07/09/2007

Temporal




Veio vindo por detrás
Com uivos de destruição.
Escurecendo e alvoroçando.
Redemoinho de papéis e lixos.
Ventania que anuncia
O fim do calor.
De repente
Vem vindo,
Vem vindo,
Chegou.
Cobre as nossas vidas
Em trevas,
Em plena tarde.
Em pleno dia.
Molha nossas cabeças,
Corpos,
Casas,
Carros.
Derruba o que estava em pé
E parecia firme.
Tudo se mostra frágil
Ante o poder da tempestade
Que cai sobre todos.
E chove um temporal.

06/09/2007

Não compreendo tudo







Não compreendo muitas coisas na vida: são coisas incompreensíveis mesmo ou eu que não consigo dar sentido a essas coisas?!
Sei que nem tudo é pra ser compreendido. Do contrário, não haveria tempo pra viver.
Desencana!

05/09/2007

Refletir





Refletir é uma atitude
De observação e questionamento.
Não é só contemplação.
É também flexão.
Re-flexão.
Refletir é sempre auto-reflexão:
É como olhar-se no espelho antes de sair
E considerar as belezas e feiuras,
Os acertos e erros.
E mais:
Não só olhar para si próprio no espelho,
Mas também para o seu entorno.
Pode haver roupas espalhadas,
Utensílios empoeirados,
Móveis,
Pessoas.
Há sempre pessoas.
Você não precisa olhar para dentro delas
(cada um se auto-examine),
Mas para as relações e experiências mantidas por elas.
O que essas relações e experiências alheias
Podem me ensinar?
Como podem me ensinar?
Refletir é um verbo,
É uma atitude de observação
E crítica
(auto-crítica).
Refletir é uma prática.

Vamos tentar?

25/07/2007

Foto na Parede



Foto na parede indica saudade. Saudade de alguém que já se foi, e que pode até não voltar mais, ou de um momento que se quer tornar inesquecível. Seja como for, pendurar uma foto na parede é uma atitude de reverência, de gratidão e/ou contemplação. Os judeus vêem isso como idolatria, adoração de uma imagem. Prefiro entender como reconhecimento. Reconhecimento de algum momento importante vivido ou de alguém especial. Mas pode haver reconhecimento, gratidão, sem foto pendurada na parede. Sem foto. E sem parede. Que as paredes da alma, da memória, pendurem as lembranças e os lembrados. Se somos tidos como ingratos porque não reverenciamos os mais velhos ou nossos "heróis", que sejamos gratos mesmo sem estardalhaços. Que a memória funcione sempre e que lembremos com emoção as pessoas que marcaram, de perto ou de longe, nossa existência. Chega de ingratidão! Vamos verter lágrimas, estender tapetes, bater palmas, abraçar, demonstrar carinho das maneiras mais diferentes. Porque alguém sempre merece esse reconhecimento, porque alguém sempre espera esse reconhecimento. Porque amanhã precisaremos também ser reconhecidos. É a vida, que é razão, mas também emoção.
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25/07, hoje é dia lembranças!

24/07/2007

Novo Amanhecer



Ainda que problemas existam,
Ainda que o hoje seja sombrio
E o agora duvidoso,
Ainda que as normas falhem,
Ainda que...

Existe você, professor!
Que luta pra criar.
Que cria pra lutar.
Que ama ensinar.
E ensina a amar.

Existe você, professor!
Que ao sabor do deve-não-deve,
Ao sabor do pode-não-pode,
Dá sempre o melhor de si:
Abre caminhos,
Passa sozinho.
E descobre
Que ainda há muito por fazer!

Ah, professor,
Há muito que ensinar,
Há muito que aprender,
Há muito a transformar,
Enquanto se espera com fé
Um novo amanhecer!
Nele será indispensável,
Você!
Juntos vamos caminhar,
Vamos lutar
E transformar.
Juntos vamos buscar,
Cada dia,
Esse novo amanhecer!

Esmeria Pereira Reid dos Santos, 1988.
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Conforme havia prometido, publico hoje a poesia que está emoldurada e pendurada no hall de entrada da Escola de Educação Infantil Profª Esmeria Pereira Reid dos Santos, inaugurada ontem, em Macaé/RJ. Acima, uma foto da escolinha.

23/07/2007

Escola


Ontem foi inaugurada a Escola Municipal de Educação Infantil Profª Esmeria Pereira Reid dos Santos. Bela homenagem da prefeitura de Macaé à minha mãe, que depois de amanhã faria 57 anos e que faleceu há 11 meses. Faço desta postagem minha gratidão aos empreendedores dessa homenagem. Particularmente, minha gratidão à Secretária de Educação de Macaé, Milmar Madureira Pinheiro.
Ao lado, foto de duas aluninhas da escola uniformizadas.
Amanhã vou publicar aqui a poesia de minha mãe que está pregada no hall de entrada da escola.

11/07/2007

Tarefas, reflexões e humildade


Tenho andado bastante atarefado na execução de minha tese de doutorado, razão pela qual este blog anda meio desatualizado. São muitas leituras, anotações, rasuras e muitos, mas muitos pensamentos que vem e vão na tentativa de fechar alguns aspectos que ainda estão em fase de amadurecimento. Confesso que é difícil realizar as tarefas do dia-a-dia sem perder de vista o contexto social em que vivemos e a capacidade de reflexão, de crítica e auto-crítica. Mas essa dificuldade pode ser vencida com um pouco de disciplina própria. A reflexão tem de se tornar também uma tarefa cotidiana que precisa ser realizada. Basta eleger a reflexão sobre o mundo da vida e sobre nosso papel neste mundo da vida como prioridades. Reflexão sobre as crises pelas quais passamos como sociedade e como indivíduos. E crise não é sinônimo de algo ruim, pode indicar um processo de mudança, por exemplo. Toda mudança, por menor que seja, gera alguma crise.
A reflexão, que significa também auto-reflexão, deve ser uma de nossas prioridades de todo o dia. Diariamente passamos por experiências que nos dão a possibilidade do exercício da reflexão. Acontece que muitas vezes não aproveitamos essas oportunidades.
Para quem não sabe, o exercício da reflexão é o exercício da compreensão. E o exercício da compreensão só poderá ser feito com o levantamento de questões que possam nos ajudar a entender ou interpretar certas situações que passamos. Não se deve querer com a reflexão encontrar respostas, mas apontar possibilidades de compreensão de nossas crises sociais e individuais. Algumas de nossas crises individuais são sociais. E carregamos sozinhos o peso de uma crise que achamos que é só nossa porque não realizamos o exercício cotidiano de olhar para fora, de olhar para os lados, e de perceber que passamos por crises tão comuns na sociedade em que vivemos. Outras vezes diminuimos nossa responsabilidade pessoal em relação a uma determinada crise porque a entendemos como social. Mas nem sempre somos iguais, não é? Às vezes nos metemos em crises pessoais mesmo, damos vida aos nossos maiores defeitos.
A reflexão é essa tarefa de olhar para dentro e para fora ao mesmo tempo, de sondar nossas próprias intenções e compreender as atitudes alheias. As tarefas cotidianas tendem a nos tirar da prática da reflexão sim. Mas às vezes apenas justificamos a nossa alienação, a nossa não tomada de consciência sobre o mundo e sobre nosso papel no mundo, com o excesso de atividades. Pode haver reflexão mesmo em meio às atividades diárias. Aliás, a reflexão deve ser também uma atividade diária. Mas não há, nem pode haver, reflexão sem humildade. Humildade para reconhecer que tenho problemas. Humildade para entender que sou parte de uma sociedade, que o mundo não gira em torno de mim.

29/06/2007

Aniversário




Aniversário é todo dia.
Mas tem dia especial.
Um dia em que todos juntos
Celebramos o que é vital:
A vida que se foi,
A vida que se vai.
Aniversário,
É momento de alegria,
De esperança
E reflexão.
Todos os dias são vivos
Na memória de quem relembra
O passado e projeta o futuro
Num dia especial:
Aniversário.

Aniversário
É tempo de compartilhhar,
De estar com,
De dividir
E celebrar.
Viva!
Vivamos!
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Mesmo que distantes, podemos curtir juntos esse momento alegre. Conto com seu carinho, sempre.
...
Um forte abraço pra você.

28/06/2007

Criança dá trabalho


Arnaldo Antunes, ex-Titãs, fez uma música, cantada pelo grupo Palavra Cantada, chamada "Criança não trabalha, criança dá trabalho". A ênfase da música é na denúnica e combate do trabalho infantil. No clipe da música as crianças que trabalham vendendo nos sinais, como engraxates e em tantos outros lugares vão abandonando suas atividades e acompanhando um grupo de crianças que caminham e cantam o refrão da música, "Criança não trabalha, criança dá trabalho". O trabalho infantil é mesmo uma coisa deprimente e vergonhosa. E a sociedade brasileira nem é uma das piores nesse quesito. Algumas sociedades asiáticas são mais problemáticas na exploração da mão-de-obra infantil. Mas não é sobre o trabalho infantil que quero falar. Quero me prender à segunda parte do refrão: "criança dá trabalho".
Recentemente foi noticiado a agressão que uma empregada doméstica sofreu de quatro jovens de classe média do Rio de Janeiro enquanto esperava um ônibus. É claro que em grupo faz-se coisas que não se faria individualmente, há uma menor inibição do indivíduo quando ele está em grupo. Mas isso tem limite. E o limite talvez não tenha sido dado no momento adequado por quem deveria (a família). E esse limite dos pais não vem porque eles se sentem culpados de não poder dar atenção aos filhos, já que trabalham cada vez mais e tem menos tempo a dedicar à criação dos filhos. Mas, como diz a música, criança dá trabalho. E dá mesmo.
Vivemos num tempo em que as crianças, que amanhã serão adolescentes e jovens, fazem o que querem e o menor sinal de repressão dos pais é visto como violência ou como geradora de traumas físicos e emocionais. O resultado é que constitue-se uma tirania da infância em casa e, como não poderia deixar de ser, nos lugares públicos. É a geração ilimitada, que faz o que quer, quando quer e como quer. O resultado está aí, na agressão sofrida pela doméstica, no massacre de Columbine, nas ameaças sofridas pelos professores por parte de seus alunos...

27/06/2007

Ralo


Pra onde vai a água suja que escoa pelo ralo? Ninguém se pergunta algo assim. Também se questionássemos até isso, provavelmente não viveríamos. É sobre algo como um ralo, que leva a água suja para não se sabe onde, que escrevi na postagem de ontem. O melhor, para continuarmos vivendo bem com nossas consciências, é não saber onde deságua a boca do ralo. Mas sempre tem um rato que desce pelo ralo e vai até o desaguadouro. E sempre tem um rato que sobe pela tampa do bueiro e nos ameaça com suas doenças infecto-contagiosas. É mais ou menos assim a fossa da desigualdade no Brasil. Quem está na superfície produz lama, mas não quer saber onde ela vai cair. Quem está dentro do esgoto quer saber de onde vem tanta podridão. "Provavelmente, o lugar de produção da sujeira deve ser mais rico (em todos os sentidos) que aqui embaixo." Mas o rato que tenta sair do esgoto para se alimentar da sujeira em sua origem, não sabe que quem produz a sujeira não a suporta, não a quer por perto. Quem produz a sujeiro lava suas mãos para tirar qualquer vestígio que teime em se prender à vida. E deseja que a sujeira retirada das mãos vá para bem longe, caia nas correntes de água que vão até o mais profundo da terra, onde não se imagina. Mas o sujeira cai ao seu lado sem ele perceber. E ele vive nojentamente, sem perceber.
A desigualdade social abre um ralo na nossa vida cotidiana por onde escoa piadas preconceituosas, brincadeiras humilhantes, abraços hipócritas, ajudas inescrupulosas, desvios de verbas públicas, tráfico de influências, clientelismos, homofobias de todo tipo, terrorismo, intolerâncias... E todo esse material nojento vai lavando a nossa alma e levando nosso orgulho de ser diferente, de ser melhor. Só não leva o medo dos ratos saírem dos esgotos e estragarem o nosso banquete. A pobreza se torna uma ameaça numa sociedade onde a riqueza é mal distribuída. A sujeira que sai das mãos dos ricos cai sobre os pobres. Parece maniqueísmo, mas não é. Não no Brasil. O crime de colarinho branco, as corrupções políticas, crimes típicos de quem tem acesso ao poder, se reproduz com alterações entre os que não tem nenhum poder. Quem não tem poder pega em armas. Sem percebe que seu crime é punido com mais rigor que o crime cometido por aqueles que têm as mãos sujas. O criminoso que está dentro do bueiro está todo sujo de lama. O criminoso que está nas assembléias políticas tem só as mãos sujas. Não tem mais, ele acabou de lavar. A sujeira de suas mãos agora limpas faz mergulhar os ratos do esgoto em merda. É o que sobra aos que estão no fundo. E esses que estão no fundo, vai continuar no fundo. Porque quando subirem à superfície e incomodarem os ratos limpos, serão rechaçados com força, serão presos ou empurrados de volta à lama.
O segredo da boa convivência até aqui tem sido fingir que os ratos de cima não existem. Eles fazem o mesmo com os ratos de baixo. Isso vai mantendo a ordem e a harmonia entre todos.
Mas essa harmonia não existe, nunca existiu. Sem dúvida, esse ralo precisa ser tapado. Sob pena de continuarmos os mesmos sempre: sociedade desigual.