Hoje quero pedir licença aos meus quatro leitores assíduos para falar de mim. Sei que falar de si mesmo é meio narcísico, mas preciso me desconstruir urgentemente, paulatinamente. E vou usar vocês para fazer uma análise (uma auto-análise) e desencadear algumas mudanças. Finjo que me ouvem (que me lêem) e essa imaginação é suficiente para me fazer crer que vocês compreendem o que digo e me apoiam nas mudanças pretendidas e necessárias.
Tenho publicado nesse blog análises sociológicas e reflexões poéticas (ou seriam análises poéticas e reflexões sociológicas?) a partir de minhas próprias experiências e crises existenciais, afetivas, profissionais, econômicas... Como não gosto muito de compartimentalizar a vida (o que não significa que nunca o faça) evito estabelecer um dilema existencial só no âmbito da intimidade, ou um problema profissional só no âmbito do trabalho, ou mesmo uma crise afetiva só no âmbito da conjugalidade, como se esses distintos âmbitos (e outros tantos) não estivessem interligados, trocando influências entre si. Entendo a vida como uma integralidade multifacetada (complexa) e cambiável: somos um todo com múltiplas caras e em constante mudança (nem sempre pra melhor).
Tenho tentado, embora esteja sendo difícil/doloroso (pra mim e para os meus chegados), fazer a ruptura com algumas concepções arraigadas a partir de minha própria trajetória. E é claro que não quero jogar tudo fora, mas algumas coisas eu preciso e quero mudar, sob pena de auto-flagelo e auto-degeneração. Por exemplo, preciso mudar a auto-censura que me imponho na manifestação de minhas idéias e o auto-controle de minhas ações, que levam sempre em consideração o outro antes de mim mesmo.
Disse anteriormente que tenho publicado análises e reflexões nesse blog. Mas, ainda há em mim uma auto-censura moral-religiosa-materna que me impede de publicar tudo que escrevo. E isso tem me atormentado. Então, depois de tudo que escrevi até aqui, encerro, de forma seca, dizendo que tenho escrito também poesias eróticas que passo também a publicar a partir de amanhã, tirando de mim o pudor e passando pra vocês. Até!
...........................................
Escrever um texto para avisar que minha publicação vai mudar (independentemente se pra melhor ou pior) demonstra bem a moral que ainda carrego, de preocupação excessiva com o outro (mesmo que esse outro seja indefinido). Para se ter uma idéia, a primeira versão final desse texto ficou com o dobro do tamanho, mas resolvi cortar (embora não tenha jogado fora) uma parte grande em que reconstituia criticamente minha própria trajetória. Não tive coragem de publicar o texto na íntegra com medo de magoar pessoas queridas, que é uma forma de auto-proteção.
20/12/2010
Deriva
Minha casa sempre foi volante,
Circulante.
E me circundava de modo agradável,
Me tornando inabalável.
Minha casa não é mais a mesma.
Ela nunca foi minha.
E sigo atento,
Em meio ao tormento,
Esperando o momento:
E nem sei se vem;
E nem sei se volta.
O vento me leva pra onde sopra.
E quando não se sabe o que se quer,
Qualquer um pode meter a colher.A deriva parece ser o estado certo
E as pedras passam bem perto.
Mas busco me guiar
Mas busco me guiar
Tentando imaginar,
Pensando em arriscar.Mas sem querer sair do mar,
Que é o meu meio.
Que é o meu fim.Mas faço previsões olhando as estrelas,
Que são muitas.
Tantas que me confundem.
E não sei se vejo certo
O que está por perto,
O que está sobre mim.
Mas olho mesmo assim,
Com vontade de entender,
De compreender.
Com vontade de abraçar,
De acertar,
Ou errar,
De me soltar.
Só não sei onde vou parar,
Não sei se vou parar
De vagar.
19/12/2010
O fim da autoridade?
A autoridade é uma forma de poder que se exerce legitimamente a partir de uma atribuição (legitimadora) do próprio grupo social. Vivemos num período em que a autoridade é questionada com maior intensidade do que era até meados do século passado, quando esse questionamento restringia-se à autoridade política. Hoje a crítica se dá a qualquer tipo de autoridade, da paterna à professoral, passando pela autoridade política, profissional, religiosa, acadêmica e outras. A crise de autoridade hoje está disseminada por toda a sociedade.O mais interessante e paradoxal é que numa sociedade cética como a de hoje, há uma valorização cada vez maior da autoridade, transformada em mito e mercadoria para consumo, que é também uma forma de desconstrução da própria autoridade já que consumir é gastar, destruir. Desafiamos a autoridade de alguém tentando provar que ela não tem a autoridade que aparenta ou buscando reconhecer o valor dessa autoridade. Quando alguém consegue provar, depois de testada, que merece a autoridade que tem, passa a ser reverenciada sem questionamentos, produzindo um paradoxo: a crise de autoridade é uma forma de desconstrução da autoridade a partir do questionamento; uma vez testada e aprovada, essa autoridade passa agora a ser mitificada e acreditada, dando margem ao surgimento de discursos carismáticos que arrebanham multidões de seguidores. Em meio a uma crise generalizada de confiança e autoridade, as pessoas ficam suscetíveis à crença no discurso de uma autoridade que fora provada e aprovada, transformando-a em guru, amigo(a) ou cônjuge. Afinal de contas, num período de escassez de autoridade, viver junto a uma é um luxo. É o consumo do exótico.
18/12/2010
Ensino-aprendizagem e vice-versa
Woody Allen, numa cena esplendorosa de seu filme Crimes e Pecados, leva sua sobrinha ao cinema e na saída, enquanto esperava um taxi em meio a uma chuva torrencial, vira-se pra ela e diz que iria "lhe dar a lição do dia: não ligue para o que os seus professores disserem, não preste atenção. Apenas veja como são. É assim que aprenderá sobre a vida". Que peso, não? E que verdade!
Se todos os alunos resolvessem seguir o conselho de Woody Allen, daríamos menos valor aos conteúdos desenvolvidos em sala de aula e mais atenção às relações sociais. Mas, por outro lado, quanta frustração não seria produzida ao perceber-se que a autoridade do professor esbarra em sua própria vida! Embora isso também fosse bom para desconstruir mitos e ilusões.
Melhor ainda seria se os professores também se sentissem alunos, e buscassem conhecer mais. Há tanto por aprender também com os alunos... E se eles soubessem o quanto podem ensinar, limitariam a arrogância professoral. E as aulas seriam mais dialoguais, mais participativas, mais humanas. Quem sabe não começamos a mudar essa relação de ensino-aprendizagem?
Se todos os alunos resolvessem seguir o conselho de Woody Allen, daríamos menos valor aos conteúdos desenvolvidos em sala de aula e mais atenção às relações sociais. Mas, por outro lado, quanta frustração não seria produzida ao perceber-se que a autoridade do professor esbarra em sua própria vida! Embora isso também fosse bom para desconstruir mitos e ilusões.
Melhor ainda seria se os professores também se sentissem alunos, e buscassem conhecer mais. Há tanto por aprender também com os alunos... E se eles soubessem o quanto podem ensinar, limitariam a arrogância professoral. E as aulas seriam mais dialoguais, mais participativas, mais humanas. Quem sabe não começamos a mudar essa relação de ensino-aprendizagem?
17/12/2010
Pensar, escrever e publicar
I. Pensar.
Nem tudo o que penso, escrevo.
E me arrependo de não anotar um lampejo,
Que vem à mente,
Repentinamente.
Já cheguei a dormir com um caderno do lado,
E acordava de noite inteiramente atordoado.
Mas achei que fosse muita obssessão
E abandonei a anotação.
Como ler,
Estudar,
Pensar,
Observar
E pesquisar,
São a minha transpiração,
Às vezes é impossível resistir à inspiração.
Mas nem sempre ela vem,
E sinto uma falta danada quando fico sem.
É como se ela me desejasse do jeito que sou,
Do jeito que estou.
E chegasse nas pontas dos pés,
Sem se anunciar,
Pra me estimular.
Ela vem bem devagar,
Como se quisesse me enfeitiçar
Pra tirar minha razão
E me dar uma criação.
E crio a expectativa de que ela volte,
Se solte
E não se vá.
Será que dá?
II. Escrever
Nem tudo o que escrevo, publico.
Dez por cento do que escrevo está protegido.
Embora não saiba de que,
Nem de quem.
Guardo algumas idéias pra me preservar,
Pra não escandalizar.
Gostaria de ser mais livre pra pensar e escrever.
Mesmo sem ser ouvido, tenho tanto a dizer...
Preciso tanto de você!...
Mas esse controle do escrito
É algo que foi produzido.
E pior, é algo que foi consentido.
E hoje sofro pra me desconstruir,
Para produzir e dividir.
E tendo a achar que ninguém vai se importar,
Que ninguém vai gostar,
Que sou muito elementar.
E luto contra mim mesmo,
Contra a dor de ser eu mesmo:
Responsável e controlado.
III. Publicar
Nem tudo o que publico, me identifico.
Há texto esquisito.
E não são poucos,
São loucos.
Loucos dos dois lados,
Por parte de quem escreve
E por parte de quem lê.
Ou melhor, de como se lê.
Quando vejo um comentário,
Reparo como é libertário
O olhar do lado de lá.
E mesmo que não tenha querido dizer
As coisas soam como se tivessem sido ditas.
E aquilo que queria fazer,
Fica pra trás sem ninguém saber.
Por isso é preciso afinidade,
Entre mim e você.
Ou então,
Faça a sua tradução.
E me liberte da tradição.
Identidade é liberdade,
Do leitor.
/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\/\
Um dia tomo coragem e vivo com mais libertinagem, libertando ainda mais meus pensamentos e sentimentos. E não me envergonharei de publicação em que não haja identificação. Verei tudo como criação e situação.
Nem tudo o que penso, escrevo.
E me arrependo de não anotar um lampejo,
Que vem à mente,
Repentinamente.
Já cheguei a dormir com um caderno do lado,
E acordava de noite inteiramente atordoado.
Mas achei que fosse muita obssessão
E abandonei a anotação.
Como ler,
Estudar,
Pensar,
Observar
E pesquisar,
São a minha transpiração,
Às vezes é impossível resistir à inspiração.
Mas nem sempre ela vem,
E sinto uma falta danada quando fico sem.
É como se ela me desejasse do jeito que sou,
Do jeito que estou.
E chegasse nas pontas dos pés,
Sem se anunciar,
Pra me estimular.
Ela vem bem devagar,
Como se quisesse me enfeitiçar
Pra tirar minha razão
E me dar uma criação.
E crio a expectativa de que ela volte,
Se solte
E não se vá.
Será que dá?
II. Escrever
Nem tudo o que escrevo, publico.
Dez por cento do que escrevo está protegido.
Embora não saiba de que,
Nem de quem.
Guardo algumas idéias pra me preservar,
Pra não escandalizar.
Gostaria de ser mais livre pra pensar e escrever.
Mesmo sem ser ouvido, tenho tanto a dizer...
Preciso tanto de você!...
Mas esse controle do escrito
É algo que foi produzido.
E pior, é algo que foi consentido.
E hoje sofro pra me desconstruir,
Para produzir e dividir.
E tendo a achar que ninguém vai se importar,
Que ninguém vai gostar,
Que sou muito elementar.
E luto contra mim mesmo,
Contra a dor de ser eu mesmo:
Responsável e controlado.
III. Publicar
Nem tudo o que publico, me identifico.
Há texto esquisito.
E não são poucos,
São loucos.
Loucos dos dois lados,
Por parte de quem escreve
E por parte de quem lê.
Ou melhor, de como se lê.
Quando vejo um comentário,
Reparo como é libertário
O olhar do lado de lá.
E mesmo que não tenha querido dizer
As coisas soam como se tivessem sido ditas.
E aquilo que queria fazer,
Fica pra trás sem ninguém saber.
Por isso é preciso afinidade,
Entre mim e você.
Ou então,
Faça a sua tradução.
E me liberte da tradição.
Identidade é liberdade,
Do leitor.
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Um dia tomo coragem e vivo com mais libertinagem, libertando ainda mais meus pensamentos e sentimentos. E não me envergonharei de publicação em que não haja identificação. Verei tudo como criação e situação.
16/12/2010
Embarbar
Minha barba toma minha cara,
E eu não faço nada.
Ela contorna a minha boca
Impedindo a minha fala.
Sobe margeando a orelha
E vai até à olheira.
E se esparrama no pescoço,
Atrapalhando meu almoço.
Minha barba esconde a minha cara
E mostra a minha alma.
______________________________
Imagem: Auto-retrato do artista Henri Matisse feito em óleo sobre tela. (1906)
E eu não faço nada.
Ela contorna a minha boca
Impedindo a minha fala.
Sobe margeando a orelha
E vai até à olheira.
E se esparrama no pescoço,
Atrapalhando meu almoço.
Minha barba esconde a minha cara
E mostra a minha alma.
______________________________
Imagem: Auto-retrato do artista Henri Matisse feito em óleo sobre tela. (1906)
15/12/2010
Será que se quer uma justiça democrática e acessível?
Meu objetivo aqui é refletir sobre o artigo do professor João Baptista Herkenhoff, publicado na edição de ontem de A Gazeta. Quero tecer críticas a um de meus inspiradores, o professor Herkenhoff, ciente de que no Brasil o debate acadêmico é visto como ataque pessoal. Mas não comungo dessa idéia.
Herkenhoff aponta em seu artigo quatro condições para uma justiça democrática: 1) justiça acessível a todos, pensando o judiciário como um espaço público; 2) diminuição do formalismo exigido nos trajes dos frequentadores do judiciário, contextualizando o judiciário à nossa realidade desigual; 3) redução do hermetismo da linguagem jurídica, simplificando a linguagem do direito para uma melhor compreensão de seus enunciados; 4) decisões judiciais motivadas, o que, de certa maneira, remete ao primeiro ponto, tornando o judiciário um espaço público, controlado externamente pela sociedade a partir das decisões motivadas dos magistrados.
As condições acima apontadas poderiam ser agrupadas em duas grandes barreiras que dificultam o acesso à justiça: a cultura personalista brasileira (primeira e quarta condições) e as linguagens descontextualizadas do direito brasileiro (segunda e terceira condições) – linguagem visual (roupas dos profissionais do direito e arquitetura dos “palácios” da justiça), oral (uso do latim e de termos que assumem definições próprias para o direito) e escrita (decisões judiciais não motivadas, como se viessem de uma autoridade divina inquestionável).
Minha contribuição aqui é integrar essas duas grandes barreiras, como duas faces de uma mesma moeda. De um lado, temos um estado brasileiro (e o judiciário é um dos três poderes do estado) historicamente montado por grupos elitizados da sociedade brasileira que definem, sem participação popular, as mudanças institucionais consideradas necessárias para implementação de mudanças sociais. Isso produz um grupo dirigente que se vê apartado do restante da sociedade (povo). Esse fechamento dos grupos sociais dirigentes acontece também no judiciário, tornando-o distante da realidade social e resistente a controles externos de suas atividades.
De outro lado, temos um direito que quando produz e reproduz linguagens exóticas e esotéricas (que começam a ser aprendidas e apreendidas nas faculdades de direito), distancia-se dos cidadãos comuns, reforçando o papel prestigioso das profissões jurídicas na condução dos processos demudança social, de novo sem participação popular.
A questão é: será que se quer uma justiça democrática e acessível? Será que as profissões jurídicas não se organizam para defender, corporativamente, seus proprios interesses visando a manutenção de seu poder social? Se a resposta a essa última questão for positiva, como demonstrarei em outro artigo, temos na ética profissional do direito um espaço de reprodução de classes, tornando o acesso a justiça mais uma retórica do direito.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
O artigo do professor Herkenhoff está publicado em: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/12/722668-justica+democratica+e+acessivel.html
Herkenhoff aponta em seu artigo quatro condições para uma justiça democrática: 1) justiça acessível a todos, pensando o judiciário como um espaço público; 2) diminuição do formalismo exigido nos trajes dos frequentadores do judiciário, contextualizando o judiciário à nossa realidade desigual; 3) redução do hermetismo da linguagem jurídica, simplificando a linguagem do direito para uma melhor compreensão de seus enunciados; 4) decisões judiciais motivadas, o que, de certa maneira, remete ao primeiro ponto, tornando o judiciário um espaço público, controlado externamente pela sociedade a partir das decisões motivadas dos magistrados.
As condições acima apontadas poderiam ser agrupadas em duas grandes barreiras que dificultam o acesso à justiça: a cultura personalista brasileira (primeira e quarta condições) e as linguagens descontextualizadas do direito brasileiro (segunda e terceira condições) – linguagem visual (roupas dos profissionais do direito e arquitetura dos “palácios” da justiça), oral (uso do latim e de termos que assumem definições próprias para o direito) e escrita (decisões judiciais não motivadas, como se viessem de uma autoridade divina inquestionável).
Minha contribuição aqui é integrar essas duas grandes barreiras, como duas faces de uma mesma moeda. De um lado, temos um estado brasileiro (e o judiciário é um dos três poderes do estado) historicamente montado por grupos elitizados da sociedade brasileira que definem, sem participação popular, as mudanças institucionais consideradas necessárias para implementação de mudanças sociais. Isso produz um grupo dirigente que se vê apartado do restante da sociedade (povo). Esse fechamento dos grupos sociais dirigentes acontece também no judiciário, tornando-o distante da realidade social e resistente a controles externos de suas atividades.
De outro lado, temos um direito que quando produz e reproduz linguagens exóticas e esotéricas (que começam a ser aprendidas e apreendidas nas faculdades de direito), distancia-se dos cidadãos comuns, reforçando o papel prestigioso das profissões jurídicas na condução dos processos demudança social, de novo sem participação popular.
A questão é: será que se quer uma justiça democrática e acessível? Será que as profissões jurídicas não se organizam para defender, corporativamente, seus proprios interesses visando a manutenção de seu poder social? Se a resposta a essa última questão for positiva, como demonstrarei em outro artigo, temos na ética profissional do direito um espaço de reprodução de classes, tornando o acesso a justiça mais uma retórica do direito.
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O artigo do professor Herkenhoff está publicado em: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2010/12/722668-justica+democratica+e+acessivel.html
14/12/2010
Além
Hoje, nada tem valor.
Nada tem mais valor.
Nada tem mais valor
Que você.
E nem sei como dizer.
Se alguma coisa faltar na mesa,
Nem vou sentir.
Mas sem você,
Não dá pra ser.
Não dá pra viver.
Você vai e me leva junto.
Você vem e me deixa mudo.
E busco uma razão que me faça feliz.
E busco uma razão que eu faça feliz.
E não consigo ir além.
Além de você.
Só eu.
Só com você.
Nada tem mais valor.
Nada tem mais valor
Que você.
E nem sei como dizer.
Se alguma coisa faltar na mesa,
Nem vou sentir.
Mas sem você,
Não dá pra ser.
Não dá pra viver.
Você vai e me leva junto.
Você vem e me deixa mudo.
E busco uma razão que me faça feliz.
E busco uma razão que eu faça feliz.
E não consigo ir além.
Além de você.
Só eu.
Só com você.
13/12/2010
Sobre quebra-quebra de ônibus e cultura política brasileira
Na semana passada a imprensa divulgou amplamente notícias de violências de grupos da sociedade brasileira contra o poder público. O caso mais grave, sem dúvida, foi o da ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, o que justificaria um artigo só para tratar daquela questão. Mas no artigo de hoje pretendo refletir especificamente sobre o problema do quebra-quebra de ônibus na Grande Vitória relacionando-o à cultura política brasileira. Para isso, vou argumentar que a destruição de ônibus é legítima, embora não seja desejável.
Levando-se em consideração o problema do protagonismo político da sociedade brasileira, que é tradicionalmente vista como uma sociedade politicamente apática – que não participa efetivamente da arena política e não luta por seus direitos – é preciso considerar que destruir o patrimônio público, como foi feito pelos manifestantes semana passada, não é exatamente um sinal de apatia ou comodismo. Seria mais cômodo para esses brasileiros ficar em casa esperando que a solução do seu problema de transporte e de renda – já que seu orçamento mensal estará comprometido por suas faltas e seus atrasos ao trabalho – viesse de cima para baixo – do estado, dos patrões, do judiciário ou mesmo de Deus. Convenhamos, poucos se disporiam a tomar as ruas e promover cenas de enfrentamento com a polícia e destruição de patrimônio público, expondo-se à violência policial, aos olhares atentos dos jornalistas e cliques rápidos de repórteres fotográficos, senão para lutar por um bem que se considerasse maior: a subsistência própria e familiar. Digo isso para desarmar desde já olhares preconceituosos e criminalizantes sobre o quebra-quebra realizado na semana passada.
A história brasileira está cheia de exemplos de movimentos sociais contestatórios, desde os mais pacíficos aos mais violentos, e todos com um engajamento inquestionável de grupos da sociedade militando pela resistência política e transformação social. Outra coisa que há em comum entre esses movimentos sociais é que, com raras exceções, todos eles foram sufocados ou dissipados pelo aparato de violência estatal – a violência permitida –, seja em nível municipal, estadual e/ou federal. Do movimento elitista conhecido como Inconfidência Mineira ao maior movimento popular do Brasil hoje, o MST, passando por movimentos messiânicos como Canudos e Contestado e movimentos populares ainda pouco conhecidos como o dos atingidos por barragens e o dos seringueiros e outros habitantes de florestas, entre outros tantos, os movimentos sociais no Brasil sempre foram vistos como uma ameaça à ordem.
Entre nós a democracia é historicamente identificada com bagunça, confusão ou desordem, em suma, como negação da ordem. De uma ordem que está no lema de nossa bandeira – porque inscrita antes em nossa cultura política – e que precisa ser mantida a qualquer custo, justificando inclusive a existência de um estado fortemente aparelhado para garanti-la para a obtenção do conseqüente progresso. Entre nós há uma crença de que da ordem advirá o progresso. O que significa a contrario sensu, que não haveria possibilidade de experimentar o tal progresso a partir da democracia, já que para nós ela carece da disciplina necessária para realização do diálogo.
Entendo democracia – a partir de uma abordagem sociológica – como espaço social que tende a valorizar conflitos e dissensos como importante patamar inicial para construção de pactos sociais mínimos de existência (ou constituição) da própria idéia de sociedade como coletividade. Quer dizer, sem conflitos não há democracia; toda relação entre iguais – e os cidadãos são os iguais, os sujeitos de direito de uma sociedade – é, necessariamente, uma relação conflituosa. E isso não é ruim, pelo contrário, nos faz engendrar formas de administrar nossos dissensos para construção de consensos.
Voltando ao problema do quebra-quebra de ônibus – e atenção que estou considerando isso um problema – para deixar mais claro meu argumento nessa reflexão, a destruição do patrimônio público pode ser lida como um grito desesperado de uma sociedade que não encontra espaços sociais disponíveis para manifestação direta de suas insatisfações. Não temos espaços sociais democráticos que absorvam as demandas sociais de alguns grupos da sociedade para constituição de consensos. Isso faz com que toda vez que grupos sociais menos prestigiosos da sociedade – populações marginalizadas e/ou residentes em periferias urbanas ou espaços rurais – precisem chamar a atenção para a necessidade de dialogar sobre suas próprias condições, o façam de forma violenta. Na verdade não é uma violência intrínseca a esses grupos sociais – como alguns pretendem sugerir –, mas uma violência “natural” ou lógica de uma sociedade que não consegue – ou não quer – construir canais de comunicação para compreensão dos problemas vividos pelos grupos sociais periféricos e incorporação desses grupos sociais na arena democrática.
Quero, então, chamar a atenção para a ausência de espaços democráticos de contestação na sociedade brasileira, o que dificulta a sociedade de contestar de forma direta, devendo fazê-lo, sempre que preciso, de forma mediada ou indireta, via judiciário, Ministério Público, políticos, enfim, por aqueles que já detêm o poder numa sociedade tão desigual como a nossa. Essa atuação política mediada, tutelada, da sociedade brasileira é, por um lado, uma forma de cooptação das bandeiras de lutas sociais para dentro da burocracia estatal, sufocando a legitimidade dos movimentos sociais, e, por outro lado, de reprodução/manutenção dos lugares sociais de poder, mantendo a hierarquia que caracteriza a nossa sociedade.
Se o discurso da necessidade do acirramento da repressão estatal aos grupos sociais que promovem manifestações políticas violentas aparece como dominante na mídia, apoiado pelas classes médias e altas, isso se deve muito mais à nossa incapacidade de reconhecer os problemas sociais pelas quais passam essas pessoas que parecem tão distantes de nós. Embora estejam cotidianamente a nosso lado – como empregadas domésticas, pedreiros, faxineiras, babás, atendentes etc. – esses brasileiros sofrem duplo problema: são vistos como cidadãos de terceira classe e não dispõem de instrumentos adequados para manifestação de seus próprios interesses. O resultado é o aparecimento do discurso fácil da criminalização dos movimentos sociais e da pobreza como forma de contenção de uma violência cujas causas não estão nas classes tidas como violentas, mas na própria estrutura social desigual em que vivemos.
A violência produzida por grupos sociais menos abastados, destruindo patrimônio público, deve ser vista como uma reação legítima dos que não se vêem como iguais, mas como sub-cidadãos, que percebem que a democracia não se realiza em nossa prática social e que o poder público privilegia algumas classes em detrimento de outras. A ausência do poder público na vida dessas pessoas – e o transporte coletivo é uma das poucas manifestações do poder público em suas vidas – produz a reação violenta assistida na semana passada. E se essa violência é uma reação, isso significa que enquanto não mudarmos as formas de reconhecimento dos problemas vividos por esses grupos sociais subalternizados, provavelmente veremos ainda outras tantas cenas legítimas, embora não desejáveis, de quebra-quebra de patrimônios públicos. Esse problema é nosso!
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Levando-se em consideração o problema do protagonismo político da sociedade brasileira, que é tradicionalmente vista como uma sociedade politicamente apática – que não participa efetivamente da arena política e não luta por seus direitos – é preciso considerar que destruir o patrimônio público, como foi feito pelos manifestantes semana passada, não é exatamente um sinal de apatia ou comodismo. Seria mais cômodo para esses brasileiros ficar em casa esperando que a solução do seu problema de transporte e de renda – já que seu orçamento mensal estará comprometido por suas faltas e seus atrasos ao trabalho – viesse de cima para baixo – do estado, dos patrões, do judiciário ou mesmo de Deus. Convenhamos, poucos se disporiam a tomar as ruas e promover cenas de enfrentamento com a polícia e destruição de patrimônio público, expondo-se à violência policial, aos olhares atentos dos jornalistas e cliques rápidos de repórteres fotográficos, senão para lutar por um bem que se considerasse maior: a subsistência própria e familiar. Digo isso para desarmar desde já olhares preconceituosos e criminalizantes sobre o quebra-quebra realizado na semana passada.
A história brasileira está cheia de exemplos de movimentos sociais contestatórios, desde os mais pacíficos aos mais violentos, e todos com um engajamento inquestionável de grupos da sociedade militando pela resistência política e transformação social. Outra coisa que há em comum entre esses movimentos sociais é que, com raras exceções, todos eles foram sufocados ou dissipados pelo aparato de violência estatal – a violência permitida –, seja em nível municipal, estadual e/ou federal. Do movimento elitista conhecido como Inconfidência Mineira ao maior movimento popular do Brasil hoje, o MST, passando por movimentos messiânicos como Canudos e Contestado e movimentos populares ainda pouco conhecidos como o dos atingidos por barragens e o dos seringueiros e outros habitantes de florestas, entre outros tantos, os movimentos sociais no Brasil sempre foram vistos como uma ameaça à ordem.
Entre nós a democracia é historicamente identificada com bagunça, confusão ou desordem, em suma, como negação da ordem. De uma ordem que está no lema de nossa bandeira – porque inscrita antes em nossa cultura política – e que precisa ser mantida a qualquer custo, justificando inclusive a existência de um estado fortemente aparelhado para garanti-la para a obtenção do conseqüente progresso. Entre nós há uma crença de que da ordem advirá o progresso. O que significa a contrario sensu, que não haveria possibilidade de experimentar o tal progresso a partir da democracia, já que para nós ela carece da disciplina necessária para realização do diálogo.
Entendo democracia – a partir de uma abordagem sociológica – como espaço social que tende a valorizar conflitos e dissensos como importante patamar inicial para construção de pactos sociais mínimos de existência (ou constituição) da própria idéia de sociedade como coletividade. Quer dizer, sem conflitos não há democracia; toda relação entre iguais – e os cidadãos são os iguais, os sujeitos de direito de uma sociedade – é, necessariamente, uma relação conflituosa. E isso não é ruim, pelo contrário, nos faz engendrar formas de administrar nossos dissensos para construção de consensos.
Voltando ao problema do quebra-quebra de ônibus – e atenção que estou considerando isso um problema – para deixar mais claro meu argumento nessa reflexão, a destruição do patrimônio público pode ser lida como um grito desesperado de uma sociedade que não encontra espaços sociais disponíveis para manifestação direta de suas insatisfações. Não temos espaços sociais democráticos que absorvam as demandas sociais de alguns grupos da sociedade para constituição de consensos. Isso faz com que toda vez que grupos sociais menos prestigiosos da sociedade – populações marginalizadas e/ou residentes em periferias urbanas ou espaços rurais – precisem chamar a atenção para a necessidade de dialogar sobre suas próprias condições, o façam de forma violenta. Na verdade não é uma violência intrínseca a esses grupos sociais – como alguns pretendem sugerir –, mas uma violência “natural” ou lógica de uma sociedade que não consegue – ou não quer – construir canais de comunicação para compreensão dos problemas vividos pelos grupos sociais periféricos e incorporação desses grupos sociais na arena democrática.
Quero, então, chamar a atenção para a ausência de espaços democráticos de contestação na sociedade brasileira, o que dificulta a sociedade de contestar de forma direta, devendo fazê-lo, sempre que preciso, de forma mediada ou indireta, via judiciário, Ministério Público, políticos, enfim, por aqueles que já detêm o poder numa sociedade tão desigual como a nossa. Essa atuação política mediada, tutelada, da sociedade brasileira é, por um lado, uma forma de cooptação das bandeiras de lutas sociais para dentro da burocracia estatal, sufocando a legitimidade dos movimentos sociais, e, por outro lado, de reprodução/manutenção dos lugares sociais de poder, mantendo a hierarquia que caracteriza a nossa sociedade.
Se o discurso da necessidade do acirramento da repressão estatal aos grupos sociais que promovem manifestações políticas violentas aparece como dominante na mídia, apoiado pelas classes médias e altas, isso se deve muito mais à nossa incapacidade de reconhecer os problemas sociais pelas quais passam essas pessoas que parecem tão distantes de nós. Embora estejam cotidianamente a nosso lado – como empregadas domésticas, pedreiros, faxineiras, babás, atendentes etc. – esses brasileiros sofrem duplo problema: são vistos como cidadãos de terceira classe e não dispõem de instrumentos adequados para manifestação de seus próprios interesses. O resultado é o aparecimento do discurso fácil da criminalização dos movimentos sociais e da pobreza como forma de contenção de uma violência cujas causas não estão nas classes tidas como violentas, mas na própria estrutura social desigual em que vivemos.
A violência produzida por grupos sociais menos abastados, destruindo patrimônio público, deve ser vista como uma reação legítima dos que não se vêem como iguais, mas como sub-cidadãos, que percebem que a democracia não se realiza em nossa prática social e que o poder público privilegia algumas classes em detrimento de outras. A ausência do poder público na vida dessas pessoas – e o transporte coletivo é uma das poucas manifestações do poder público em suas vidas – produz a reação violenta assistida na semana passada. E se essa violência é uma reação, isso significa que enquanto não mudarmos as formas de reconhecimento dos problemas vividos por esses grupos sociais subalternizados, provavelmente veremos ainda outras tantas cenas legítimas, embora não desejáveis, de quebra-quebra de patrimônios públicos. Esse problema é nosso!
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12/12/2010
Demônios
Meu objetivo não é ofender ninguém, mas hoje gostaria de falar dos demônios. Se não for pra você, nem leia. Vou seguir escrevendo para outros demônios. Agora, se me perguntar por que demônios resolvi escrever sobre isso, não vou saber responder. Acho que estava inspirado, quer dizer possuído.
Demônios existem. Eu mesmo conheço alguns. Eles estão por aí. E foram criados para serem nossos bodes expiátórios. Embora não saiba por que associar os demônios a essa figuras simpáticas e tipicamente nordestinas que são os bodes? Deve ser por causa do chifre pontiagudo. Mas vamos em frente, que de boas intenções o inferno está cheio. Os demônios produzem o mal. Então, quando realizamos o mal, também somos demônios. Mas preferimos colocar a culpa nos demônios (nos outros demônios, os invisíveis). É menos penoso pra nós quando nos colocamos como vítimas de um movimento espiritual (ínfernal) que conspira contra nós.
Demônios são seres comunicativos e antenados (e antenados aqui não tem relação com os chifres): são ligados em tecnologias de ponta e participam de redes sociais. São orkuts e facebooks demoníacos. Assim ficam sabendo dos problemas das pessoas e aparecem na hora certa para dar aquela forcinha, aquele empurrãozinho abismo abaixo.
Uma coisa que me intriga é como os demônios possuem também objetos? Há o demônio da garrafa de cerveja (e de outras bebidas alcoolicas), o demônio do cigarro (e de outros tipos de fumos, se bem que estejamos em pleno furor anti-tabagista), o demônio da TV (aberta, porque a TV fechada é um paraíso), o demônio do jogo (incluindo as bolsas de valores), o demônio da saúde pública (um dos mais assustadores) e o demônio do consumismo (e de outros ismos). E há outros tantos demônios encarnados em coisas materiais as mais variadas. Todos sempre querendo fazer o mal a algum incauto.
Demônios são também solidários. E nesse aspecto, temos muito a aprender com eles. Por exemplo, quando abrimos uma garrafa de cerveja, libertamos o demônio preso ali. Depois de beber algumas garrafas, os demônios libertos se juntam para libertar o demônio que está preso dentro de nós. E aí soltamos a língua (e outras coisas mais). Quando estamos possuídos pelos demônios das garrafas de bebidas alcoolicas, começamos, por exemplo, a falar até sobre o que nem sabíamos que sabíamos. E soltamos o corpo e o pensamento. Libertamos o mal que nos consumia em oculto. O azar é do nosso companheiro de mesa. Mas como ele, provavelmente, estará bêbado também, não tem problema nenhum, ninguém se fere. O problema é beber junto com quem não está bebendo bebida alcoolica, aí o pau come. Não sei porque usei essa expressão para finalizar a frase anterior? Talvez sejam os demônios do sexo se manifestando. Então vamos falar dessa casta também, pra não criar mais confusão entre os demônios.
Demônios são seres altamente eróticos. E aqui temos mais um tanto a aprender com eles. Os demônios são especialistas em putarias e sacanagens. Eles aumentam nossa libido e nos fazem amantes ousados e tarados. E quem entende de sexo sabe que imaginação e disposição são fundamentais.
O pior dos demônios é que eles são fofoqueiros, mas também ninguém é perfeito. Os demônios, que, como vimos, são solidários e afixionados em teconologia, ficam esperando a primeira oportunidade para falar pra todo mundo (pelo celular e/ou twitter) quem foi o último possuído e para culpar os seres humanos, que são errantes, por suas atitudes demoníacas. E isso não é legal porque faz a gente se envergonhar, e se arrepender, abrindo espaço para o discurso religioso e para a venda do perdão.
Pra finalizar, já que toquei nesse assunto (religião), vem a pior parte: demônios também vão para o céu. Não como demônios, mas como redimidos, perdoados, ex-demônios. Vão disfarçados porque sabem que não entrariam com suas próprias caras e roupas. E continuam a atuar livremente de lá de cima, influenciando (e até dirigindo) também os líderes religiosos, que os chamam de Legião (pra tristeza dos adoradores do rock dos infernais meninos de Brasília).
Em tempos de TIM (Time Is Money), tudo é vendido (até a mãe). E os demônios (que não têm mãe) são negociantes natos. A liberdade é o produto mais caro vendido pelos demônios. E quem não quer ser livre? Então, estamos lascados, porque teremos de pagar o preço da liberdade. A vida não é um inferno? E os demônios somos nós.
Você me perdoa?
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Inspirado no (ou possuído pelo) discurso de Chico Science, em "Monólogo ao pé do ouvido", primeira faixa do disco "Da lama ao caos". Ele diz o seguinte numa parte: "O medo dá origem ao mal/O homem coletivo sente necessidade de lutar/O orgulho, a arrogância, a glória/Enchem a imaginação de domínio/São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade".
Demônios existem. Eu mesmo conheço alguns. Eles estão por aí. E foram criados para serem nossos bodes expiátórios. Embora não saiba por que associar os demônios a essa figuras simpáticas e tipicamente nordestinas que são os bodes? Deve ser por causa do chifre pontiagudo. Mas vamos em frente, que de boas intenções o inferno está cheio. Os demônios produzem o mal. Então, quando realizamos o mal, também somos demônios. Mas preferimos colocar a culpa nos demônios (nos outros demônios, os invisíveis). É menos penoso pra nós quando nos colocamos como vítimas de um movimento espiritual (ínfernal) que conspira contra nós.
Demônios são seres comunicativos e antenados (e antenados aqui não tem relação com os chifres): são ligados em tecnologias de ponta e participam de redes sociais. São orkuts e facebooks demoníacos. Assim ficam sabendo dos problemas das pessoas e aparecem na hora certa para dar aquela forcinha, aquele empurrãozinho abismo abaixo.
Uma coisa que me intriga é como os demônios possuem também objetos? Há o demônio da garrafa de cerveja (e de outras bebidas alcoolicas), o demônio do cigarro (e de outros tipos de fumos, se bem que estejamos em pleno furor anti-tabagista), o demônio da TV (aberta, porque a TV fechada é um paraíso), o demônio do jogo (incluindo as bolsas de valores), o demônio da saúde pública (um dos mais assustadores) e o demônio do consumismo (e de outros ismos). E há outros tantos demônios encarnados em coisas materiais as mais variadas. Todos sempre querendo fazer o mal a algum incauto.
Demônios são também solidários. E nesse aspecto, temos muito a aprender com eles. Por exemplo, quando abrimos uma garrafa de cerveja, libertamos o demônio preso ali. Depois de beber algumas garrafas, os demônios libertos se juntam para libertar o demônio que está preso dentro de nós. E aí soltamos a língua (e outras coisas mais). Quando estamos possuídos pelos demônios das garrafas de bebidas alcoolicas, começamos, por exemplo, a falar até sobre o que nem sabíamos que sabíamos. E soltamos o corpo e o pensamento. Libertamos o mal que nos consumia em oculto. O azar é do nosso companheiro de mesa. Mas como ele, provavelmente, estará bêbado também, não tem problema nenhum, ninguém se fere. O problema é beber junto com quem não está bebendo bebida alcoolica, aí o pau come. Não sei porque usei essa expressão para finalizar a frase anterior? Talvez sejam os demônios do sexo se manifestando. Então vamos falar dessa casta também, pra não criar mais confusão entre os demônios.
Demônios são seres altamente eróticos. E aqui temos mais um tanto a aprender com eles. Os demônios são especialistas em putarias e sacanagens. Eles aumentam nossa libido e nos fazem amantes ousados e tarados. E quem entende de sexo sabe que imaginação e disposição são fundamentais.
O pior dos demônios é que eles são fofoqueiros, mas também ninguém é perfeito. Os demônios, que, como vimos, são solidários e afixionados em teconologia, ficam esperando a primeira oportunidade para falar pra todo mundo (pelo celular e/ou twitter) quem foi o último possuído e para culpar os seres humanos, que são errantes, por suas atitudes demoníacas. E isso não é legal porque faz a gente se envergonhar, e se arrepender, abrindo espaço para o discurso religioso e para a venda do perdão.
Pra finalizar, já que toquei nesse assunto (religião), vem a pior parte: demônios também vão para o céu. Não como demônios, mas como redimidos, perdoados, ex-demônios. Vão disfarçados porque sabem que não entrariam com suas próprias caras e roupas. E continuam a atuar livremente de lá de cima, influenciando (e até dirigindo) também os líderes religiosos, que os chamam de Legião (pra tristeza dos adoradores do rock dos infernais meninos de Brasília).
Em tempos de TIM (Time Is Money), tudo é vendido (até a mãe). E os demônios (que não têm mãe) são negociantes natos. A liberdade é o produto mais caro vendido pelos demônios. E quem não quer ser livre? Então, estamos lascados, porque teremos de pagar o preço da liberdade. A vida não é um inferno? E os demônios somos nós.
Você me perdoa?
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Inspirado no (ou possuído pelo) discurso de Chico Science, em "Monólogo ao pé do ouvido", primeira faixa do disco "Da lama ao caos". Ele diz o seguinte numa parte: "O medo dá origem ao mal/O homem coletivo sente necessidade de lutar/O orgulho, a arrogância, a glória/Enchem a imaginação de domínio/São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade".







