figura do pai marcaria a divisão entre aquilo que o filho pode ter e aquilo que ele não pode ter. E o momento em que o filho descobre que a mãe não é dele, mas do pai, seria o mais singular do papel limitador do pai. Neste momento o filho seria imensamente frustrado na realização de seus interesses ao se deparar com outro interesse diferente e arrebatador, o do pai.
O pai nos traumatiza e/ou nos incentiva. Se nos sufocou demais, lembramos dele com raiva ou até com ódio. Se nos acompanhou de perto, e na medida exata, ficamos saudosos dos tempos de criança a da presença dele em nossas vidas, lembrando dele sempre com ternura.
Talvez este tipo de pensamento só ocorra a quem está envelhecendo, mas deveria ocorrer a todos, antes até de envelhecer, para valorizarmos mais a presença do pai enquanto ele está por perto. Mas não se engane, depois da leitura deste texto se você não for levado a pensar na figura do seu pai, e na importância da presença (ou ausência) dele pra sua vida, um dia, fatalmente, isso acontecerá.
O maior motivo de tanta reflexão sobre o assunto é que um dia os filhos também se tornam pais. Saimos da condição de sujeito de reflexão para objeto da reflexão. Aí será a vez de nossos filhos refletirem sobre nós. Eu acabo de saber que serei pai pela segunda vez. Papai! Posso dizer que é um posto difícil e muito prazeroso.

19/02/2007

Seis meses


Já parou pra pensar no significado de seis meses? É pouco ou muito? Pense! Seis meses sem beber água pode? E seis meses só bebendo água? Seis meses sem sair de casa. Seis meses sem voltar pra casa, preso em algum lugar. Seis meses olhando as estrelas. Seis meses assistindo TV sem levantar do sofá. Seis meses sem dormir. Seis meses dormindo, hibernando. Seis meses falando sem parar, qualquer coisa, sem parar. Ou seis meses sem falar, em silêncio. Seis meses comendo a mesma comida todos os dias, pipoca com suco de groselha. Ou pior, comendo no McDonalds. Urgh! Seis meses é meio ano, algo em torno de 182 dias, com 24h cada. Parece bastante, não? Mas são seis meses. Seis meses de idade, é pouco. Seis meses de um século, é pouquíssimo. Seis meses de uma eternidade não é nada. Seis meses... São seis meses. Pode ser pouco ou pode ser muito. Seis meses foi bastante! Saudade!

18/02/2007

Quase dois irmãos


Ontem falei em irmãs, hoje quero sugerir um filme brasileiro que gosto bastante: "Quase Dois Irmãos". O filme conta um pouco do surgimento do Comando Vermelho na penitenciária da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, pelo contato na prisão de presos comuns com presos políticos do regime militar. No final... Ah, não vou falar o final, mas o drama do preso político retratado no filme passa pela presença do crime organizado dentro da sua casa. O pior é que ele mesmo ajudara a criar (formar), na prisão, a organização criminosa.

17/02/2007

Irmãos que não são gêmeos


Dois irmãos, filhos dos mesmos pais, fazerem aniversário no mesmo dia, sem serem gêmeos, é coisa rara, você há de convir. Pois eu tenho duas primas, irmãs, que aniversariam no mesmo dia, e não são gêmeas. E o dia do aniversário delas é este! Minha homenagem a elas neste dia: Feliz aniversário, Juliana e Luciana!

16/02/2007

Presente

Quero falar sobre dar e receber presentes. Nem vou me referir ao estudo de Marcel Mauss sobre a relação dos atores sociais envolvidos em dar e receber presentes. Ele chamou seu trabalho de "Ensaio sobre a dádiva", que já é um clássico das ciências sociais, e é lindo.
Quero tocar nesse tema porque alguém anonimamente enviou um comentário à minha postagem anterior dizendo que na lei federal que instituiria a festinha de aniversário obrigatória às crianças, até pelo menos os 10 anos de idade, havia faltado colocar os presentes como necessários e indispensáveis a uma festa infantil. Quando escrevi a postagem anterior me pareceu óbvio que os presentes não podem ser dispensados. Mas o sr. anônimo tem razão, pois ainda há pessoas que vão às festas infantis com as mãos vazias.
Quem, quando era criança, nunca correu na porta para receber um convidado que chegava na expectativa de saber logo qual seria o presente? Ou quem nunca presenciou esta cena? E que decepção ao olhar as mãos vazias do convidado, ou ao receber apenas um tapinha na cabeça ou um aperto na bochecha. Depois dessa experiência ruim para a criança, a correria continua, a diversão continua, como se ela dissesse para si mesma: "não vai ser este cara-de-pau, este pão-duro, este insensível, que vai estragar minha festa!" É mais uma prova de que as crianças tem muito a nos ensinar!
Vamos incluir a necessidade de dar presentes às crianças na nossa lei federal. Elas merecem! Abaixo os adultos-de-mãos-vazias!