13/03/2007

Sucesso


Hoje vou apenas fazer a citação de um trecho do livro "Resistência e Submissão", do teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer. Bonhoeffer era alemão e foi preso e assassinado pelos nazistas por sua resistência ao governo de Hitler. Da prisão ele escreveu as seguintes palavras em tom indignado de crítica e até sarcasmo:
"A um mundo em que o sucesso é o parâmetro e a justificação de todas as coisas, a figura do condenado e crucificado permanece estranha e, na melhor das hipóteses, digna de compaixão. O mundo quer e deve ser vencido através do sucesso. Os atos decidem, não idéias ou opiniões. Somente o sucesso justifica injustiça havida. A culpa cicatriza no sucesso. Não faz sentido acusar o bem-sucedido de suas virtudes. Com isso se encalha no passado, enquanto o bem-sucedido vai progredindo de ação em ação, conquistando o futuro e tornando o passado irreversível. O bem-sucedido cria fatos consumados que nunca mais podem ser revogados; o que ele destrói nunca mais pode ser reconstruído; o que ele constrói adquire direito de existência ao menos na geração seguinte. Não há acusação que possa restabelecer a culpa que o bem-sucedido deixou atrás de si. Com o tempo, a acusação emudece; o sucesso fica e determina o curso da história. Os juízes da história são tristes figuras ao lado de seus protagonistas. A história passa por cima deles. Não há poder no mundo que possa ousar invocar com tamanha liberdade e naturalidade a tese de que o fim justifica os meios como a história o faz. (...) o sucesso é o bem por excelência".
Estava buscando palavras para escrever sobre o sucesso em nossos dias e me lembrei deste livro de Bonhoeffer. Acho que nem preciso escrever mais nada sobre isso.

12/03/2007

Ensinar e aprender


Ensinar é um verbo, uma ação, que pressupõe uma outra ação, e não apenas uma reação como poderia supor alguém que tomasse uma das leis básicas da física newtoniana ("toda ação corresponde a uma reação"). A ação que é necessária quando se ensina é a de aprender.
Em alguns idiomas, por exemplo, ensinar e aprender vêm da mesma raiz etimológica, como que indicando que não há ensino sem aprendizagem, e vice-versa. E mais, indicando que não há quem ensine que também não possa aprender. E não há quem aprenda que também não possa ensinar. Ensinar e aprender não são ações estanques, separadas. São ações complementares. Ensinar não é ativo e aprender, passivo, como se supunha há um tempo. Age quem ensina e age quem aprende.
Se não houver disposição para ensinar e disposição para aprender, não haverá o encontro mágico da produção de conhecimento. O conhecimento é produzido na junção destas duas ações (ensinar e aprender) que às vezes tem direções opostas e às vezes seguem na mesma direção. Mas nunca deixam de ser realizadas, sob pena de não haver produção de conhecimento. Nesta perspectiva, muitas de nossas técnicas e métodos de ensino e de nossas relações em sala de aula (por exemplo, "professor fala e aluno ouve") são improdutivas ou estão ultrapassadas.

11/03/2007

Justiça brasileira


A justiça brasileira é alvo de críticas ferrenhas de distanciamento da sociedade como um todo e proteção de certos setores da sociedade brasileira, nitidamente beneficiando as elites. Algumas dessas críticas podem ser oportunistas e outras mesmo descabidas. Podemos até ser levados a falar mal da justiça brasileira por um fator cultural, mania de falar mal das coisas, do sistema de justiça, por exemplo. Vá lá que seja. Mas estas críticas de termos criado uma justiça elitista, mesmo que seja cultural, está fundamentada em alguma coisa minimamente real. Essa crítica não é doidice de uma sociedade sempre insatisfeita, nem produzida por uma classe operária que não utiliza o sistema de justiça porque não confia nele, e que não confia no sistema de justiça porque não o utiliza, porque está distante dele.

Realmente, a cultura do favor prevalece(u) por muito tempo na administração da justiça no Brasil. A frase clássica de Getúlio Vargas (aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei) mostra esta relação paternalista da justiça brasileira com os donos do poder. Para voltar no tempo e perceber como essa crítica à justiça brasileira é historicamente estruturada e, portanto, não é descabida, Caio Prado Júnior define a justiça no Brasil colonial como "cara, morosa e complicada; inacessível mesmo à grande maioria da população". Tenho certeza que já melhorou muito em relação ao que era a justiça colonial brasileira. Mas que ainda há ranços históricos de elitismo, de apadrinhamento, de paternalismo, na justiça brasileira... Ah, isso há!

10/03/2007

Cultivo intelectual


Falamos de cultura como se fosse mesmo um conceito universal e entendido por todos de igual maneira, independente da cultura em que ele esteja inserido. Mais adequado seria falar em 'culturas', no plural, porque há muitos tipos de sentido para o termo, assim como há muitas culturas distintas.

Mas o sentido, sem dúvida, mais interessante, do ponto de vista do processo de cognição (conhecimento) e do papel político da cultura individual, é a cultura como como cultivo, como trabalho de reflexão e de apropriação da "visão de mundo" do outro. O sujeito culto antigamente era aquele que viajara o mundo, que conhecera outras culturas, que aprendera e observar e valorizar o sentido da vida de outras nações. Já não é mais. Simplesmente porque o consumismo transformou as culturas alheias também em mercadoria.

O cultivo da intelectualidade é como um lavrador que cultiva sua plantação, que planta, que rega, que poda, que limpa o terreno, que põe inseticida, que reza para que não haja intempéries (chuvas ou sol em excesso), que observa o desabrochar das flores, que espera a colheita e que, a seu tempo, colhe os frutos, ou os resultados esperados de seu trabalho e paciência. Cultivar a intelectualidade é conhecer criticamente. É duvidar dos fatos e buscar interpretações da realidade que se aproxime de uma "visão de mundo" consciente das circunstâncias, consciente de que os discursos são ideológicos e que, portanto, tendem a mascarar intenções, paixões, realidades.

Cultivar a intelectualidade é cultivar a resistência, é trabalhar arduamente para manter uma "visão de mundo" esclarecedora das situações que vivemos, mesmo (e principalmente) contrariando o discurso dominante. É trabalhoso, é cansativo, mas é necessário, para que não se sucumba ante os apelos consumistas e os discursos "convincentes" produzidos pelas mais diferentes instâncias de poder.

09/03/2007

Aborto


Ontem falei do sangramento mensal das mulheres como sinal de força, de renovação das forças. Não queria estragar o dia internacional das mulheres com aspectos negativos, mas há um sangramento feminino que não é bem vindo, que representa morte. É quando a data da menstruação atrasa e alguns dias e depois ela desce, com intensidade, levando embora o sonho da geração de outra vida. Um aborto espontâneo, natural, no início da gravidez, é mais comum do que se possa imaginar. Às vezes a mulher nem chega a tomar consciência da gravidez, acha apenas que foi uma menstruação atrasada. Mas quando se tem um resultado positivo de gravidez, qualquer sangue representa perigo. Quando é uma gravidez planejada então, ufa!
Passamos por esta experiência ontem. É difícil!
Acho que aborto, qualquer aborto, desejado ou não, em qualquer tempo de gravidez, é sempre difícil para a mulher, é uma perda.

08/03/2007

Mulher sangra


Dia internacional da mulher e quero falar de uma característica da mulher que num primeiro olhar pode parecer fraqueza, mas que á a maior razão da força delas: mulher sangra.
Tirando os aspectos médicos do sangramento mensal das mulheres, quando não há fecundação dentro do mês etc., quero falar dos aspectos simbólicos. Sangue ultimamente tem sido associado a morte, assassinatos, "banhos de sangue"... Mas sangue é vida, é sinônimo de vida, de energia.
O coração é a bomba de sangue do nosso corpo, levando o sangue aos órgãos e células que precisam dele. Quem já fez doação de sangue sabe o vigor que sentimos no dia seguinte à doação, são as células do sangue se renovando, é a geração de novas células sangüineas. Na hora da doação é aquela apatia, aquela prequiça. Ganhamos até despensa do trabalho se formos doar sangue?! Mas no dia seguinte, sai de baixo, que a gente se sente bem mais forte.
A mulher sangra todo mês. É a renovação da força da mulher. Não é doença, é saúde, é força que já vem. Os dias de sangramento são dias de dor, de preguiça, de cansaço ou de irritação. Ou tudo junto. Mas são dias de preparação para os outros dias que virão. E quem não percebe a força com que a mulher vive os outros dias do mês, mas só olha para os dias de sangue, não vê além de uma imagem distorcida da mulher. Uma mulher frágil, carente, nervosa... Mas ela tem direito de ficar assim alguns dias não? Nós homens ficamos assim quase todos os dias...
Quando a mulher sangra é sinal que vem força bruta por aí. Força para enfrentar os desafios da vida, força para lidar com os filhos, força para se relacionar com os homens. O fluxo sanguíneo mensal é a ronavação do fluxo da vida. É a força da vida feminina que está se configurando. Os homens precisavam sangrar mais, metaforicamente. Colocar pra fora as "porcarias" que carregam na alma, na mente, no coração. Sangrar é deixar esvair as forças para sentí-las de volta, gradativamente. Até sangrar de novo. E viver esse ciclo de renovação energética e simbólica. Símbolo de força.
Sangrar é o início da renovação. Precisamos, homens e mulheres, respeitar mais esse ritual feminino e aprender a lidar com ele de maneira positiva, confiante. Como quem sabe que desafios virão. E que se não fosse o sangramento mensal, sucumbiríamos, não só as mulheres como também os homens. Afinal, sem as forças delas...
Sangra Mulher! Força mulher! Sangremos todos!

07/03/2007

Briga de família


Talvez nada separe mais a família do que as festas de família. James Joyce vai mostrar um pouco isso, no conto "Os mortos", publicado no livro "Dublinenses". É muito interessante e próximo da realidade das famílias brasileiras. Vale à pena!

06/03/2007

Skate or die!

Quem era adolescente na década de 80 ou curtia andar de skate naquela época, sabe o que significa "Skate or Die!".
Gritávamos o jargão "skate or die!" antes de arriscar uma manobra ou na hora de descer a rampa (dropar). Era uma maneira de tomar coragem, de vencer um obstáculo que por um momento nos parecia intransponível, de jogar pra fora o medo gritando para o obstáculo que ele seria vencido.
Ao pé da letra, "skate or die!" significa algo como "andar de skate ou morrer!". Ou "prefiro morrer a deixar de andar de skate". Ou ainda, "andar de skate é enfrentar a morte". Parado que não se podia ficar. Ou enfrentávamos os desafios que se colocavam à frente ou não deveríamos mais andar de skate, porque andar de skate era, para nós, enfrentar desafios.
O final dos anos 70 e os anos 80 foram cheios dessas frases de efeito com o tema da morte: "Punks not dead" (algo como "uma vez punk, punk até morrer"); "Live and let die" ("Viva e deixe morrer", que foi um dos sucessos de James Bond) etc. O que se estava questionando era o limite do homem. Foram nos anos 80 que apareceram os precursores da geração experimental dos anos 90, que não tiveram medo de enfrentar e desafiar circunstâncias e limites humanos (grunge, bung jump etc.).
Falei tanto para chegar ao final e dizer que precisamos de frases prontas às vezes. Principalmente dessas frases gritadas que nos faz ter coragem para ir adiante. Porque às vezes a circunstância é mesmo desencorajadora, é difícil. Não é questão de auto-ajuda, mas de tentar encontrar forças para fazer o que é preciso ser feito, para tomar uma decisão. De ouvir umas palavras que nos encoraje, mesmo que elas venham de nós mesmos. Quem sabe gritar, "não vou deixar essa idéia morrer!"; ou "se as coisas continuarem como estão, é o fim!"; ou ainda, "vou tomar essa atitude mesmo desagradando à maioria, porque sei que é a certa"; ou simplesmente, "Senhor, me dá forças!", "socorro!", "alguém me ajude!", "é agora ou nunca!"...
Didi, esse é pra você, no seu dia. Parabéns!

02/03/2007

Anti-democracias brasileiras


Nas minhas andanças pelo Brasil tenho descoberto que as raízes anti-democráticas brasileiras são mais profundas do que talvez possamos imaginar, causando consequências graves para a estrutura social brasileira e para a auto-estima dos cidadãos brasileiros. Tenho visto todo tipo de abuso de poder e exploração do homem pelo homem: tráfico de influências, desprezo, assédios moral e sexual, humilhação, perseguição, exploração da força de trabalho.
Moro numa cidade onde alguns patrões se acham donos dos seus subordinados, como numa relação escravocrata que perdura. Os trabalhadores destes "senhores" são "proibidos" de ficar doentes, tem de voltar a trabalhar em uma semana após ter tido bebê, são vigiados por câmeras para não comer em serviço nem ficar à toa, realizam os trabalhos domésticos do patrão junto com o serviço obrigatório da empresa e não podem reclamar na justiça trabalhista por nenhuma irregularidade sofrida, sob pena de terem suas vidas desgraçadas.
Estes "senhores" (e "senhoras") se consideram e estão, de fato, acima da lei. Não há direitos para seus escravos, quer dizer, trabalhadores. Só o direito de ficar calado, para não ter suas palavras usadas contra si mesmos. A anti-democracia autoritária brasileira se alimenta da ignorância e da mão-de-obra barata para reproduzir a dificuldades que temos, como sociedade, de reconhecer os direitos do outro e de legitimar uma Justiça para todos.

01/03/2007

Ameaça de morte


Existe algo pior que a morte. A ameaça de morte. Se a morte significar dormência, a ameaça de morte significa insônia. É melhor estar morto do que viver com o terror de ser morto a qualquer momento. A ameaça de morte é mais destrutiva que a própria morte. Ela cria o medo da morte, que é pior que a própria morte. A morte até poderia ser vista como uma coisa boa, como sinônimo de descanso, mas passa a ser encarada como algo terrível. O descanso que a morte representaria se consumada, passa a tirar a paz de quem está sendo ameaçado. Vislumbrar a morte como o fim de uma jornada seria cruzar a linha final exausto e feliz, independente da posição em que se chegasse, certo de que cumpriu o seu dever. Mas aquele que é ameaçado de morte vê a sua jornada encurtada, mesmo antes da morte chegar. E pior, não por Deus, que é o dono da vida e dos destinos humanos, mas por alguém, igual a ele, que resolve ameaçá-lo de não completar sua jornada, de retirá-lo da vida.
Ameaçar de morte é matar antecipadamente. É matar nos nervos, nas emoções, na razão. É tirar a vontade de viver do sujeito ameaçado, que questiona seu tempo aqui e imagina seu fim iminente. Ameaçar de morte é descredibilizar a vida, a história pessoal. É derramar sangue sobre um pedaço de papel com muitas letras e palavras sem nexo nenhum. Ameaçar de morte é não reconhecer que essas letras e palavras tem um sentido próprio, que é a vida do sujeito e suas experiências. Pior, é confundir essas letras e palavras, retirando seu sentido. Fazendo o ameaçado acreditar que sua vida não teve sentido, que não valeu a pena vivê-la.
Estou falando da ameça de morte que se ameaça chamando pelo nome: "ei, Fulano, eu vou matar você. Eu vou acabar com sua vida!"Coisa mortal é a ameça de morte. Haja força para suportar. Haja terapia.